06

Dante De Luca

Realmente…

Cora Moreira era diferente.

Completamente diferente de todas as mulheres que já tentaram empurrar para cima de mim durante a vida inteira.

Na alta sociedade, ninguém se aproximava por sentimento.

Tudo era negócio.

Sobrenomes.

Fortunas.

Acordos.

Alianças políticas disfarçadas de casamento perfeito.

Eu cresci vendo mulheres sorrirem para mim enquanto seus pais calculavam quanto dinheiro ou influência poderiam ganhar através do sobrenome De Luca.

Era cansativo.

Artificial.

Vazio.

Mas Cora…

Cora parecia odiar tudo aquilo tanto quanto eu.

Ela não tentava me impressionar.

Não media palavras.

Não fingia elegância o tempo todo.

Ela reclamava.

Revirava os olhos.

Chamava minha mãe de maluca na minha cara.

E agora estava quase desmaiando de fraqueza porque simplesmente esqueceu de comer.

Que inferno de garota era essa?

— Eu vou para o quarto. — ela anunciou tentando se levantar do sofá.

Observei imediatamente o jeito que ela precisou se apoiar na parede.

Fraca.

Pálida.

Respirando devagar demais.

Revirei os olhos.

— Espera… eu te ajudo.

Antes que ela pudesse reclamar, passei um braço por trás das pernas dela e outro em suas costas, pegando-a no colo.

Cora soltou um pequeno grito de surpresa.

— Dante! Pelo amor de Deus, não precisa disso!

Ignorei completamente enquanto começava a subir as escadas.

Ela era leve demais.

E isso me irritou por algum motivo.

— Não reclama, abelhinha.

A palavra saiu antes mesmo que eu percebesse.

E pior…

Eu comecei a rir.

Uma risada de verdade.

Alta.

Espontânea.

Coisa rara.

Cora arregalou os olhos imediatamente.

— Não acredito que você inventou um apelido ridículo desse pra mim.

Continuei rindo enquanto subia os degraus.

— Desculpa… não resisti.

Ela fechou os olhos dramaticamente.

— Isso foi horrível.

— Foi incrível.

— Não foi não.

— Foi sim, abelhinha.

Ela soltou um gemido derrotado.

— Eu odeio você.

— Mentira.

— Verdade absoluta.

Sorri involuntariamente.

Meu Deus.

Era tão fácil conversar com ela.

Tão natural.

Como se eu conhecesse Cora há anos.

Ela suspirou baixinho e apoiou as mãos no meu pescoço para se equilibrar melhor.

O simples toque fez meu corpo inteiro tensionar.

Droga.

Ela então deitou a cabeça no meu ombro.

E aquilo…

Aquilo quase acabou comigo.

Porque o perfume dela invadiu meus sentidos imediatamente.

Doce.

Leve.

Viciante.

— Não vou brigar com você… — a voz dela saiu enrolada. — Não estou me sentindo muito bem…

Meu sorriso desapareceu na mesma hora.

Olhei melhor para o rosto dela.

Pálida.

Olhos pesados.

Respiração lenta.

Franzi a testa imediatamente.

— Você está muito fraca.

Ela apenas resmungou algo incompreensível.

Subi o restante das escadas mais rápido.

— Você comeu hoje, Cora?

Silêncio.

Olhei para ela outra vez.

— Cora.

Ela abriu um olho lentamente.

— Acho que não…

Aquilo me irritou instantaneamente.

— Como assim acha?

— Eu estava ocupada quase morrendo.

— Isso não é desculpa.

Ela soltou uma risadinha fraca.

E meu Deus.

Até debilitada ela conseguia bagunçar minha cabeça.

Entrei no quarto dela e caminhei até a cama enorme.

Com cuidado, deitei ela sobre os lençóis.

Cora afundou imediatamente no colchão macio soltando um suspiro cansado.

Fiquei observando ela por alguns segundos.

E uma sensação estranha apertou meu peito.

Porque ela parecia vulnerável demais.

Pequena demais naquele quarto gigante.

E aquilo mexia comigo mais do que deveria.

Muito mais.

— Não dorme ainda. — falei.

Ela fez careta.

— Você é muito mandão.

— E você muito teimosa.

— Combinação horrível.

Quase sorri.

Quase.

Mas ainda estava irritado pelo fato dela não ter comido nada o dia inteiro.

Que tipo de pessoa passa o dia sem comer depois de quase morrer?

Desci as escadas imediatamente antes que ela apagasse de vez.

A mansão estava silenciosa.

Funcionários provavelmente espalhados pelos outros setores da casa.

Fui direto para cozinha.

E imediatamente percebi o caos.

Porque eu não fazia ideia do que preparar.

Abri a geladeira encarando os ingredientes como se fossem um desafio pessoal.

— O senhor precisa de ajuda?

Virei vendo uma das cozinheiras me olhando assustada.

Provavelmente porque nunca me viram na cozinha.

— Quero algo forte. — respondi. — Que sustente.

Ela piscou confusa.

— Forte?

— Sim. Comida de verdade. Não essas folhas gourmet que minha mãe inventa.

A mulher segurou a risada.

— Entendi.

Dez minutos depois eu estava subindo novamente com uma bandeja cheia.

Sopa.

Pão.

Suco.

Frutas.

E outras coisas que pareciam nutritivas o suficiente.

Quando entrei no quarto outra vez, encontrei Cora praticamente dormindo sentada.

Os cabelos bagunçados caiam sobre o rosto enquanto ela lutava contra o sono.

Meu peito apertou de novo.

Merda.

Coloquei a bandeja na cama dela e sentei na poltrona próxima.

— Come.

Ela abriu um olho lentamente.

— Eu não tô com fome.

Cruzei os braços imediatamente.

— Eu só saio daqui depois que você comer.

Ela gemeu derrotada.

— Dante…

— E se não comer sozinha, eu vou dar na sua boca.

Ela arregalou os olhos imediatamente.

E eu percebi o duplo sentido no mesmo instante.

Droga.

O silêncio caiu entre nós.

Pesado.

Quente.

Perigoso.

Porque os olhos dela prenderam nos meus.

E então aconteceu de novo.

Aquela tensão absurda.

Meu corpo inteiro ficou alerta.

Como se cada nervo despertasse ao mesmo tempo.

Cora desviou os olhos primeiro.

— Você fala essas coisas sem perceber?

— Às vezes.

— Isso é perigosíssimo.

Passei a mão no rosto tentando controlar a própria mente.

— Come logo.

Ela suspirou dramaticamente antes de pegar a colher.

Observei em silêncio enquanto ela tomava a sopa lentamente.

E aquilo deveria parecer uma cena normal.

Mas não parecia.

Porque existia intimidade demais no ar.

Uma intimidade estranha.

Como se estivéssemos atravessando uma linha invisível sem perceber.

— Você cozinha? — ela perguntou entre uma colherada e outra.

— Não.

— Então quem fez isso?

— A cozinheira.

Ela sorriu pequena.

— Ainda bem.

Revirei os olhos.

— Engraçadinha.

— Eu quase morri. Tenho direito ao humor.

Observei ela comer mais um pouco.

E então percebi uma coisa.

Ela estava tremendo levemente.

Franzi a testa.

— Está com frio?

— Um pouco.

Levantei imediatamente indo até o sofá do quarto.

Peguei uma manta grossa e voltei cobrindo ela cuidadosamente.

Cora me encarou surpresa.

— Você é sempre assim?

— Assim como?

— Cuidadoso.

A pergunta me pegou desprevenido.

Porque… eu não sabia responder.

Talvez não.

Talvez só estivesse sendo assim com ela.

E isso era perigoso.

Muito perigoso.

— Você quase morreu. — respondi simplesmente.

Ela ficou me olhando em silêncio.

Longo demais.

Meu coração desacelerou estranhamente sob aquele olhar.

Então ela sorriu.

Pequeno.

Cansado.

Mas sincero.

— Obrigada por cuidar de mim.

Aquilo bateu forte.

Forte demais.

Porque ninguém nunca dizia aquilo naquele mundo.

As pessoas agradeciam favores.

Dinheiro.

Negócios.

Mas não cuidado.

Não preocupação.

Desviei os olhos imediatamente.

— Continua comendo.

Ela riu baixinho.

Meu Deus.

Aquela risada ia acabar comigo.

Fiquei observando enquanto ela terminava a sopa devagar.

E sem perceber comecei a reparar em detalhes ridículos.

O jeito que ela franzia o nariz quando não gostava de algo.

A forma como enrolava o cabelo no dedo distraidamente.

Como os olhos dela pareciam ainda maiores sem maquiagem.

Como ela era bonita mesmo usando um moletom enorme.

Talvez mais bonita assim.

Mais real.

Mais ela.

— Você está me encarando de novo. — ela comentou de repente.

Droga.

— Não estou.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Está sim.

— Mania de perseguição.

— Dante.

Suspirei derrotado.

— Tá bom. Talvez um pouco.

Ela tentou esconder o sorriso.

— Isso é meio estranho.

— Concordo.

Mas não parei olhando.

Porque sinceramente…

Eu não conseguia.

Algo nela me puxava de um jeito absurdo.

E quanto mais tempo passava perto de Cora…

Mais eu percebia o tamanho do problema que ela seria na minha vida.

Ela terminou de comer alguns minutos depois.

Peguei a bandeja colocando na mesa lateral.

Quando me virei novamente, encontrei ela me observando.

Silenciosa.

Pensativa.

— O quê? — perguntei.

Ela hesitou alguns segundos.

— Você parece triste às vezes.

Aquilo me desmontou por um instante.

Porque ninguém nunca percebia essas coisas.

Ninguém.

Mas Cora percebia.

Merda.

Dei um sorriso sem humor.

— Você percebe demais.

— É um problema?

— Pode ser.

Ela continuou me olhando.

E pela primeira vez em muitos anos…

Eu tive vontade de contar coisas.

Coisas reais.

Coisas que nunca dizia pra ninguém.

Mas então lembrei quem ela era.

A noiva do meu irmão.

E imediatamente me afastei emocionalmente outra vez.

— Você precisa descansar. — falei ficando de pé.

Ela pareceu perceber a mudança imediata.

Os olhos dela escureceram minimamente.

— Ah.

Caminhei até a porta ignorando o aperto estranho no peito.

— Tenta não morrer de novo enquanto eu estiver longe, abelhinha.

Ela revirou os olhos.

— Continua horrível.

Sorri de lado.

— Boa noite, Cora.

— Boa noite… Dante.

E a forma como ela disse meu nome…

Baixa.

Suave.

Quase íntima…

Fez meu coração bater errado pela primeira vez em muito tempo.

{...}

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