05

Cora

Acordei assustada.

Meu corpo inteiro estava quente e meu coração batia tão rápido que parecia querer rasgar meu peito.

Por alguns segundos fiquei completamente perdida, encarando o teto branco acima de mim enquanto tentava recuperar o ar.

Eu tive um pesadelo.

Um pesadelo completamente absurdo.

Minha mãe estava doente.

Dona Alma apareceu me oferecendo dinheiro em troca de um casamento.

Eu fiquei noiva do filho dela.

Descobri que meu noivo era gay.

Então o irmão dele apareceu do nada, me salvou de morrer por causa de uma picada de abelha e, de alguma maneira totalmente doentia, surgiu uma tensão sexual gigantesca entre nós.

Sim.

Definitivamente um pesadelo ridículo.

Fechei os olhos com força tentando me acalmar.

Porque aquilo era impossível.

Completamente impossível.

Mas então ouvi uma voz masculina bem na minha frente.

- Ela apagou de novo?

Outra voz respondeu logo depois.

- Acho que sim.

Meu coração simplesmente parou.

Abri os olhos rapidamente.

E lá estavam eles.

Dante.

E Kael.

Os dois olhando para mim.

O pesadelo era real.

- Meu Deus... - murmurei passando a mão no rosto. - Isso tudo aconteceu de verdade.

Kael começou a rir imediatamente.

- Ela é engraçada.

- Você acha tudo engraçado. - Dante respondeu sem tirar os olhos de mim.

E isso me deixou ainda mais nervosa.

Porque ele estava me olhando de novo daquele jeito.

Intenso.

Profundo.

Como se eu fosse algum tipo de problema que ele ainda estava tentando entender.

Meu corpo reagiu imediatamente à atenção dele.

Ridículo.

Completamente ridículo.

- Como está se sentindo? - Dante perguntou.

A voz dele era baixa.

Rouca.

Perigosa demais para alguém que deveria ser apenas o irmão do meu noivo.

- Viva. - respondi. - O que já é surpreendente.

Kael se aproximou dramaticamente do sofá.

- Você quase morreu por causa de uma abelha. Isso é meio humilhante.

Revirei os olhos.

- Obrigada pelo apoio emocional.

- Disponha.

Dante soltou um pequeno riso nasal.

Meu Deus.

Até aquilo mexia comigo.

Que inferno.

Tentei me sentar direito no sofá enquanto minha cabeça ainda girava levemente.

Foi então que percebi algo pior:

Eu estava praticamente deitada no colo do Dante.

Congelei.

Ele percebeu na mesma hora.

Os olhos escuros desceram lentamente para mim.

E o ar ficou estranho outra vez.

Pesado.

Quente.

Perigoso.

Afastei-me rapidamente.

Rápido demais.

Porque acabei ficando tonta.

- Ei. - Dante segurou meu braço imediatamente. - Devagar.

O toque dele queimou minha pele.

Literalmente.

Minha respiração falhou por um segundo.

E ele percebeu.

Claro que percebeu.

Porque os olhos dele escureceram ainda mais.

Droga.

Droga.

Droga.

Kael observava tudo com a maior cara de entretenimento do mundo.

- Vocês dois têm uma tensão absurda.

- KAEL. - Dante rosnou.

- O quê? Estou apenas comentando fatos.

- Cala a boca.

Eu queria rir.

Mas também queria cavar um buraco e entrar nele.

Porque Kael estava certo.

E isso era horrível.

Absolutamente horrível.

Dante era o irmão do meu noivo.

O irmão do meu noivo.

Meu Deus.

Passei as mãos no rosto tentando reorganizar meus pensamentos.

- Certo... - murmurei. - Vamos fingir que eu não quase morri e ninguém ficou chupando meu pescoço hoje.

Kael engasgou de tanto rir.

Dante me encarou incrédulo.

- Eu estava tirando o ferrão.

- Eu sei! - respondi imediatamente. - Mas continua estranho quando falamos em voz alta.

Kael já estava praticamente chorando de rir.

- Eu amo ela.

- Você ama qualquer pessoa problemática. - Dante respondeu seco.

- E vocês dois estão me entregando entretenimento de qualidade. - Kael diz batendo palminhas.

Dante parecia prestes a matar o amigo.

E isso só piorava minha vontade de rir.

Meu Deus.

O que estava acontecendo comigo?

Horas atrás eu estava desesperada num hospital.

Agora estava sentada na sala de uma mansão milionária quase flertando com o irmão do meu noivo enquanto o melhor amigo dele fazia comentários inconvenientes.

Minha vida tinha perdido completamente o controle.

- Você precisa descansar. - Dante disse de repente.

Olhei para ele.

E foi um erro.

Porque aquele homem deveria ser proibido de olhar diretamente para alguém.

Os olhos escuros dele eram intensos demais.

Profundos demais.

Pareciam atravessar tudo.

- Estou bem. - menti.

Ele arqueou uma sobrancelha.

- Você quase parou de respirar.

- Pequenos detalhes.

Kael apontou para mim imediatamente.

- Humor duvidoso. Gostei mais ainda. - Kael não perdia uma.

Revirei os olhos.

- Você sempre fala tanto? - Pergunto olhando para Kael.

- Só quando estou confortável. - Ele me responde sentando na poltrona.

- Então você nunca cala a boca? - Digo revirando os olhos.

Dante soltou outra risada baixa.

E aquilo me pegou desprevenida novamente.

Porque eu percebi uma coisa estranha:

Dante parecia mais leve perto do Kael.

Mais humano.

Menos sombrio.

Ainda intenso.

Ainda perigosamente bonito.

Mas existia vida nele.

Uma vida que talvez pouca gente visse.

- Você devia voltar para o quarto. - Dante insistiu.

Cruzei os braços imediatamente.

- Você é sempre mandão assim?

- Só quando as pessoas quase morrem na minha frente.

Aquilo me deixou sem resposta por um segundo.

Porque a forma como ele falou...

Baixa.

Séria.

Quase irritada.

Parecia genuinamente abalado.

E isso mexeu comigo.

Mais do que deveria.

- Eu estou bem agora. - falei mais calma.

Ele me observou em silêncio.

Longo demais.

Como se tentasse decidir se acreditava em mim.

Meu coração começou a acelerar de novo.

E eu odiei isso.

Porque Otto nunca causou esse efeito em mim.

Nunca.

Otto me trazia paz.

Conforto.

Segurança.

Mas Dante...

Dante fazia meu corpo inteiro entrar em alerta.

Como se algo dentro de mim despertasse toda vez que ele chegava perto.

E aquilo era perigoso.

Muito perigoso.

Kael interrompeu meus pensamentos levantando da poltrona.

- Certo, já fui vela demais por hoje.

- Você definitivamente foi. - Dante respondeu.

- Mas antes... - ele apontou para nós dois. - Preciso dizer uma coisa.

Fechei os olhos.

Lá vinha problema.

- Vocês dois precisam parar de se olhar assim.

Meu rosto queimou imediatamente.

- A gente não se olha de jeito nenhum. - rebati rápido demais.

Kael sorriu lentamente.

- Exatamente.

Dante passou a mão no rosto claramente irritado.

- Vai embora, Kael.

- Já estou indo. Mas depois não digam que eu não avisei.

- Avisou o quê? - perguntei desconfiada.

Ele abriu um sorriso enorme.

- Que isso aqui vai dar merda.

- KAEL!

Ele saiu gargalhando antes que Dante conseguisse matar ele.

O silêncio caiu imediatamente na sala.

E piorou tudo.

Porque agora só existíamos nós dois.

Eu.

E Dante.

Sozinhos.

O ar parecia pesado outra vez.

Quente.

Denso.

Perigoso.

Desviei os olhos primeiro.

Covarde.

- Seu amigo é insuportável.

- Você se acostuma.

- Todo mundo nessa família fala isso.

Ele sorriu de lado.

- Porque é verdade.

Meus olhos acabaram indo para boca dele sem querer.

Merda.

Grande erro.

Porque a lembrança daquela boca na minha pele voltou imediatamente.

Meu corpo inteiro respondeu.

E pelo jeito que o olhar dele escureceu...

O dele também.

Meu Deus.

Levantei rápido demais do sofá.

Ou tentei.

Porque minhas pernas ainda estavam fracas.

Cambaleei imediatamente.

Dante segurou minha cintura antes que eu caísse.

E foi o pior erro possível.

Porque dessa vez nossos corpos ficaram colados.

Muito próximos.

Muito mesmo.

Minha respiração travou.

As mãos dele apertaram minha cintura instintivamente.

E então aconteceu.

Aquele silêncio estranho.

Pesado.

Onde o mundo inteiro parece desaparecer.

Os olhos dele desceram lentamente para minha boca.

Meu coração bateu tão forte que achei que ele pudesse ouvir.

Meu Deus.

Aquilo era errado.

Errado.

Errado.

Mas então por que parecia tão inevitável?

- Cora... - a voz dele saiu baixa.

Rouca.

Perigosa.

Levantei os olhos lentamente encontrando os dele.

Escuros.

Quentes.

Famintos.

E aquilo me assustou.

Porque eu reconheci o mesmo sentimento dentro de mim.

Droga.

Dante aproximou o rosto minimamente.

Só um pouco.

Mas foi suficiente para meu corpo inteiro entrar em combustão.

Eu deveria me afastar.

Deveria.

Mas não consegui.

Porque alguma coisa nele me puxava.

Algo irracional.

Quase magnético.

E isso era assustador.

Muito assustador.

Então o celular dele tocou.

O som alto destruiu completamente o momento.

Nós dois nos afastamos imediatamente.

Como se tivéssemos acordado de algum transe perigoso.

Dante xingou baixo passando a mão no rosto.

Pegou o celular irritado.

Mas sua expressão mudou no instante seguinte.

Ficou fria.

Tensa.

- É a minha mãe. - disse olhando para mim.

Meu estômago despencou imediatamente.

Dona Alma.

Meu Deus.

Dante atendeu.

- O que foi?

Silêncio.

Observei a expressão dele endurecer cada vez mais.

- Não. - respondeu frio. - Eu não vou voltar agora.

Mais silêncio.

Os olhos dele escureceram perigosamente.

- Porque eu disse que não.

Meu coração acelerou.

A forma como ele falava com Alma...

Era como se os dois estivessem constantemente em guerra.

- Para de tentar controlar tudo. - ele falou entre os dentes. - Nem todo mundo vive para obedecer você.

Silêncio outra vez.

Então ele desligou na cara dela.

Na cara dela.

Fiquei chocada.

- Você desligou na cara da sua mãe.

Dante jogou o celular no sofá irritado.

- Ela mereceu.

- Meu Deus... ela vai te matar.

Ele soltou uma risada sem humor.

- Ela pode tentar.

E pela primeira vez...

Eu realmente acreditei que Dante De Luca era capaz de destruir qualquer pessoa que ameaçasse quem ele ama.

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