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Capítulo 4 — Eu sei que você não matou seu marido

POV Jullie

Encarei o homem sentado à minha frente através da névoa de exaustão e pânico. 

Daniel Toledo. Eu conhecia esse nome. 

Não dos jantares de gala da elite jurídica ou das colunas sociais onde o sobrenome Goulart brilhava, mas dos relatórios de processos da periferia. Ele era o advogado que os promotores veteranos do meu gabinete chamavam de "o lobo solitário" — um homem sem linhagem, sem padrinhos políticos, mas com uma língua afiada e uma presença de tribunal que desestabilizava qualquer acusação.

— O que você está fazendo aqui, Dr. Toledo? — perguntei, a voz saindo falhada, áspera. Tentei limpar o rosto no ombro do vestido, mas só consegui borrar ainda mais a crosta de sangue seco. — Eu não te contratei. Eu não liguei para ninguém.

Daniel recostou-se na cadeira de ferro, cruzando os braços. Seus olhos escuros mapearam cada mancha de sangue no meu vestido, a areia grudada na minha pele, o tremor incontrolável dos meus lábios.

— Ninguém ligou, Jullie — ele disse, usando meu primeiro nome sem pedir licença, a voz barítona mantendo um tom desconcertantemente calmo. — Seu sogro, Humberto Goulart, colocou os quatro maiores escritórios criminalistas do país no caso. Mas nenhum deles veio defender você. Eles vieram como assistentes de acusação. Eles querem a sua cabeça numa bandeja antes do jantar.

Um calafrio violento percorreu minha espinha. Humberto. O pai adotivo de Gustavo sempre fora um homem frio, mas a velocidade com que ele havia se virado contra mim era assustadora.

— Eles estão errados... — forcei as palavras para fora, as lágrimas ameaçando voltar. — Eu amo o Gustavo. Eu nunca... eu seria incapaz de tocar num fio de cabelo dele! Alguém nos atacou naquela lancha. Alguém me dopou!

— Eu sei — Daniel respondeu, curto e grosso.

Pisquei, atônita.

— Você... o quê?

— Eu sei que você não matou seu marido — ele repetiu, inclinando-se para a frente, apoiando os antebraços na mesa de madeira descascada. A proximidade dele trouxe um cheiro suave de café e perfume amadeirado, algo que quebrou por um segundo o odor nauseabundo de ferro que emanava de mim. — E não é porque eu acho você uma alma caridosa, Dra. Medeiros. É porque eu li a cópia do seu inquérito que um contato me passou há duas horas.

Daniel soltou uma risada ríspida, irônica, que fez o policial civil no canto da sala se mexer, desconfortável.

— Uma perícia de DNA que sai em menos de seis horas em pleno sábado? Um laudo de hematologia que atesta "incompatibilidade com a vida" baseado apenas em manchas no lençol, sem um corpo para necropsiar? — Daniel balançou a cabeça, os olhos brilhando com um misto de escárnio e pura inteligência jurídica. — Isso não é uma investigação policial, Jullie. Isso é um roteiro de novela mal escrito. Alguém com muito dinheiro e muita pressa desenhou esse cenário para prender você antes que você pudesse abrir a boca para se defender. E o seu querido sogro já está pagando os principais portais de notícias para garantir que você seja o monstro do horário nobre.

— Se você sabe disso... por que quer o caso? — desconfiei, a mente de promotora tentando achar a armadilha. — Minha carreira acabou. Minhas contas vão ser bloqueadas pela justiça a pedido dos Goulart. Eu não tenho como pagar os seus honorários, Dr. Toledo. Não tenho como pagar nem uma fração do que o seu escritório vale.

Daniel fixou os olhos nos meus. Não havia ganância ali. Havia o brilho perigoso de um homem que vivia para desafiar os gigantes.

— Eu sou filho de uma enfermeira de hospital público e de um professor de história, Jullie. Eu não bebo o champanhe dos Goulart e não devo favores a nenhum juiz deste Estado. Eu não vim aqui pelo seu dinheiro.

— Então veio pelo quê? Pela fama de defender a ré mais odiada do país?

— Vim porque detesto o jogo ganho — ele disparou, com um sorriso de canto que era puro magnetismo e petulância. — E porque ver a promotora mais implacável do Ministério Público ser caçada pelos mesmos lobos que ela tentava prender... me deu uma vontade absurda de quebrar as regras. Eu vou assinar a sua procuração. E nós vamos virar esse tabuleiro de cabeça para baixo.

Antes que eu pudesse responder, a porta da sala de interrogatório foi aberta com um estrondo. O delegado encarregado entrou, jogando um maço de papéis na mesa, acompanhado por duas agentes penitenciárias armadas.

— Acabou o tempo do cafezinho, Toledo — o delegado rosnou, apontando para mim. — O juiz de plantão acabou de assinar a conversão da prisão em flagrante em preventiva. Ela não vai para casa. Vai direto para a Penitenciária Feminina de Talavera Bruce. Levem a presa.

O pânico voltou a me sufocar. Talavera Bruce. O presídio de segurança máxima do Estado. O lugar para onde eu, nos últimos cinco anos, havia enviado dezenas de mulheres chefes de facções e criminosas violentas. Ir para lá significava uma sentença de morte.

— Não! Espera! — gritei, sendo puxada para cima pelas agentes. Meus pés descalços arrastaram no chão. Olhei para Daniel, o desespero quebrando a última barreira do meu orgulho. — Daniel!

Daniel Toledo levantou-se lentamente. Ele não se alterou com os gritos ou com a pressa dos policiais. Ele apenas ajeitou o paletó escuro, caminhou até mim e, quebrando qualquer protocolo, segurou meu queixo com uma das mãos, forçando-me a focar na firmeza do seu olhar. O toque de seus dedos na minha pele suja era quente, firme e absurdamente protetor.

— Olhe para mim, Jullie — ele ordenou, a voz baixa, mas potente o suficiente para calar o barulho da sala. — Ergue esse queixo. Você ainda é uma promotora de justiça. Não deixe que vejam o seu medo. Deixe que eu cuido das hienas lá fora. Você confia em mim?

Engoli em seco, sentindo a eletricidade daquele toque percorrer meu corpo debilitado. Eu não o conhecia. Ele era o oposto de tudo o que Gustavo representava. Mas no meio do meu oceano de sangue e mentiras, Daniel Toledo era a única rocha sólida onde eu podia me agarrar.

— Confio — sussurrei.

— Ótimo — ele soltou meu rosto, virando-se para o delegado com um sorriso gélido. — Preparem o circo, cavalheiros. Porque eu acabo de entrar no caso. E o inferno de vocês começa agora.

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