Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Daniel Toledo
Ajeitei os óculos de grau no rosto, ajustando a armação de acetato preto enquanto passava a quinta folha do relatório da Corregedoria. No canto da minha mesa, a caneca de café forte já estava fria, mas eu não me importava. Meus olhos estavam fixos na tela do notebook, assistindo à transmissão ao vivo do plantão da TV.
“...A promotora Jullie Medeiros acaba de ser detida, acusada de matar seu próprio marido, Gustavo Goulart...”
A imagem na tela mostrava um camburão da Polícia Civil cruzando uma barreira de jornalistas histéricos. Flashes estouravam contra os vidros escuros do carro. Na tela, uma foto antiga de Jullie ilustrava a reportagem: vestindo a beca do Ministério Público, o cabelo loiro perfeitamente alinhado, os olhos expressivos cheios de uma determinação que costumava fazer os criminosos mais audaciosos gaguejarem diante dela.
Linda. Brilhante. E, agora, completamente destruída.
Soltei uma risada anêmica, tirando os óculos e esfregando a ponte do nariz.
Eu a conhecia. Não porque tivéssemos tomado um café juntos ou trocado cumprimentos nos corredores frios do Fórum Central. Jullie Medeiros operava no topo, na elite do Ministério Público, cercada por juízes de sobrenomes tradicionais e bajuladores de colarinho branco. Eu operava nas trincheiras, defendendo quem o Estado queria enterrar vivo.
Mas eu a observava.
Nos últimos dois anos, sempre que nossos caminhos se cruzavam casualmente em alguma audiência de grande repercussão, eu me pegava analisando a postura dela. Enquanto os outros promotores usavam a arrogância do cargo para se impor, Jullie usava o cérebro. Ela era impecável. Tinha uma paixão ardente pela justiça que me fazia, no fundo do meu cinismo profissional, admirá-la em silêncio.
Só que Jullie nunca me viu.
Nas poucas vezes em que passei por ela, seus olhos estavam fixos na tela do celular, respondendo a alguma mensagem com um sorriso doce que eu sabia que não era para o trabalho. Era para ele. Gustavo Goulart. O herdeiro bilionário, o marido perfeito, o homem que ela ostentava nas redes sociais como seu porto seguro. Jullie tinha uma lealdade quase cega àquele homem. Ela andava pelo Fórum como se o resto do mundo fosse invisível, porque o seu universo inteiro girava em torno do casamento.
E agora, o universo dela tinha se transformado em um matadouro.
— Daniel? — a porta do meu escritório se abriu e Wagner "Alemão" entrou, jogando uma pasta de couro em cima da minha mesa. O ex-policial civil tinha aquela cara de poucos amigos de sempre, mas seus olhos traziam uma urgência incomum. — Consegui a cópia integral do inquérito da lancha com um contato do plantão. Você não vai acreditar na sujeira.
Coloquei os óculos novamente, abrindo a pasta. À medida que meus olhos corriam pelas primeiras páginas, as fotos da cabine ensanguentada, o laudo pericial feito às pressas, o depoimento do delegado, meu sangue começou a esquentar. Uma sensação familiar e perigosa subiu pela minha espinha.
— Eles nem tentaram disfarçar, Alemão — murmurei, batendo o dedo indicador contra a foto do lençol encharcado. — Olha o volume desse sangue. Para um homem ter perdido tudo isso em uma cabine fechada, haveria marcas de jatos nas paredes, projeção arterial. Isso aqui foi despejado. Foi um trabalho de palco.
— O velho Humberto Goulart já acionou os maiores escritórios de advocacia do país para entrarem como assistentes de acusação — Alemão comentou, cruzando os braços musculosos. — Eles querem o julgamento em tempo recorde. Ninguém vai pegar a defesa dessa mulher, Daniel. O país inteiro está com sede de sangue, e o sobrenome Goulart compra até o silêncio dos santos. Se a gente se meter nisso, os nossos clientes ricos da área empresarial vão debandar. O escritório vai quebrar.
Levantei-me da cadeira, caminhando até a janela que dava para a avenida movimentada. O reflexo nos vidros mostrava o terno escuro que minha mãe havia insistido para que eu comprasse quando abri o escritório, dizendo que um homem precisava parecer um escudo para os seus clientes.
Os escritórios de elite tinham medo do dinheiro de Humberto Goulart. Eu? Eu tinha o sangue de uma enfermeira de pronto-socorro e de um professor de história correndo nas veias. Aprendi cedo que o tamanho do monstro só importa se você tiver medo de apanhar.
E eu nunca tive.
Jullie Medeiros tinha passado os últimos anos sendo a face da lei, mas agora a mesma máquina que ela defendia estava prestes a triturá-la para encobrir algo muito maior. Ela estava sozinha. O marido perfeito tinha sumido no mar, a família do bilionário queria o couro dela e a imprensa já tinha acendido a fogueira.
A lembrança daqueles olhos determinados, que agora deviam estar cheios de lágrimas em uma cela imunda, mexeu com algo dentro de mim que eu tentava manter controlado há muito tempo.
— Arrume as suas coisas, Alemão — disse, fechando a pasta de couro com um estalo firme. Tirei os óculos de leitura, guardando-os no bolso interno do paletó, e olhei para o meu investigador com um sorriso de canto, aquele que ele sabia que significava problemas para os nossos adversários.
— Você vai mesmo fazer isso? — Alemão suspirou, embora já soubesse a resposta.
— O Ministério Público achou que ia fazer um banquete com a carne dela — respondi, pegando as chaves do carro. — Mas eles esqueceram que, para pegar a promotora, eles vão ter que passar pelo lobo primeiro. Vamos para a delegacia. Eu vou tirar a Jullie daquele inferno.







