Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Jullie
Algumas horas depois
O metal frio do banco da delegacia parecia congelar a minha pele, mas nada era mais frio do que o vazio que se instalava no meu peito. Eu ainda tremia. Não de frio, mas pelo choque que fazia cada músculo do meu corpo entrar em espasmo.
Minhas mãos continuavam algemadas para trás. O sangue de Gustavo havia secado na minha pele, repuxando a cada movimento, transformando-se em uma crosta marrom que cheirava a ferro e a morte.
— Eu preciso saber... — minha voz saiu como um grasnido doloroso. Tentei tossir, a garganta arranhando por causa da poeira e do desespero. — Por favor, alguém me diz... Que horas são?
O policial civil que digitava o boletim de ocorrência na minha frente nem sequer tirou os olhos do monitor. O som mecânico das teclas batendo era a única resposta no cubículo abafado da sala de interrogatório.
— Que horas são?! — gritei, projetando meu corpo para a frente. O movimento brusco fez as algemas morderem meus pulsos, mas a dor física não era nada perto da agonia que me devorava. — Me responde! Por quanto tempo eu fiquei naquela praia? Por quanto tempo eu dormi?
O homem finalmente parou de digitar. Ele soltou um suspiro pesado, entediado, e se encostou na cadeira, me encarando com um desprezo que quase me fez sangrar por dentro.
— São quase meio-dia, doutora.
Meio-dia.
Minha mente tentou fazer o cálculo, mas os resquícios daquela névoa química ainda sabotavam meus pensamentos. Nós brindamos à meia-noite. Fizemos amor... Eu deitei a cabeça no peito dele... Senti os batimentos cardíacos do meu marido. Depois, ele me deu a taça. Lembrei-me de olhar para o relógio digital no painel da cabine da lancha enquanto bebia o último gole. Eram exatamente quatro horas da manhã quando meus olhos pesaram.
Eu havia acordado na praia com os refletores da polícia por volta das oito.
— Oito horas... — sussurrei, sentindo o ar sumir dos meus pulmões. O pânico me golpeou o estômago como um soco físico. — Eu fiquei apagada por quatro horas? Não... Não faz sentido. Eu não estava de ressaca. Eu não durmo assim!
— Quatro horas na praia, mais quatro horas no camburão e no exame de corpo de delito no IML onde você fingiu estar catatônica — o policial desdenhou, voltando a digitar. — Dá um total de oito horas de vácuo, Medeiros. Tempo mais do que suficiente para esfaquear um homem, arrastar o corpo até a amurada, jogar na água e tentar limpar a cena antes do sedativo que você mesma tomou fazer efeito.
— Não! Você não está entendendo! — as lágrimas voltaram a inundar meus olhos, quentes, abrindo caminho pela sujeira de areia no meu rosto. — Eu amo o meu marido! Eu amo o Gustavo! Nós estávamos comemorando três anos juntos! Por que eu faria isso? Por que eu destruiria a minha vida?
O desespero me venceu.
Curvei meu corpo sobre os meus próprios joelhos, soluçando alto, o som ecoando miserável na sala fria. Imagens da noite anterior passavam pela minha mente como um filme de terror em câmera lenta. O toque suave de Gustavo, as juras de amor dele, o calor do seu corpo unido ao meu... Aquilo não podia ser uma mentira. Não podia. Eu conhecia o homem com quem era casada. Sentia o amor dele em cada milímetro da minha pele.
“Eu te amo, Jullie. Nunca se esqueça disso.”
A frase que ele sussurrou antes de eu apagar ecoava na minha cabeça, mas agora, o tom parecia diferente. Não era o sussurro de um homem apaixonado. Era uma despedida.
Oito horas. Em oito horas, alguém havia entrado naquela lancha. Em oito horas, o homem que eu mais amava no mundo tinha sido arrancado de mim, retalhado, e o seu sangue tinha sido usado para me pintar como uma psicopata.
— Ele está vivo... — murmurei para mim mesma, os olhos fixos nas manchas escuras no meu vestido branco de linho. — Ele tem que estar vivo. O Gustavo não me deixaria aqui. Alguém o levou. Alguém armou isso para nós dois!
— O único laudo que chegou até agora é o de hematologia de campo, doutora — o policial interrompeu meus delírios com a frieza de um carrasco. — O volume de sangue na cabine é incompatível com a vida. Ninguém sobrevive àquela perda. Aceita que dói menos. O herdeiro dos Goulart está morto. E você vai mofar na cadeia pública por isso.
— Ele não está morto! — gritei com todas as minhas forças, batendo com as algemas contra a cadeira de ferro, o barulho ecoando alto. — Ele não pode estar morto! Gustavo!
A porta da sala de interrogatório se abriu abruptamente, interrompendo o meu surto de dor. Eu esperava ver o delegado com mais um papel de indiciamento, ou talvez a minha mãe, Sônia, chorando desesperada no corredor.
Mas o homem que passou pela soleira não pertencia àquele ambiente de desgraça.
Ele vestia um paletó escuro de corte simples, mas perfeitamente alinhado ao seu corpo de ombros largos. Tinha traços firmes, uma barba rala bem desenhada e olhos tão escuros e profundos que pareciam capazes de ler os meus segredos mais sombrios. Havia uma quietude desconcertante nele, um contraste absoluto com os gritos e o caos que dominavam a delegacia.
O homem caminhou até a mesa, ignorando completamente o policial, e fixou o olhar em mim. Não havia pena nos seus olhos. Também não havia o nojo que todos os outros tinham me direcionado desde a madrugada. Havia apenas uma avaliação fria, precisa.
E, pela primeira vez em oito horas, alguém me olhou como se eu ainda fosse um ser humano.
— O show de histeria da imprensa lá fora está maravilhoso, mas o tempo dela de parlatório começou agora — o homem falou. Sua voz era um barítono calmo, firme, que cortou o ar abafado da sala como uma lâmina afiada.
— Quem é você? — o policial questionou, estendendo a mão para o documento que o desconhecido jogou na mesa.
— Daniel Toledo — ele respondeu, puxando a cadeira de ferro ao meu lado e se sentando com uma elegância irônica. Ele olhou para os meus pulsos algemados e depois diretamente nos meus olhos. — E eu sou o único homem neste país capaz de garantir que você não passe os próximos trinta anos em uma cela de isolamento, Dra. Medeiros.







