Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Jullie
O frio. Foi a primeira coisa que me trouxe de volta à consciência. Um frio úmido, salgado e cortante que arrepiava a minha pele.
Minha cabeça latejava como se um trem estivesse passando por cima dos meus pensamentos. Uma dor aguda, concentrada logo atrás dos olhos, fazia o mundo girar antes mesmo de eu conseguir abri-los. Tentei levar a mão à testa, mas meus braços pareceram pesados, travados.
Quando finalmente forcei minhas pálpebras a se abrirem, a escuridão da noite foi rasgada por feixes violentos de luz azul e vermelha. Sirenes. Muitas sirenes, misturadas ao som ensurdecedor de um helicóptero que pairava acima de mim, agitando a areia.
Areia?
Pisquei, cuspindo os grãos que cobriam meu rosto. Eu não estava na cama confortável da cabine da lancha. Eu estava caída de bruços na areia úmida de uma praia deserta, a poucos metros de onde a lancha de Gustavo estava ancorada, balançando de forma fantasmagórica na arrebentação.
Tentei me apoiar para levantar, mas minhas mãos bateram em algo viscoso na minha própria roupa. Olhei para baixo, e o pouco ar que restava em meus pulmões sumiu.
O meu vestido branco de linho, o mesmo que Gustavo havia aberto com tanta adoração horas antes, estava encharcado. Da minha cintura até a barra, o tecido estava grudado ao meu corpo por uma crosta escura, pastosa e de um vermelho doentio. Minhas mãos e meus antebraços pareciam pintados da mesma substância.
Sangue. Havia litros de sangue em mim.
— Parada! Não se mexa! Mãos na cabeça agora! — vozes masculinas gritaram de cima do barranco que cercava a praia.
Passos pesados quebraram a vegetação rasteira. Policiais armados, com coletes balísticos e fuzis em punho, avançaram contra mim como se estivessem cercando um terrorista de alta periculosidade.
— Gustavo... — minha voz saiu como um sussurro estrangulado, a garganta seca como uma lixa. Olhei desesperadamente em direção à lancha. — Gustavo! Onde está o meu marido?!
Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, fui jogada contra a areia com violência. Um joelho pesado pressionou minhas costas, tirando meu fôlego, enquanto minhas mãos eram puxadas para trás e o aço frio e humilhante das algemas se fechava ao redor dos meus pulsos.
— O teatro acabou, Dra. Medeiros — a voz do delegado encarregado estalou acima de mim, fria, desprovida de qualquer vestígio do respeito que costumavam ter pela promotora de justiça titular da comarca. — A senhora está presa em flagrante por homicídio qualificado e ocultação de cadáver.
— O quê?! Não! Ficou louco?! — gritei, tentando lutar contra o peso do policial, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos misturadas à areia. — Nós fomos comemorar nosso aniversário! Alguém nos atacou! Cadê o Gustavo?!
— Alguém atacou? — o delegado soltou uma risada ríspida, apontando a lanterna para a cabine aberta da lancha, que estava escura com a luz de dentro apagada.
Pelo reflexo da luz, eu consegui ver o interior do quarto onde, horas antes, tínhamos feito amor. O cenário era um matadouro. Os lençóis brancos estavam completamente empapados de vermelho. Paredes, teto, o chão de madeira... tudo estava lavado em sangue. Uma faca de caça, que pertencia ao próprio Gustavo, estava caída no chão, brilhando com o mesmo fluido escuro.
— A perícia inicial acabou de confirmar. Não sobrou sangue suficiente naquele homem para que ele esteja vivo, doutora. E as únicas digitais na faca que o retalhou são as suas. A senhora o esfaqueou e jogou o corpo em alto-mar, mas a lancha derivou até a praia e o sedativo que a senhora tomou para fingir demência acabou fazendo você apagar aqui na areia.
— Não... Não! Isso é uma armadilha! Eu amo o meu marido! GUSTAVO! — meu grito rasgou a madrugada, um som de puro desespero que se perdeu no barulho das sirenes.
Fui arrastada pela areia, os pés descalços ferindo-se nas conchas. Quando os policiais me forçaram a subir a trilha em direção às viaturas, o verdadeiro inferno se revelou.
A imprensa já estava lá. Refletores gigantescos iluminavam a estrada de terra como se fosse o horário nobre da TV. Câmeras fotográficas disparavam flashes incessantes contra o meu rosto sujo de sangue e areia. E na linha de frente, segurando o microfone com um brilho quase doentio de satisfação nos olhos, estava a jornalista Letícia Brandão.
“Estamos ao vivo com o caso que choca o país”, a voz de Letícia ecoava, estridente. “A promotora Jullie Medeiros acaba de ser presa, acusada de assassinar brutalmente o herdeiro bilionário Gustavo Goulart a bordo de uma lancha. O que teria levado a mulher que aplicava a lei a se transformar na assassina mais fria da década?”
Olhei para a lente daquela câmera, sentindo o mundo sumir sob os meus pés. Enquanto a porta da viatura se fechava, me isolando do barulho do mundo, uma única lembrança confusa piscou na minha mente debilitada pelo sedativo.
Naquela madrugada, antes de eu apagar por completo... o cheiro do perfume de Gustavo não estava na cama. Estava perto da porta. E o olhar dele sobre mim não era de um homem bêbado ou cansado. Era o olhar de um carrasco.
Eu não sabia como, e não sabia por quê. Mas enquanto as lágrimas lavavam o sangue no meu rosto, eu tive a certeza de que a minha sentença já tinha sido assinada antes mesmo de eu acordar.







