Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio dentro do carro era denso, quebrado apenas pelo som baixo do motor e pelo sinal intermitente do GPS. Yasmin mantinha o olhar fixo na janela, observando os prédios de São Paulo passarem como borrões. Sua mente ainda repassava a cena no bar, a risadinha de Arthur ecoando como um insulto pessoal.
— Pode relaxar. Eu não mordo — ele disse, quebrando o gelo sem tirar os olhos do trânsito.
Yasmin virou o rosto devagar, analisando o perfil dele sob a iluminação amarela dos postes. Ele tinha uma mandíbula forte, mas a expressão não era de quem queria dominar o ambiente, ao contrário de Arthur.
— Eu não estou com medo de você — ela respondeu, a voz recuperando a firmeza. — Só estou tentando entender em que momento a minha noite virou esse roteiro de filme ruim. E, a propósito, eu ainda não sei o seu nome.
O rapaz deu um sorriso de canto, contido.
— Thiago. E antes que você pergunte, sim, eu conheço bem o Arthur. Crescemos juntos. Nossos pais se casaram quando a gente tinha sete anos, então ele é o mais próximo de um irmão que eu tenho.
Yasmin arqueou uma sobrancelha, surpresa. — Irmãos? Vocês não poderiam ser mais diferentes.
— É, a genética não ajudou, e a criação também não — Thiago explicou, mudando a marcha com precisão. — Veja bem, eu reconheço a sorte que tive. O Otávio, pai dele, me deu as mesmas escolas e as mesmas oportunidades. Não sou hipócrita de reclamar de barriga cheia, mas... o berço dele é diferente do meu. O Arthur nasceu achando que o mundo é um parquinho de diversões. Eu? Eu sempre soube que estava ali como convidado, mesmo que a conta fosse paga pela mesma pessoa.
Yas sentiu um nó na garganta. — Ele nem me defendeu. Ele riu, Thiago. Como se eu fosse... nada.
— O problema do Arthur não é maldade, Yasmin, é falta de espinha — Thiago disse, com uma sinceridade direta, sem o tom de lamento. — Ele quer ser o "cara legal" para o grupo. Ele se perde quando precisa escolher entre o que é certo e o que mantém o status dele com os amigos. Eu já perdi as contas de quantas vezes saímos no soco porque ele não sustenta o que faz. Ele é o tipo que prefere rir de uma piada idiota do que ser o único sério na mesa.
Ele deu de ombros, sem vitimismo, apenas constatando um fato.
— Eu entro naquela casa há anos e sei que, para a avó dele, eu ainda sou o "filho da Helena". Eu curto os privilégios, não sou bobo, mas não deixo o cheiro de whisky caro subir à cabeça. Eu sei de onde minha mãe veio. E vi como ele te olhou. Ele sabe que você é demais para o caminhãozinho dele, por isso recuou quando os amigos apertaram.
Yasmin suspirou, recostando a cabeça no banco. — Eu vim do subúrbio. Batalhei cada centavo para chegar onde estou. É de foder ser tratada como mercadoria por alguém que nunca teve que lavar um prato na vida.
— É — ele concordou, olhando para ela rapidamente. — O erro deles é achar que a gente quer fazer parte do mundo deles a qualquer custo. Às vezes, a gente só quer um pouco de decência.
Nesse momento, um som alto e prolongado interrompeu o desabafo: era o estômago de Yasmin roncando. Ela arregalou os olhos, sentindo as bochechas queimarem. Thiago deu uma risada leve, genuína, que desarmou o resto da tensão.
— Pelo visto, o jantar de luxo que o Arthur prometeu ficou só na promessa — Thiago brincou.
— Eu não comi nada desde o almoço. A raiva me deu fome — ela admitiu, rindo de si mesma.
Thiago olhou para o painel. — Olha, tem um McDonald's aqui perto. Se você não tiver problemas com gordura e sódio, eu acho que um Quarterão resolveria isso. O que acha?
Yas olhou para ele, vendo o brilho divertido nos olhos de Thiago. Ele era diferente. Não estava tentando impressioná-la; estava sendo real.
— Eu acho que um Quarterão é exatamente o que eu preciso para não morder o seu braço — ela respondeu, sorrindo de verdade.
Thiago sinalizou e entrou no drive-thru. Enquanto esperavam, Yasmin observava as mãos dele no volante e percebeu que, em meio ao caos daquela noite, o "quase irmão" do cara que a humilhou era a única pessoa que parecia entender o peso real das coisas.







