Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ar frio da noite paulistana atingiu o rosto de Yasmin assim que ela cruzou a porta de vidro do The Vault, mas não foi o suficiente para aplacar o incêndio que corria em suas veias. Ela caminhou apressada, o som dos seus saltos contra o asfalto do estacionamento ecoando como batidas de um tambor de guerra. Ela se sentia uma idiota. Não por ter ido ao bar, mas por ter permitido que um cara como o Arthur entrasse no seu espaço.
Ao chegar perto da área das vagas, a ficha caiu. Ela tinha ido de Uber. Estava sem carro, no meio da noite, e a adrenalina que a sustentou até ali começou a se transformar em uma pressão insuportável no peito. Yas parou ao lado de uma pilastra de concreto, longe da luz direta dos refletores, e sentiu a primeira lágrima quente escorrer. Ela odiava se sentir vulnerável.
— Que droga... — sussurrou para si mesma, limpando o rosto com as costas da mão, furiosa por estar chorando.
Não era choro por causa do Arthur. Era raiva. Ela tinha batalhado tanto, construído sua carreira e sua independência para chegar em um lugar e ser pautada como mercadoria por um bando de herdeiros vazios. E o pior: o homem que ela deixou entrar na sua cama assistiu a tudo com uma risadinha conivente.
Ela pegou o celular para chamar um carro, mas a tela parecia embaçada. Foi quando ouviu passos rápidos vindo da direção da saída do bar. Yas se encolheu contra a pilastra, querendo apenas desaparecer, mas não foi rápida o suficiente.
— Ei, espera! — a voz chamou.
Ela reconheceu o tom. Era o rapaz que tinha acabado de peitar o tal de Ricardo lá dentro. Ela limpou o rosto às pressas, endurecendo a expressão, e se virou para encarar o desconhecido. Ele vinha andando rápido, ajeitando a camiseta que parecia ter sido puxada durante a confusão.
— Vai embora. Eu não quero papo com nenhum de vocês — ela disparou, a voz saindo ríspida, carregada de defensiva.
O rapaz parou a alguns metros de distância. Ele viu o brilho das lágrimas nos olhos dela e imediatamente desviou o olhar, parecendo desconfortável com a situação.
— Calma. Eu não vim aqui pra encher o seu saco — ele disse, com uma voz firme, mas sem a arrogância que os outros tinham. — Eu vi que você saiu de um jeito... e depois do que aquele idiota falou, eu só queria ver se você precisava de ajuda.
Yas soltou uma risada amarga, cruzando os braços. — Ajuda? Você é um deles. Estava lá na mesa, rindo das mesmas piadas até o clima pesar. O que você quer? Ser o "bonzinho" da vez pra ver se consegue o que o Arthur perdeu? Acha que eu sou alguma garotinha perdida?
O rapaz respirou fundo, parecendo ofendido, mas manteve o controle. — Primeiro: eu não estava rindo. Eu estava lá porque infelizmente conheço aquelas peças, mas eu não sou como eles. E segundo: eu não quero nada de você, só não acho certo deixar alguém sair desse jeito no meio da noite, num estacionamento escuro.
— Eu chamo um Uber e saio daqui agora mesmo — ela disse, voltando a mexer no celular com as mãos ainda trêmulas.
— O aplicativo vai demorar séculos e o bar está quase fechando — ele insistiu, dando um passo à frente, mas mantendo uma distância respeitosa. — Olha, meu carro está logo ali. Eu te deixo em casa. Sem papo furado, sem gracinha.
Yasmin o encarou com desconfiança. Ela o achava parte do grupo de "amigos idiotas" do Arthur e não tinha motivo nenhum para confiar nele. Mas havia algo no olhar dele que era diferente. Não tinha aquele brilho predatório de quem quer conquistar algo; era apenas um olhar cansado, de quem também parecia estar de saco cheio de tudo aquilo.
— Por que você faria isso? — ela perguntou, direta. — Você nem me conhece.
— Exatamente por isso. Eu sei o tipo de lixo que você acabou de ouvir lá dentro e não queria que sua noite terminasse só com aquela imagem — ele respondeu de forma seca. — É só uma carona, Yasmin.
Ela estranhou ele saber o nome dela, mas lembrou que Arthur a tinha apresentado para a mesa toda. Yas olhou para o celular — o Uber estava dando vinte minutos de espera — e depois para o rapaz. O cansaço físico e mental finalmente começou a pesar.
— Se você tentar qualquer gracinha, eu juro que você não vai gostar do resultado — ela avisou, caminhando em direção ao carro dele, um modelo bem menos chamativo que os carros de luxo que estavam estacionados por ali.
— Pode ficar tranquila — ele disse, abrindo a porta para ela. — Eu sou o cara mais inofensivo que você vai conhecer hoje.
Yas entrou no carro, sentindo o cheiro de limpeza e o silêncio reconfortante do estofado. Enquanto ele dava a volta para assumir o volante, ela olhou pelo retrovisor e viu Arthur saindo do bar, olhando para os lados com cara de quem tinha acabado de perder o controle de tudo.
Ela desviou o olhar e encarou a estrada. Não sabia quem era aquele cara ao seu lado, mas no momento, qualquer distância do Arthur era lucro.







