Mundo de ficçãoIniciar sessãoThiago manobrou com precisão, entrando na pista do drive-thru. O painel luminoso do cardápio projetava uma luz branca e crua que cortou o interior do carro, revelando o rosto de Yasmin, que ainda mantinha as bochechas levemente coradas pelo flagrante do próprio estômago. Ele fez o pedido rapidamente pelo interfone, pegou o saco de papel que exalava o cheiro forte de sódio e batata frita quente e tirou o veículo dali.
Ele escolheu uma vaga nos fundos do estacionamento, uma área mais escura e afastada do movimento. Desligou os faróis, deixando apenas a iluminação fraca dos postes da rua alcançar o painel. No silêncio do carro, a adrenalina da confusão no bar começou a baixar, dando lugar ao cansaço físico.
Yasmin pegou o sanduíche e deu a primeira mordida sem cerimônia. Ela olhou para o próprio vestido preto justo e os saltos altos, soltando uma risada seca.
— Adeus, reputação de mulher sofisticada da agência — ela comentou, encostando a cabeça no banco. — Se os meus clientes me vissem jantando isso no banco do passageiro de um desconhecido, eu perdia metade das contas amanhã.
Thiago abriu a embalagem do dele com calma.
— Eu prefiro o que é de verdade. Pelo menos o hambúrguer não fica tentando te convencer de que vale mais do que entrega — ele rebateu, com uma ponta de ironia ácida que fez Yasmin lembrar imediatamente do comentário nojento de Ricardo na área VIP. — É mais honesto que muito papo de camarote.
Yasmin limpou os dedos no guardanapo de papel, observando o perfil dele. Ela já tinha processado o fato de ele ser meio-irmão do Arthur e de a mãe dele ter se casado com o pai do rapaz, mas a dinâmica daquela família ainda parecia uma caixinha fechada. Para ela, era só mais uma família rica de São Paulo; ela não tinha a menor dimensão do império ou do tamanho do dinheiro envolvido ali.
— E como é a relação de vocês no dia a dia? — ela perguntou, movida pela curiosidade, apoiando o braço na porta do carro e virando-se sutilmente para ele. — Mora todo mundo junto naquela mesma casa?
Thiago engoliu o alimento e bebeu um gole do refrigerante. Sua expressão mudou sutilmente, endurecendo de um jeito quase imperceptível. Ele evitou entrar em qualquer detalhe financeiro, familiar ou de negócios, cortando o assunto de propósito antes que ela pudesse cavar mais fundo.
— A gente divide o mesmo teto, só isso — ele respondeu, curto e seco. — Cada um no seu canto.
Yasmin percebeu o limite invisível que ele tinha acabado de impor e não insistiu. Mantendo o próprio controle emocional, ela apenas assentiu em silêncio.
O silêncio voltou a se instalar no interior do carro, mas agora a atmosfera era diferente. A química entre os dois não precisava de discursos ou confissões para se fazer notar; ela crescia justamente na proximidade forçada daquele espaço pequeno, no ritmo compassado da respiração de ambos e na forma como a tensão física se acumulava no ar enquanto o mundo lá fora continuava correndo na madrugada.
Yasmin recostou a cabeça no banco, tomando a decisão de recuar antes que a guarda baixasse completamente. Olhou para a janela lateral.
— É melhor eu ir para casa — ela disse, mantendo o tom firme. — Já tive problemas o suficiente por uma noite.
Thiago não tentou convencê-la do contrário. Ele apenas assentiu, aceitando a decisão dela sem insistir, sem joguinhos e sem forçar nenhuma intimidade que ela não estivesse disposta a dar.
Ele juntou as embalagens vazias no saco de papel, colocou-o no piso traseiro e girou a chave na ignição. O motor do carro roncou baixo, cortando o casulo que os envolvia.
— Qual é o endereço? — Thiago perguntou, o tom prático e seco voltando a dominar o ambiente enquanto ele engatava a marcha.







