Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 2
Maya estava sentada no meio da cama de Gabriele quando ela chegou. Usava um pijama estampado com pequenas estrelas, segurava uma tigela de pipoca e tinha a expressão ansiosa de quem aguardava o retorno da amiga havia horas. — Finalmente! Gabriele levou a mão ao peito. — Você quer me matar? — Quero saber tudo. — Como entrou? — Sua mãe abriu a porta. Disse que eu poderia esperar aqui, mas pediu para não deixar você inventar uma desculpa e dormir antes de contar sobre a festa. Gabriele fechou a porta do quarto. — Estou cansada. — Não me interessa. Maya bateu com a mão no espaço vazio da cama. — Senta. — Maya... — Gabriele Almeida, você foi a um baile de máscaras cheio de empresários, homens ricos e comida com nomes franceses. Não vai me dizer apenas que foi bonito. Gabriele tirou os sapatos e soltou um suspiro de alívio. — Esses instrumentos de tortura deveriam ser proibidos. Maya a examinou. — O vestido sobreviveu. — Por pouco. — Derrubou alguma coisa? — Quase um vaso e uma escultura de gelo. — Então foi uma noite normal. Gabriele sentou-se. Maya estreitou os olhos. — Aconteceu alguma coisa. — Por que acha isso? — Você está tocando a boca desde que entrou. Gabriele retirou a mão dos lábios. — Não estou. — Está, sim. — Um homem me beijou. Maya ficou completamente imóvel. A pipoca que segurava caiu de volta na tigela. — Você fez o quê? — Fale baixo. — Você beijou um desconhecido? — Tecnicamente, ele me beijou. — Tecnicamente, você o afastou? Gabriele permaneceu em silêncio. Os olhos de Maya aumentaram. — Você correspondeu! — Foi um reflexo. — Beijar homens misteriosos é seu novo reflexo? — Ele me confundiu com outra mulher. Maya parou de sorrir. — Isso piora bastante a história. — Eu sei. — Ele pediu desculpas? — Eu fugi antes. — Você viu o rosto? — Não. — Nada? Gabriele fechou os olhos. A memória surgiu com nitidez. A máscara preta. A barba curta. O relógio. O anel. Os sapatos de couro marrom. — Vi alguns detalhes. — Quais? — Ele era alto. Tinha barba. Usava um relógio com pulseira preta e um anel simples na mão direita. — Isso já ajuda. — Os sapatos eram marrons, com costura clara e um risco perto do salto. Maya a encarou. — Você foi beijada por um homem misterioso e ficou analisando os sapatos? — Tenho memória fotográfica. — A maioria das mulheres lembraria da boca. Gabriele sentiu o rosto esquentar. — Eu também lembro da boca. Maya abriu um sorriso. — E como foi? — Foi um beijo. — Péssima descrição. — Inesperado. — Continue. — Intenso. — Continue. — Não. Maya pegou uma almofada e abraçou. — Você gostou. — Não deveria ter gostado. — Isso não é uma negação. Gabriele levantou-se e caminhou até o espelho. Não conseguia se reconhecer na mulher refletida ali. Ela não beijava desconhecidos. Mal conseguia conversar com alguém sem imaginar como aquela pessoa funcionaria como personagem de um livro. Mas, durante alguns segundos, havia se entregado completamente àquele homem. — Ele estava esperando outra mulher — disse. — Quem? — Uma mulher de vestido vermelho. Ela o chamou de Amor. — Não ajudou muito. Gabriele levou a mão ao pescoço. Parou. Seus dedos tocaram apenas a pele. — Não. Maya deixou a tigela de lado. — O que foi? Gabriele abriu a bolsa e começou a procurar. Retirou o celular, o caderno, duas canetas, um recibo e um pequeno pacote de balas. Nada. — Perdi meu pingente. — O da sua avó? Ela assentiu. A pequena joia em formato de livro fora um presente de sua avó, Helena, a primeira pessoa que lera suas histórias e afirmara que Gabriele seria escritora. O objeto valia pouco financeiramente. Para ela, valia tudo. — Você estava usando quando saiu? — perguntou Maya. — Sim. — Pode ter caído no carro. Gabriele balançou a cabeça. A lembrança da mão do desconhecido tocando sua cintura voltou à sua mente. — Acho que perdi no hotel. Maya segurou sua mão. — Amanhã ligamos para lá. — Se alguém encontrou, pode ter levado. — Vamos encontrar. Gabriele sentou-se novamente. — Eu devia esquecer essa noite. — Você não vai. — Por que tem tanta certeza? — Porque já está transformando o homem em personagem. — Não estou. — Então pare de chamá-lo de desconhecido e dê um nome a ele. Gabriele olhou para o caderno azul sobre a cama. O homem fora arrogante ao presumir que ela participava de uma brincadeira. Misterioso. Elegante. E talvez completamente diferente da impressão que causara. Como um personagem que só poderia ser compreendido depois que o orgulho e o preconceito fossem deixados para trás. — Darcy — murmurou. Maya sorriu. — Como o senhor Darcy? — Ele parecia arrogante. — E beijava bem. — Isso não tem relação com o livro. — Devia ter. Gabriele pegou o caderno e escreveu na primeira página em branco: Cartas para Darcy Maya leu por cima de seu ombro. — Ficou bonito. Gabriele começou a escrever. Querido Darcy, Não sei seu nome, seu rosto ou por que ainda consigo sentir seu beijo. Sei apenas que você usava sapatos marrons e que me fez esquecer, por alguns segundos, que aquela história não era minha. Ela parou. — Você vai procurá-lo? — perguntou Maya. — Não. — Mentira. Gabriele fechou o caderno. — Segunda-feira começo na agência. Tenho problemas reais para resolver. — Você vai procurar. — Eu nem saberia por onde começar. Maya se levantou. — Pela lista de convidados. Gabriele olhou para ela. A ideia era absurda. Possivelmente inadequada. E muito tentadora. Naquela mesma noite, em outro ponto da cidade, Teodoro abriu uma gaveta ao lado da cama e depositou o pingente em formato de livro. Tentou responder e-mails. Não conseguiu. Tentou dormir. Também não conseguiu. O perfume da desconhecida ainda permanecia discretamente em seu paletó. Teodoro fechou os olhos. Por um instante, voltou a sentir a boca dela contra a sua. Abriu os olhos imediatamente. Aquilo fora um erro. Nada além disso. Seu celular vibrou. Era uma mensagem de Mateus. Precisamos conversar antes da reunião de segunda. Encontrei divergências nos contratos da sede. Teodoro franziu a testa. As diferenças entre os irmãos já existiam havia anos, mas haviam piorado depois da morte do pai. Mateus acreditava que deveria ocupar a presidência. Teodoro jamais quisera o cargo, mas aceitara a responsabilidade por causa da última promessa feita a Augusto Braga. Ele respondeu: Conversamos amanhã. Não tome nenhuma decisão sem mim. Guardou o celular. Depois abriu novamente a gaveta. O pequeno livro dourado parecia observá-lo. — Quem é você? — perguntou ao silêncio.






