Mundo de ficçãoIniciar sessão
Capítulo 1
Gabriele Almeida soube que não pertencia àquele baile antes mesmo de atravessar completamente as portas do salão. Talvez fossem os lustres de cristal, brilhando sobre centenas de convidados elegantes. Talvez fossem as mulheres cobertas por vestidos que provavelmente custavam mais do que todo o estoque do bazar de seu pai. Ou talvez fosse o simples fato de seus sapatos apertarem tanto que ela já considerava seriamente passar o restante da noite descalça. A máscara dourada também não ajudava. Por mais que Gabriele a ajustasse, o objeto insistia em deslizar por seu nariz. — Pare de mexer — pediu Izadora, sem desviar os olhos da lista de convidados. — Ela está tentando entrar na minha boca. — É uma máscara, não uma criatura viva. — Você não pode ter certeza. Izadora finalmente olhou para a irmã. O vestido azul-escuro que Gabriele usava fora emprestado por uma colega da agência. Tinha uma saia delicada, cintura marcada e pequenas pedras bordadas no busto. Os cabelos castanhos estavam presos parcialmente, deixando algumas mechas soltas ao redor do rosto. Apesar do desconforto evidente, estava bonita. Muito bonita. — Apenas tente se divertir — disse Izadora. — Você prometeu que ficaria comigo. — E vou ficar. Um homem de terno aproximou-se, segurando um rádio comunicador. — Izadora, tivemos um problema com duas credenciais na entrada lateral. Ela fechou os olhos por um instante. — Já vou. Gabriele cruzou os braços. — Você estava dizendo? — É trabalho. Resolvo em cinco minutos. — Seus cinco minutos costumam durar três horas. Izadora entregou-lhe uma taça. — Segure isso, sorria e não saia daqui. — O que tem dentro? — Espumante. Gabriele devolveu a taça. — Preciso começar no meu novo emprego sóbria. — Você começa na segunda-feira. — Exatamente. Ainda tenho pouco tempo para preservar minha reputação. Izadora respirou fundo. — Não derrube nada. — Você tem uma confiança comovente em mim. — Conheço você há vinte e quatro anos. Antes que Gabriele respondesse, a irmã desapareceu entre os convidados. Ela permaneceu parada por alguns segundos, cercada por pessoas que pareciam conhecer umas às outras. O baile beneficente era organizado pela Agência Braga, empresa onde Izadora trabalhava e onde Gabriele começaria como auxiliar de criação na segunda-feira. A mãe acreditava que aquela vaga seria o primeiro passo para Gabriele abandonar o bazar e exercer a profissão para a qual havia estudado. Gabriele esperava apenas não ser demitida na primeira semana. Um garçom passou perto demais. Ela recuou e esbarrou em um vaso decorativo. Segurou-o antes que caísse. — Ótimo — murmurou. — Dois minutos sozinha e quase destruí uma peça histórica. Decidiu procurar um lugar mais silencioso. Atravessou parte do salão e encontrou uma porta aberta, que levava a um corredor decorado com flores brancas. Ao fundo, havia uma varanda com vista para as luzes de São Paulo. O ar fresco da noite tocou seu rosto. Gabriele respirou aliviada. Vista do alto, a cidade parecia diferente. Menos caótica. Quase romântica. Ela retirou da pequena bolsa um caderno azul e uma caneta. Não conseguia evitar. Sempre que encontrava uma imagem bonita, sentia vontade de transformá-la em palavras. Escreveu: Às vezes, a cidade se disfarça de estrela para que ninguém perceba o quanto está cansada. — Bonito. A voz masculina surgiu atrás dela. Gabriele fechou o caderno depressa. Um homem estava parado à entrada da varanda. Era alto. Usava terno preto, camisa escura e uma máscara que cobria parte de seu rosto. A barba curta estava bem aparada, e os cabelos escuros pareciam levemente desalinhados. Havia algo seguro em sua postura. Seguro demais. — Não costumo mostrar o que escrevo — disse ela. — Eu não pedi para mostrar. — Mas leu. — Você deixou o caderno aberto. Gabriele o guardou na bolsa. — E você costuma observar desconhecidas escrevendo? Ele se aproximou. — Você é quem está fingindo não me conhecer. Ela franziu a testa. — Desculpe? O homem parou diante dela. — Até que enfim apareceu. Gabriele olhou para trás, esperando encontrar outra pessoa. Não havia ninguém. — Acho que está me confundindo. — Ainda está brava comigo? — Eu não estava brava até agora. Ele soltou uma risada baixa. A voz era grave, agradável e levemente rouca. Gabriele reparou em suas mãos. Em um anel liso no dedo direito. No relógio de pulseira preta. Depois olhou para os sapatos. Couro marrom-escuro. Costura clara nas laterais. Um pequeno risco próximo ao salto direito. Ela sempre percebia detalhes. — Eu realmente não sei quem você é — insistiu. O homem inclinou a cabeça, analisando-a por trás da máscara. — Então podemos fingir que somos desconhecidos esta noite. — Não estamos fingindo. Ele segurou a mão dela. O toque foi delicado, mas íntimo demais para duas pessoas que nunca haviam se visto. Gabriele tentou recuar. — Senhor... — Não diga nada. — Eu deveria dizer várias coisas. — Provavelmente. Ele a puxou para mais perto. A mão masculina tocou sua cintura, e Gabriele sentiu o coração acelerar. — Espere. Você realmente está me confundindo com alguém. Por um segundo, ele hesitou. Os olhos castanhos a observaram através da máscara. Então o homem sorriu. — Continua tentando me castigar. Antes que Gabriele pudesse responder, ele a beijou. Seu primeiro impulso foi afastá-lo. O segundo jamais chegou a se formar. Os lábios masculinos tocaram os seus com uma hesitação breve, quase uma pergunta. Mas, quando Gabriele segurou instintivamente o paletó dele, o beijo mudou. Tornou-se mais profundo. Mais quente. A mão em sua cintura a trouxe para mais perto, enquanto o cheiro amadeirado do desconhecido se misturava ao perfume das flores ao redor. Por alguns segundos, Gabriele esqueceu que não sabia quem ele era. Esqueceu o baile, o vestido emprestado e o novo trabalho. Esqueceu até mesmo que aquele beijo não deveria pertencer a ela. Então uma voz feminina ecoou pelo corredor. — Amor? O homem se afastou imediatamente. Uma mulher alta, usando vestido vermelho e máscara prateada, estava parada perto da porta. Mesmo com parte do rosto coberta, era possível perceber sua surpresa. O desconhecido olhou para ela. Depois voltou os olhos para Gabriele. A compreensão surgiu lentamente em sua expressão. — Você não é... Gabriele não esperou que ele terminasse. Soltou-se de seus braços e correu. — Espere! Ela atravessou o corredor, entrou no salão e desviou de dois garçons. Quase esbarrou em uma escultura de gelo, ouviu alguém reclamar quando pisou na barra de um vestido e continuou correndo até alcançar a saída. Não procurou Izadora. Não pensou no frio. Apenas entrou no primeiro táxi que encontrou. — Para onde? — perguntou o motorista. Gabriele informou o endereço com a respiração entrecortada. Quando o carro partiu, olhou para trás. O homem não a seguira. Ela tocou os próprios lábios. Ainda conseguia sentir o beijo. O calor das mãos. O perfume. E a humilhação de ter descoberto que fora confundida com outra mulher. Gabriele fechou os olhos. A imagem que permaneceu em sua memória não foi a máscara. Foram os sapatos marrons. A costura clara. O pequeno risco junto ao salto. No hotel, Teodoro Braga continuava imóvel na varanda. Lavínia cruzou os braços. — Imagino que tenha uma explicação maravilhosa. Ele passou a mão pelos cabelos. — Achei que fosse você. — Isso ficou evidente. — As máscaras eram parecidas. — Os vestidos não. — A iluminação estava baixa. Lavínia ergueu uma sobrancelha. — E você aparentemente decidiu não verificar antes de beijá-la. Teodoro olhou na direção em que a desconhecida fugira. — Eu errei. — Sim. — Preciso encontrá-la. — Para pedir desculpas? Ele não respondeu imediatamente. Lavínia sorriu. O relacionamento dos dois nunca fora convencional. Ela morava em Milão, viajava constantemente por causa do trabalho e passava poucas semanas por ano no Brasil. Teodoro também odiava rotinas, compromissos e qualquer relação que se parecesse com uma prisão. Por isso, haviam criado um acordo estranho, mas confortável. Quando estavam na mesma cidade e desejavam ficar juntos, ficavam. Quando estavam longe, cada um vivia a própria vida. Não havia promessas. Não havia cobranças. E certamente não havia planos de casamento. — Você não precisa me explicar — disse Lavínia. — Nunca prometemos exclusividade. — Não é por isso. — Eu sei. Teodoro ainda conseguia sentir o perfume da desconhecida. Era delicado, levemente adocicado e diferente de qualquer fragrância que conhecesse. Algo brilhou no chão. Ele se abaixou e encontrou um pequeno pingente dourado em formato de livro. Teodoro fechou os dedos ao redor da joia. — Parece que ela deixou uma pista — comentou Lavínia. Ele observou novamente o salão. Não sabia o nome da mulher. Não conhecia seu rosto. Mas, pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de permanecer em algum lugar até encontrar uma resposta.






