Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 4
A sala de Teodoro ficava no andar superior da agência. Era ampla, mas diferente do que Gabriele imaginava para um CEO. Havia fotografias de montanhas, praias e cidades estrangeiras nas paredes. Uma prancha de surfe ocupava um dos cantos, e uma câmera profissional descansava sobre uma estante. Nada de quadros com frases sobre liderança. Nada de móveis excessivamente luxuosos. Apenas uma mesa grande, algumas plantas e uma quantidade preocupante de documentos espalhados. Mateus Braga estava de pé diante da janela quando Teodoro entrou. Os irmãos eram parecidos apenas o suficiente para que ninguém duvidasse do parentesco. Mateus era mais novo, mas parecia mais formal. Usava um terno azul-marinho perfeitamente ajustado, gravata discreta e sapatos impecáveis. Seus olhos azuis e a postura elegante transmitiam uma educação quase fria. Teodoro largou uma pasta sobre a mesa. — Você disse que havia divergências. Mateus entregou-lhe alguns documentos. — A avaliação da sede foi solicitada sem que eu fosse informado. — Pedi apenas um estudo patrimonial. — Por quê? — Porque precisamos saber quanto vale o que temos. — Ou porque pretende vender? Teodoro ergueu os olhos. — Quem disse isso? — Ninguém precisa dizer. Você nunca quis ficar aqui. — Não querer o cargo não significa querer destruir a empresa. Mateus caminhou até a mesa. — Você desapareceu por anos, Teodoro. Viajou, fotografou, viveu como quis. Eu fiquei ao lado do nosso pai. Conheço cada contrato, cada cliente e cada dívida. — Eu sei. — Sabe? A pergunta carregava mais mágoa do que raiva. Teodoro recostou-se na cadeira. — Você acha que eu pedi para ser escolhido? — Não. Esse é o pior. Mateus soltou uma risada amarga. — Você recebeu tudo sem querer. Eu quis a vida inteira e não fui considerado suficiente. — Nosso pai tinha motivos. — Que nunca explicou. O silêncio pesou entre os dois. Augusto Braga havia fundado a agência quatro décadas antes. Durante sua doença, Teodoro voltara ao Brasil e assumira gradualmente a liderança. Pouco antes de morrer, o pai pedira que permanecesse no cargo. Teodoro aceitara por dever. Mateus interpretara como rejeição. — Não pretendo vender a agência — afirmou Teodoro. — Então cancele a avaliação. — Não administro uma empresa com base nas suas inseguranças. Os olhos de Mateus endureceram. — E eu não vou assistir você abandonar tudo quando se cansar. Ele recolheu os documentos. Antes de sair, parou junto à porta. — A nova funcionária é irmã da Izadora. — Gabriele. Mateus percebeu que ele lembrava o nome. — Ela já chamou sua atenção? — Chamou-me de mimado na copa. Um sorriso discreto surgiu no rosto de Mateus. — Então talvez seja mais corajosa do que Izadora descreveu. — Ou menos cuidadosa. Quando Mateus saiu, Teodoro olhou para a fotografia do pai sobre a estante. — Você poderia ter explicado melhor — murmurou. Do outro lado do andar, Izadora entregava a Mateus a agenda da semana. — Reunião com a Bonavie amanhã às dez. O jurídico pediu confirmação para quinta-feira e Álvaro Vasconcelos voltou a ligar. Mateus interrompeu o movimento. — O que ele queria? — Não disse. Pediu que retornasse. — Não passe mais nenhuma ligação dele diretamente. Izadora percebeu a tensão. — Aconteceu alguma coisa? — Não. Ela sabia que era mentira. Trabalhava com Mateus havia quatro anos. Conhecia cada mudança em sua voz, cada gesto de irritação e o modo como ajustava o relógio quando estava preocupado. Também conhecia a gentileza escondida sob a formalidade. Era por isso que se apaixonara por ele. Não sabia exatamente quando começara. Talvez na primeira vez em que Mateus permanecera até tarde para ajudar um funcionário a revisar um relatório. Talvez no dia em que lembrara do aniversário dela quando ninguém mais na diretoria se lembrara. Ou talvez tivesse sido uma soma de pequenos momentos que ele jamais percebera. — Sua irmã começou hoje — comentou Mateus. Izadora sorriu. — E já falou mal do Teodoro na frente dele. — Fiquei sabendo. — A agência inteira ficará sabendo até amanhã. — Ela sempre foi assim? — Espontânea? — Eu pensaria em outra palavra. — Desastrada. Mateus sorriu. — Parece diferente de você. — Somos muito diferentes. Ele a observou por um instante. — Isso é bom. O coração de Izadora acelerou, embora provavelmente não houvesse qualquer significado naquela frase. Mateus pegou o celular. — Pode ir para casa mais cedo hoje. — Ainda há documentos para organizar. — Amanhã você termina. — Você nunca deixa nada para amanhã. — Talvez eu esteja tentando melhorar. Ela sorriu. — Duvido. Quando Izadora saiu, Mateus bloqueou a porta e retornou a ligação de Álvaro. O homem atendeu no segundo toque. — Pensei que não ligaria. — Pedi que não entrasse em contato comigo na agência. — Você parece nervoso. — Meu irmão descobriu a avaliação da sede. — E? — Disse que não pretende vender. Álvaro riu. — Teodoro sempre diz o que as pessoas querem ouvir. — Você afirmou que tinha provas. — Tenho. — Então envie. — Não funciona assim. Mateus caminhou até a janela. — Não vou agir contra meu irmão com base em rumores. — Ainda o protege. — Ele é minha família. — E também é o homem que ocupa o lugar que deveria ser seu. Mateus fechou os olhos. Álvaro conhecia exatamente a ferida que precisava tocar. — Encontre o documento deixado por Augusto — disse o homem. — Aquele que define os limites do poder do CEO. Com ele, podemos impedir Teodoro de vender a agência. — Onde está? — Na antiga casa de seu pai. — Teodoro controla o acesso ao escritório. — Então use alguém em quem ele não prestaria atenção. Mateus pensou na nova funcionária. Na irmã de sua assistente. Imediatamente rejeitou a ideia. — Não vou envolver uma funcionária. — Claro que não — respondeu Álvaro. — Você sempre foi o irmão correto. A ligação terminou. Mateus permaneceu imóvel. Não queria destruir Teodoro. Queria apenas provar que era capaz de proteger melhor a empresa. Mas, aos poucos, a diferença entre provar e trair começava a desaparecer.






