Você vai viver para lembrar

POV Paige Bellini

Olhei-me no espelho pela enésima vez. Seria um desperdício usar aquele modelo para um casamento inexistente. O vestido tinha sido confeccionado de última hora, feito por Oscar de la Renta. Meu pai certamente tinha pago uma pequena fortuna para isso. Tinha alguns detalhes em pedras preciosas, enviadas pelo próprio dono da Maison Montrelli, Alessandro, meu futuro marido, para que quase esposa ficasse deslumbrante.

Enfim... eu realmente fiquei deslumbrante. Mas infelizmente ele nunca me veria ao seu lado no altar. 

Toquei as pedras. Sabia que tinham um valor significativo. Vender cada uma delas garantiria alguns meses de hospedagem num bom hotel. Eu até não me importaria se fosse quatro estrelas. Três? Nem pensar! Manter minha qualidade de vida era imprescindível. E como eu era importante para o meu pai, o valor do resgate seria generoso. Para mim, óbvio. 

Era triste o que meu pai estava me obrigando a fazer. Mas no fim, ele ficaria ainda mais em evidência e aquilo o ajudaria na campanha. Um futuro presidente ter a filha raptada no altar, sofrendo, implorando por informações, tendo que pagar para tê-la de volta. Todo mundo votaria nele. Rafael Bellini seria o quadro do sofrimento. Sem moldura.

Tentei ligar para Lucy para confirmar se estava tudo certo. A ligação sequer chegava a completar. Para Lisandro chamava e caía na caixa de mensagens. Onde aqueles filhos da puta tinham ido parar? 

Lisandro eu sabia que estava no aeroporto, esperando por mim. Mas por que, diabos, não atendia? 

— Está tudo pronto, senhorita Bellini — disse a organizadora. — a limosine está esperando. 

Respirei fundo e peguei o buquê de orquídeas brancas e peônias. Eu detestava flores. Mas como estava usando um Oscar de la Renta, nada além de flores combinava. 

Entrei no carro e meu pai estava no telefone. Assim que me viu, guardou o aparelho e me olhou:

— Sua mãe ficaria orgulhosa de você. — os olhos dele lacrimejaram.

Mordi o lábio, que tremeu. Cada vez que ele falava da minha mãe, meu peito ardia. 

— Podemos ir, senhor?

Olhei para o novo motorista e tive certeza de que estava fazendo a coisa certa. Meu pai tinha tirado de Lisandro tudo. Demitiu o homem que lhe serviu por mais de vinte anos e a mulher que fazia todas as suas refeições de forma perfeita, metódica, exatamente do jeito que ele queria. 

Sem contar que, a mãe de Lisandro, era o pouco que eu tinha de referência sobre o que era carinho materno.

Fizemos parte do trajeto em silêncio. 

— Alessandro quis esse casamento, Paige. Dentre qualquer mulher que ele poderia ter, escolheu você. Eu aposto que... você será feliz.

— Por um ano? — arqueei uma sobrancelha.

Ele suspirou:

— Não, eu não vou ter essa conversa com você de novo!

Aceitei que aquela seria a nossa última conversa. Ao menos nos próximos meses. Ou semanas. Porque, conforme ele fechasse o cerco para me encontrar, eu teria que contar a verdade. Mas isso só seria feito no momento que eu tivesse o dinheiro que achei que eu valia. E eu tinha um preço alto, afinal, eu era Paige Bellini. 

A limusine estacionou na frente da igreja. Eu mal consegui descer. Os dois SUVs dos seguranças não tiveram tempo de reagir.

Antes que alguém pudesse entender o que estava acontecendo, homens vestidos de preto saíram de veículos que saíram do nada. Armas foram apontadas em todas as direções.

Eu achei que tinha contratado um sequestrador. Nunca passou pela minha cabeça que ele pudesse ser uma espécie de mafioso. Senti um frio percorrendo a minha espinha. 

O plano não era chamar a atenção a nível nacional. Ao menos... eu não paguei por tanto. Ou paguei?

Os seguranças tentaram alcançar os rádios, mas foram cercados imediatamente.

Quando senti uma mão agarrar firmemente meu braço, dei um grito teatral. Eu tinha feito Artes visuais e Belas artes, por isso tinha uma veia dramática. Infelizmente meus professores não achavam o mesmo que eu. Então troquei para Filosofia. Sempre gostei de filosofar sobre o significado do mundo, “de onde eu venho, para onde eu vou”. Não me encaixei como filósofa. Então parti para o curso de Estudos Culturais e de Gênero. Mas percebi que... 

Quando senti a arma gelada contra minha têmpora, parei até de pensar. 

— Tem munição? — perguntei, só para me certificar. 

Era para ser um carro velho e uma arma. Tínhamos uma frota e uns quarenta homens de terno. Detalhe: todos armados. 

— Calma, princesa — ele disse — tudo terminará rápido se você colaborar. 

Eles não usavam máscaras. Todos eram iguais. Pareciam ter sido fabricados no mesmo forno: morenos, corpulentos, bumbuns perfeitos dentro dos uniformes pretos e usando óculos escuros. 

Quando vi meu pai de braços para cima, contra o carro, senti um certo remorso. Mas então lembrei que ele praticamente me vendeu em troca de um cargo político. Daí meu remorso passou. 

Eu mesma tinha criado aquele plano. No entanto, aquela arma contra minha pele, apontada tão forte que chegava a machucar, pareceu real demais. Muito mais do que deveria ser. 

O rugido de uma motocicleta ecoou pela. Todos os homens se afastaram imediatamente, exceto os que estavam com os reféns. Ergui os olhos e vi o piloto vestido de jaqueta de couro, calça da mesma cor, aproximando-se lentamente. O capacete ocultava completamente seu rosto. 

Ele parou a poucos metros de mim. Devia medir mais de 1,90 metros. 

— Vamos. — foi direto. 

Hesitei por um momento. Mas lembrei que Lisandro me esperava no aeroporto. Era exatamente assim que havíamos combinado. Ao menos a parte que eu seria sequestrada. Nunca passou pela minha cabeça que o meu sequestrador viria numa moto. 

Antes que eu pudesse reagir, ele me pegou no colo, como se eu pesasse algumas gramas. E me pôs sentada na moto. Juntou as camadas do meu vestido e enrolou, entregando-me para que segurasse. 

Tomou o lugar na minha frente, subindo com uma facilidade incrível. Me entregou um capacete e disse:

— Segure-se, princesa. A viagem será breve, mas cheia de adrenalina

Assim que ele arrancou, o som do motor entrou nos meus ouvidos, fazendo-me fechar os olhos. O som era ensurdecedor. 

Aquela coisa movia-se rápido demais. Por que uma moto? Até um cavalo me deixaria menos nervosa. 

Me agarrei àquele homem, tendo a sensação de que ele poderia me perder a qualquer momento. As curvas que ele fazia eram fechadas demais e andava em alta velocidade, o que obrigava a ajustar-me ao seu corpo para sobreviver.  

— Estou... com vontade de vomitar. — falei, incerta se ele estava me ouvindo.

Foi quando me dei conta de que não estávamos indo para o aeroporto. E aquilo me apavorou. Fui tomada de um pânico inexplicável. 

Cutuquei o ombro dele e tentei gritar, entre o som ensurdecedor que aquela coisa fazia:

— Senhor sequestrador, acho que você errou o caminho. 

Definitivamente, ele não me ouvia. E o percurso, que era para durar 20 minutos, foi se estendendo até que eu já não tivesse certeza de quanto tempo havia passado. 

Entramos numa cidadezinha no meio do nada. Mal havia casas. E então, o homem estacionou na frente de uma praça. Me pegou no colo, com aquela facilidade ridícula que me fazia parecer uma boneca em seus braços. 

Tinha uma igreja. E um cartório ao lado. 

— Lisandro... quer casar na igreja? — perguntei, confusa. 

Ele não respondeu. Assim que entramos no cartório, ele praticamente me jogou dos seus braços. Quase caí. Só tinha um juiz de paz e um homem de terno tão grande que parecia irreal. 

E então, o meu sequestrador tirou o capacete. Moreno, cabelos bagunçados, olhos verdes e... puta que pariu, uma cicatriz gigantesca no lado esquerdo do rosto. E o que era pior: ficava perfeitamente bem nele. 

Era o tipo de homem que realmente se pagava para ter. Uma pena que era um sequestrador barato.

— Prazer, princesa.

— Onde está... o meu namorado? — perguntei 

— Ele está bem ocupado. Mas você poderá vê-lo em breve. 

— Quem... é você? — senti um frio percorrer a minha espinha.

— Em alguns minutos, serei o seu marido. Depois disso, o seu pior pesadelo. 

— Me... leve... de volta... — minha voz mal saiu. 

 — Bem-vinda ao inferno, Paige Bellini. O pior castigo da sua vida será acordar todos os dias e perceber que ninguém virá salvá-la. Seu pai comprou silêncio por anos. Eu comprei você por doze meses. Pela primeira vez na vida, você descobrirá o quanto vale sem o sobrenome que carrega. Eu não quero sua morte, Paige. Mortos descansam. Você vai viver para lembrar.

Aquilo só podia ser... uma brincadeira de mal gosto.

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