Capítulo 3: Sombras e Limites

Liz afundou a cabeça no trabalho, determinada a apagar qualquer vestígio do confronto na sala do CEO. Ela já havia deixado tudo organizado para que Richard finalizasse os processos em aberto, mas dedicou-se a catalogar e anexar os documentos que ainda nem haviam sido iniciados. Separou cada pendência por tópicos, prioridades e datas, agindo de forma extremamente cuidadosa e cautelosa. Concentrada, nem sequer pensou em fazer uma pausa para o almoço.

Quando Noah saiu de sua sala para almoçar, viu-a compenetrada diante do monitor. Ele parou por um instante e perguntou se ela não iria comer. Sem erguer totalmente o olhar, Liz apenas respondeu que estava ocupada e que iria mais tarde, aproveitando para perguntar se ele precisava de alguma coisa. Noah a observou em silêncio por alguns segundos e apenas acenou com a cabeça indicando que não. Em resposta, ela voltou a ignorá-lo, imersa em suas planilhas.

No caminho para o restaurante, Noah permaneceu pensativo. Observar a dedicação obstinada de Liz o intrigava. Ele se pegou questionando o motivo de uma mulher tão segura de si e determinada ter deixado escapar uma lágrima durante a conversa em seu escritório. Excelente observador, lembrava-se perfeitamente de quando seu pai, Richard, mencionou seu braço direito. Liz tinha sido recomendada com louvor; seu pai fizera questão de detalhar o processo seletivo rigoroso e a capacidade ímpar da senhorita Fontes. Quando a chamou à sua sala mais cedo, sua intenção era avaliá-la de perto. No entanto, por trás do olhar estritamente profissional, Noah estava inevitavelmente fascinado pela beleza da mulher com quem havia compartilhado uma noite espetacular. Para um homem atraente, charmoso e influente como ele, conseguir a companhia de quem quisesse jamais fora um desafio — especialmente quando descobriam que ele era um Miller.

Mas, naquela noite no bar, o destino havia jogado com regras diferentes. Noah queria apenas trabalhar, assumir a sucessão do pai e expandir o império da família em busca de mais fama e prestígio. Liz, por outro lado, era uma jovem ambiciosa e cheia de sonhos que buscava um recomeço; tudo o que queria era crescer por mérito próprio e construir uma vida sólida.

No escritório, o cansaço finalmente começou a cobrar seu preço. Com dores de cabeça intensas e exausta por não ter comido nada, Liz decidiu parar um pouco para passar uma água no rosto. Salvou o progresso no computador, pegou um analgésico na gaveta e caminhou até a cafeteira do andar para tomar o remédio com um copo d'água. Precisava se recompor.

Decidiu pegar o elevador e ir até uma lanchonete do outro lado da rua. Mudar de ar e comer algo ajudaria a aliviar a tensão. Ao chegar ao local, acomodou-se em um banco no balcão e pediu um bagel simples acompanhado de um cappuccino bem quente.

Enquanto esperava, sua mente voltou para a sala da diretoria. Por que Noah tentara intimidá-la? Por que sugerira que ela só estava ali por conveniência? Será que ele achava que ela tinha algum interesse oculto, sendo que nem sabia quem ele era antes daquela noite?

Sua cabeça girava a mil. Sem querer, as lembranças do passado que tanto tentara enterrar vieram à tona. Lembrou-se do quão duro fora se formar e conseguir espaço no mercado de trabalho no Brasil. Foram anos de trabalho exaustivo e pouco dinheiro até conseguir conquistar suas coisas. Nascida em uma família simples e trabalhadora, aprendeu a lutar sozinha muito cedo, após a perda dolorosa de seus pais. Ela sempre quis ir além do que qualquer um esperava dela.

Recordou-se, então, de seu primeiro emprego após a faculdade. Viu-se presa em um escritório bagunçado, sem processos claros e que adotava práticas duvidosas. Tentara sair diversas vezes, mas, por ser extremamente capacitada e eficiente, seu antigo chefe se recusava a liberá-la. Para piorar, a postura respeitosa de Liz passou a ser ignorada. Logo começaram as piadas de mau gosto, as cantadas veladas e os toques indesejados.

Ali, sentada no balcão da lanchonete em Nova York, as lágrimas voltaram a brotar em seus olhos. Engoliu a seco, limpou o rosto rapidamente e decidiu focar no presente. Precisava comer, esquecer aquelas lembranças e voltar ao serviço. Faria as horas extras que fossem necessárias, mas entregaria aquele relatório pronto ainda hoje. Provaria ao novo CEO que cada degrau que alcançou foi fruto exclusivo de seu esforço e persistência.

Ao retornar à cobertura, mergulhou novamente nos documentos até finalizar toda a reorganização. Por um momento, pensou em enviar o arquivo por e-mail, já que o horário de expediente havia encerrado há horas. No entanto, lembrou-se de que prometera entregar o material impresso. Imprimiu tudo, separou os papéis em pastas por ordem de prioridade e caminhou em direção à sala da presidência. Como sabia que Noah tinha saído e não o vira retornar, planejava apenas deixar os documentos sobre a mesa e ir embora. Queria evitar qualquer novo embate; no momento, só precisava de paz.

Ela girou a maçaneta e entrou. A alta cadeira de couro da escrivaninha estava de costas para a porta. Liz deu alguns passos, mas, antes que pudesse pousar as pastas sobre a madeira, a cadeira girou devagar.

Noah estava ali, observando-a em silêncio.

Assustada, Liz deu um passo atrás e levou a mão ao peito.

— Me perdoe! Achei que o senhor não tivesse voltado para a empresa hoje. Sinto muito por entrar sem pedir licença.

Noah manteve os olhos fixos nela, a expressão indecifrável.

— O que você deseja aqui a esta hora, senhorita Fontes? — perguntou ele, com a voz firme.

— Terminei os relatórios e gostaria de deixá-los para a sua análise — respondeu ela, recuperando a postura e estendendo a pasta. — Está tudo detalhado e separado por ordem de prioridade.

Ele aceitou o documento. Liz deu um breve aceno, pediu licença e se virou para caminhar em direção à saída.

— Aonde você vai? — a voz dele cortou o silêncio do escritório.

Liz parou imediatamente e se virou de volta.

— O senhor deseja mais alguma coisa?

— Eu fiz uma pergunta — sustentou ele, sem alterar o tom.

Sem graça, mas mantendo a firmeza, Liz respondeu:

— Estou indo para casa descansar, senhor Miller. Amanhã teremos um longo dia. De acordo com as novas diretrizes que me enviou por e-mail, há muito trabalho a organizar devido à transição.

— Como você vai para casa? — questionou ele, inclinando-se ligeiramente para a frente.

— De metrô. O ponto fica a duas quadras daqui — respondeu ela com calma.

Noah ergueu uma das sobrancelhas, cruzando os braços sobre a mesa. Olhou para o relógio de pulso e depois para a janela, onde a chuva nova-iorquina começava a estalar contra o vidro.

— São quase dez da noite, senhorita Fontes. E está chovendo. O metrô a esta hora não é exatamente o lugar mais seguro para uma mulher sozinha.

— Eu sei me cuidar, senhor Miller. Já enfrentei situações bem piores; você nem imagina. Uma chuva em Manhattan não é nada — rebateu ela, mantendo o tom firme, embora o cansaço começasse a transparecer em sua voz.

Noah levantou-se devagar da cadeira. O porte alto e a presença firme dele pareceram preencher todo o espaço da sala. Ele deu alguns passos em direção a ela, parando a uma distância calculada — perto o suficiente para que Liz sentisse o mesmo perfume amadeirado daquela noite de quarta-feira. Por um breve segundo, ela temeu não conseguir resistir à atração.

— Não duvido da sua capacidade de sobrevivência — disse ele, a voz baixando um tom, tornando-se mais grave. — Mas como seu chefe, prefiro não ter minha assistente principal assaltada ou doente no início de uma reestruturação tão importante. O motorista da empresa está lá embaixo. Ele vai levá-la para casa.

Liz ergueu o queixo, sustentando o olhar.

— Não preciso de favores ou privilégios, Noah... digo, senhor Miller. Trabalho por mérito, e minha vida pessoal fora do horário de expediente não é parte do seu contrato. Não lhe devo explicações além disso, e consigo me virar sozinha.

Um sorriso quase imperceptível surgiu no canto dos lábios dele ao ouvi-la deslizar no nome próprio.

— Não é um favor, Liz. É apenas uma ordem de trabalho. E amanhã quero você aqui às oito em ponto, inteira. Ah, e mais um favor: passe na cafeteria aqui perto e me traga um expresso sem açúcar, por gentileza. Sem atrasos.

Ele pegou a pasta que ela havia entregue e a abriu, fingindo voltar a atenção aos papéis. No entanto, não tirou o foco total da presença dela na sala; o perfume de Liz se alastrava pelo ambiente, fazendo os pensamentos dele irem muito além do trabalho.

— O carro está esperando — arrematou ele, sem erguer os olhos. — Boa noite, senhorita Fontes.

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