Capítulo 2: Diretrizes do Passado

A reunião finalmente chegou ao fim, mas o burburinho que tomou conta da sala contrastava com o silêncio ensurdecedor na mente de Liz. Enquanto os executivos se levantavam, ajustando seus paletós para trocar os cumprimentos de praxe — alguns parabenizando o velho Richard pela merecida aposentadoria, outros se aglomerando ao redor de Noah para saudar o novo CEO —, ela recolheu suas pastas com as mãos levemente trêmulas.

Aproveitando a distração e a movimentação ao redor dos Miller, Liz se esgueirou para fora da sala. Precisava escapar pelo corredor antes que seus olhos cruzassem com os daquele homem novamente.

Ao passar pela divisória de vidro fumê e entrar em seu escritório privativo, ela caminhou direto até a mesa de madeira clara. Apoiou os documentos, ligou o monitor do computador e tentou respirar fundo. Mas sua mente fervia. Flashes da noite de quarta-feira invadiam seus pensamentos sem pedir licença: o calor do vinho, a conversa fluida, o olhar azul-acinzentado no bar e o toque firme em sua cintura. Como o desconhecido magnético com quem ela havia quebrado todas as suas regras era o herdeiro implacável do Miller Law Group?

Com as mãos inquietas, Liz ajeitou a pilha de relatórios. O ar da sala parecia pesado demais. Ela precisava de uma pausa real antes de começar a trabalhar.

Deixando o escritório, refez o caminho até a cafeteria do andar para buscar uma segunda xícara de café. Era o refúgio perfeito para ganhar alguns minutos de sanidade.

O que Liz não poderia prever era que, no exato intervalo em que esteve fora, Noah Miller se desvencilhou rapidamente dos diretores. Com seus passos largos e firmes, ele cruzou o espaço de vidro fumê vazio e entrou em seu novo território, fechando a pesada porta de madeira maciça atrás de si.

Quando Liz retornou, equilibrando a xícara fumegante, o ambiente parecia intocado e sereno. Ela se ajeitou em sua cadeira giratória, suspirou aliviada por achar que estava sozinha e preparou-se para fingir que aquela seria apenas mais uma quinta-feira normal.

Até que a luz vermelha do ramal interno piscou, seguida pelo toque agudo e repentino que cortou o silêncio.

Liz sobressaltou-se. Ela não tinha visto ninguém passar por ali. O coração deu um solavanco no peito enquanto ela encarava o telefone, antes de esticar a mão e atender com sua melhor postura profissional:

— Liz Fontes. Pois não?

— Na minha sala. Agora.

A voz grave e inconfundível do outro lado da linha fez um arrepio instantâneo subir pela espinha de Liz. Seus olhos voaram para a grande porta de madeira maciça a poucos passos de sua mesa. Ele já estava lá dentro.

— Tenho novas diretrizes para o seu trabalho — prosseguiu Noah, frio e sem preâmbulos —, e precisamos alinhar as regras a partir de hoje.

Antes que ela pudesse formular qualquer sílaba, o clique seco encerrou a ligação. Liz abaixou o telefone devagar, sentindo o estômago despencar, pensando em quanto ele era tosco e grosseiro. Ela mal sabia, mas o jogo havia começado.

Liz ajustou a barra da camisa vinho, ergueu o queixo e deu dois toques firmes na madeira maciça antes de girar a maçaneta.

Ao entrar, encontrou Noah de costas para a porta. Ele estava de pé junto ao imenso painel de vidro que ia do chão ao teto, com as mãos cruzadas para trás na altura da cintura. A luz da manhã nova-iorquina moldava sua silhueta imponente, destacando os ombros largos sob o terno escuro.

A porta se fechou com um clique suave, e Liz deu alguns passos à frente, parando a uma distância segura.

— Licença, senhor Miller — disse ela, mantendo o tom de voz neutro, polido e impecavelmente profissional. — Sou Liz Fontes, secretária executiva da diretoria. É um prazer trabalhar com o senhor. Estou à disposição para o que precisar.

Ela sustentou a postura como se aquela fosse a primeiríssima vez que o via na vida. Nenhuma menção à noite anterior, ao vinho ou à entrega daquela quarta-feira. Zero rastros de intimidade.

Noah não respondeu de imediato. Ele se virou devagar, e o movimento calmo fez o coração de Liz dar um salto involuntário no peito. Aqueles olhos azul-acinzentados a encararam com uma intensidade que parecia atravessar todas as suas barreiras defensivas. Ele a avaliou em silêncio por longos segundos, absorvendo a fachada perfeita que ela havia montado.

Sem quebrar o contato visual, Noah começou a caminhar a passos lentos em direção à sua mesa principal.

— Sente-se, por favor, senhorita Fontes — a voz dele soou grave, preenchendo a sala ampla.

Liz caminhou até a mesa de mogno e puxou uma das cadeiras de couro dispostas em ângulo lateral em frente ao CEO. Acomodou-se mantendo a coluna ereta e aguardou suas novas regras.

Noah contornou a mesa, mas não se sentou de imediato. Apoiou as mãos no encosto de sua própria cadeira de alta diretoria, inclinando-se ligeiramente na direção dela.

— Fique à vontade — disse ele, com o tom controlador de quem está prestes a ditar o ritmo de todo o jogo. — Como sabe, a gestão do meu pai chegou ao fim. A partir de hoje, haverá novas regras neste andar. E quero garantir que estejamos alinhados desde o primeiro minuto.

Noah aceitou o jogo. Se ela queria fingir que eram dois estranhos, ele jogaria nas regras dela — ao menos por enquanto.

Ele se ajeitou na cadeira de couro, girando-a ligeiramente para o lado antes de apoiar os cotovelos nos braços do assento e entrelaçar os dedos.

— Em primeiro lugar, senhorita Fontes... — começou ele, com o tom de voz carregado de um sarcasmo sutil e aveludado — preciso garantir que compreende que meu único e exclusivo foco neste andar é estritamente profissional.

Ele girou a cadeira de volta, inclinando-se para a frente até que seus olhos azul-acinzentados fixassem os dela com intensidade.

— Você saberia separar as coisas, Liz? Ou misturar o pessoal com o trabalho é um hábito seu?

O impacto da pergunta fez o sangue subir quente para o rosto de Liz. As bochechas queimaram instantaneamente, e o desconcerto ameaçou derrubar sua máscara de ferro. Contudo, engolindo em seco, ela recuperou a postura em uma fração de segundo. Sustentou o olhar provocador dele e rebateu com a mesma moeda, deixando transparecer nas entrelinhas que não cederia à provocação:

— Minha conduta nesta empresa sempre foi e continuará sendo impecável, senhor Miller. Sei exatamente onde termina o meu dever e onde começam as distrações irrelevantes.

Um sorriso de canto de boca, lento e debochado, surgiu no rosto de Noah. Imbecil! O que pensa que ele está fazendo? Onde ele quer chegar com essas perguntas?, Liz pensou, sentindo a raiva esquentar por dentro enquanto lutava para manter a respiração calma.

— Quais são as novas regras, senhor Noah? — perguntou ela, cortando o clima com frieza.

Noah encostou-se novamente, avaliando-a com o queixo erguido.

— Apenas quero ter certeza de que estou lidando com uma profissional de verdade. O Miller Law Group não é lugar para quem busca comodidade ou caminhos fáceis. Preciso saber se você realmente conquistou essa mesa por mérito próprio... ou se apenas soube agradar às pessoas certas na hora certa.

A alfinetada atingiu um nervo exposto. A memória dolorosa do que a fizera fugir do Brasil — as acusações injustas e o assédio do seu antigo chefe para tentar diminuir seu esforço — veio à tona como um soco no estômago.

A respiração de Liz travou. A postura ereta fraquejou por um milissegundo.

— Eu sou formada, capacitada eu me especializei e abdiquei de toda a minha vida para estar aqui — disse ela, com a voz embargada pela alteração repentina, o peito subindo e descendo com força. — Se não fosse pela minha determinação e força de vontade, engolindo injustiças que o senhor nem é capaz de imaginar, eu não teria chegado a esta cadeira. Eu não devo minha carreira a privilégio nenhum, apenas a mim mesma.

Antes que pudesse conter, uma única lágrima solitária escapou pelo canto de seu olho esquerdo, traçando um caminho rápido pela bochecha quente.

Liz piscou rapidamente, limpando a gota com o dorso da mão em um gesto brusco e defensivo. Recompôs-se imediatamente, trancando a emoção de volta no fundo do peito e erguendo o queixo com altivez.

Noah parou. O sorriso sarcástico desapareceu de seu rosto no mesmo instante. A reação visceral dela o pegou totalmente desprevenido. Ele piscou, desconcertado e visivelmente sem graça, sem compreender o peso das palavras que haviam atingido a mulher à sua frente. Por um segundo, a fachada de CEO inabalável demonstrou uma genuína dúvida.

Pressionando os lábios em uma linha fina, Noah pigarreou levemente, quebrando o silêncio desconfortável.

— Enviarei o detalhamento das novas regras e das mudanças estruturais por e-mail — disse Noah, a voz perdendo o tom debochado e voltando a ser estritamente formal. — Por ora, quero que prepare um relatório completo com todas as pendências e assuntos prioritários que meu pai deixou em aberto. Quando terminar, imprima e me avise.

— Sim, senhor. Com licença.

Liz se levantou da cadeira de couro, girando sobre os saltos. Quando ela deu os primeiros passos em direção à saída, Noah também se ergueu de sua mesa. Os olhos dele, involuntariamente, a percorreram de cima a baixo — a curva acentuada da cintura, o caimento da calça em seu corpo curvilíneo, a postura altiva —, e uma memória vívida da noite anterior veio à tona. O toque, a pele quente, o perfume. Um arrepio involuntário subiu por sua espinha, travando sua respiração por um segundo.

Baque.

O som da porta de madeira se fechando com um pouco mais de força do que o normal ecoou pela sala ampla, fazendo Noah despertar abruptamente do transe. Ele piscou, sozinho novamente, encarando a madeira selada.

Do outro lado, no escritório adjacente, Liz caminhou até sua mesa e se deixou cair na cadeira. Soltou o corpo, despojada daquela rigidez extrema, e deu um suspirinho leve e trêmulo. Abriu a primeira gaveta, pegou um lenço de papel e secou com cuidado o rastro da lágrima na bochecha.

Pressionando o lenço contra o rosto, fechou os olhos e respirou fundo, puxando todo o ar que seus pulmões conseguiam carregar. Recompôs a postura, guardou o lenço e encarou a tela do computador. Ela não ia se deixar abalar.

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