Helena parou o carro em um pequeno barzinho de beira de estrada para comprar água, já havia chegado em sua terra natal e esta ansiosa para chegar na casa de seu pai. Enquanto toma um gole de água na porta do bar, seus olhos captaram uma movimentação na casa em frente. Uma mulher estava saindo, elegante, e deu um beijo apaixonado de despedida em um homem.
A cena era tão naturalmente romântica que, por um instante, Helena se deixou levar pela imagem. Lembrou-se do jeito que seu falecido marido costumava abraçá-la, daquele amor simples e verdadeiro que agora parecia tão distante. As duas se encaram por alguns segundos enquanto a moça entra no carro e o coração de Helena apertou ao ver o carro se afastando. Sem querer, ela percebeu que ainda sentia uma pontada de ciúmes e nostalgia ao ver aquela moça ter o que um dia ela também teve. Ja na casa do seu pai, Helena abre a porta do carro, e Heitor e Júlia, seus irmãos gêmeos mais novos, correm em sua direção. - Lelê... Os dois gritam e, juntos, se jogam no colo de Helena. - Minhas pestinhas favoritas... Diz ela, beijando e abraçando os dois da melhor forma que consegue. - Minha filha... Seu pai diz, abrindo os braços enquanto espera por um abraço, que não demora a chegar. - Bênção, pai! - Deus te abençoe, minha primogênita! Seu pai sempre faz questão de lembrá-la de que ela é sua primeira filha. "Aquela que me ensinou o que é ser pai", como ele ama repetir e ela ama ouvir. - Onde está a Luíza? - Lá na cozinha, terminando aquela lasanha que você tanto gosta! - Lelê, o que você trouxe pra nós? Heitor pergunta enquanto tenta tirar uma mala superpesada do porta-malas recém-aberto. - Heitor, que feio isso... Seu Dito, como é chamado Benedito, pai de Helena, repreende Heitor, que larga a mala e faz beicinho, fingindo tristeza. - Só vou mostrar depois do almoço. Agora você pega essa, e você essa, e ajudam a mana a levar as coisas pro quarto dela. Helena entrega uma pequena mala para cada um, enquanto ela e o pai pegam as mais pesadas. Já no quarto, de banho tomado e tudo organizado, ela pega o celular para pôr para carregar e só então percebe que há uma mensagem. É Nasser, seu ex-cunhado. Desde que ficou viúva, ele não para de ligar e tentar se aproximar. Ela sabe quais são suas verdadeiras intenções e faz o possível para se manter afastada, mesmo que ele continue insistindo muito. Depois do almoço, todos se sentam na varanda da frente da casa para bater papo. Ela ainda tem muitos parentes para visitar, mas, por hoje, quer apenas descansar. Enquanto conversam, ela vê uma senhora conhecida entrando na casa em frente à sua. - Pai, aquela não é dona Ana? Mãe do Jonas? - É sim. Ela se mudou pra lá já faz alguns meses. Ela olha surpresa e feliz. - Eu já volto... Ela se levanta e vai até a senhora, que está tentando abrir o portão com apenas uma mão, já que a outra está cheia de sacolas. - Olá, dona Ana! Deixa eu ajudar a senhora com isso. - Helena! Que surpresa boa, minha filha! As duas se abraçam e logo entram na casa. - Então quer dizer que agora somos vizinhas? - Pois é, minha querida! Jonas comprou essa casa pra mim no ano passado, mas tinha tanta coisa pra arrumar que eu demorei a vir morar... Enquanto as duas conversam, uma mulher entra na casa. Ela é muito bonita, apesar de ser um pouco acima do peso. Seu corpo tem curvas bem definidas, e seus longos cabelos negros emolduram um rosto muito bonito, de pele clara e traços fortes. - Olá... Ela entra dizendo, mas logo para ao ver Helena, que a reconhece na hora. É a moça que viu mais cedo sainda da casa em frente ao bar. Maísa fica visivelmente tensa. Seu rosto fica levemente pálido, e assim que percebe que sua mão esta apertando com força a chave da casa, ela tenta relaxar, mas não para de encarar Helena nem por um segundo. - Oi, Maísa. Jonas está aí com você? Dona Ana pergunta. - Não, mas ele vem em seguida... - Ah, tá bom então... Essa é Helena. Helena, essa é Maísa, esposa do Jonas. - Prazer, Maísa. Tudo bem? Helena estende a mão, e Maísa a aceita, dando um longo e firme aperto de mão sem tirar os olhos dos olhos de Helena. - Bênção, mãe. Como estão as coisas por aqui? Jonas entra na sala e fala enquanto larga as chaves do carro sobre a estante que fica ao lado da porta de entrada. Ele então olha para frente e vê Helena. O silêncio se espalha pela casa, deixando o clima tenso e carregado. - Helena..? Jonas sussurra. - Pois é, filho... Que surpresa boa, não é? Dona Ana fala com um largo sorriso no rosto, o que quebra o encanto, fazendo Jonas olhar em volta e ver Maísa lhe encarando. - Realmente, uma bela surpresa... Maísa diz, ainda encarando Jonas. - É... pois é... Bem-vinda novamente, Helena. Veio pra ficar? Ele não queria perguntar de forma tão rápida, mas, sem perceber, a pergunta já havia sido feita. - Sim... É possível que sim. Meus negócios em São Paulo e Santa Catarina já acabaram, é provável que eu não precise mais voltar. - Que bom, que bom... É... Mãe, a senhora está precisando de alguma coisa? - Não, meu filho, não preciso, não. Mas fica, vamos almoçar. Sei que vocês saíram agora da hípica, devem estar com fome... - Estamos com um pouco de pressa. Hoje é o último dia de aula das crianças, e minha mãe foi buscá-los pra nós. Devem estar nos esperando. Maísa fala, e Dona Ana fica visivelmente incomodada. - Estão mesmo com pressa, meu filho? Ela pergunta encarando Maísa. Jonas encara Helena por alguns segundos e então sorri. - Não muita... Creio que dá pra ficar mais um pouquinho... Dona Ana sorri. - Eu vou indo, Dona Ana. Mas não se preocupe, moramos uma de frente pra outra agora. Vou vir tomar chimarrão com a senhora sempre que puder. Helena fala, dá um abraço em Ana e vai em direção à porta. - Mas, filha, fica pra comer com a gente. - Dona Ana, esse pedido é tentador. Estou com muita saudade da tua comida, mas hoje eu já almocei, então fica pra próxima. - Tá bom então, minha querida. Eu vou cobrar, hein!? - Pois pode cobrar. Foi um prazer te conhecer, Maísa... E Jonas... Sua esposa é linda. - Obrigado, Helena. Até a próxima! Helena só consegue respirar aliviada quando chega em casa. Ela se atira no sofá e fica pensativa. - O que foi, filha? - Então, pai... Ficou um clima tenso quando Jonas e a mulher dele chegaram... - Porque, filha? - É que mais cedo, quando estava entrando na cidade... Eu vi a mulher do Jonas com outro homem... Aos beijos... - Bom... Sobre isso... Dito começa a falar, mas se cala. - Sobre isso o quê, pai..? - Bom... É que todo mundo sabe que ela tem um amante... - Como assim? Todo mundo? O Jonas..? Ele sabe disso? - Claro que não. Ele tem seus defeitos, mas é um homem íntegro, jamais aceitaria isso. - Então porque ninguém conta? - Filha... As coisas mudaram por aqui desde que a familia dessa mulher chegou na cidade. Eles são perigosos, por favor não se meta nesse assunto. Helena engole em seco. Poucas pessoas que ela conhece são mais corajosos que seu pai e se essa situação esta deixando ele temeroso, é porque o assunto é mais sério do que ela imagina.