Quatro anos depois, ela voltou a ver Alison Mashini.
Anita Fontes havia recebido um telefonema do hospital; os resultados da compatibilidade haviam chegado. O médico não adiantou o veredicto por telefone, mas pediu que ela comparecesse pessoalmente ao consultório.
Mesmo cheia de pendências no trabalho, ela largou tudo imediatamente, pediu folga ao gerente e pegou um táxi.
O trânsito a reteve por mais de dez minutos e, quando finalmente chegou, já havia alguém na sala do médico.
Anita Fontes hesitou com a mão na maçaneta. Ela sabia que alguém da família Mashini viria, mas nunca imaginou que seria ele.
O homem estava sentado de forma descontraída, de costas para a porta, recostado na cadeira com as mãos cruzadas à frente do corpo. Ele ouviu o barulho da porta abrindo, mas sequer olhou para trás.
A janela do corredor estava aberta, e uma lufada de vento frio passou por ela, fazendo Anita Fontes estremecer. Foi impossível não recordar aquela manhã, quatro anos atrás. Ele estava exatamente assim, sentado no sofá do quarto de hotel, dizendo com uma voz gélida: "A sua família Fontes teve muita coragem de armar para cima de mim."
O médico, que folheava os relatórios, ergueu os olhos e disse: "Entre, por favor."
Anita Fontes respirou fundo. "Peço desculpas pelo atraso, peguei um engarrafamento no caminho."
Assim que ela se sentou, o médico lhe entregou os papéis com um suspiro. "Este é o resultado do teste de compatibilidade de medula óssea."
Ele não disse explicitamente o resultado, mas o tom de sua voz entregava tudo.
Anita Fontes fixou os olhos na última coluna do relatório. Embora já estivesse psicologicamente preparada, sentiu um aperto doloroso no peito.
Segundos depois, uma mão longa e esguia cruzou o espaço e puxou o relatório. A voz do homem soou fria e indiferente: "Não é compatível?"
O médico assentiu. "Não há pontos de compatibilidade suficientes para realizar o transplante."
Anita Fontes demorou alguns segundos para conseguir recuperar a voz. "Não existe outra alternativa?"
O médico olhou para ela e, em seguida, para o homem ao seu lado. "Existe outra opção, que na verdade é a única viável no momento. Vocês dois podem avaliar..."
Quando Anita Fontes retornou à empresa, já era hora do almoço. Enquanto os colegas saíam em bando, ela caminhava na direção oposta, voltando para a sua mesa.
Sua mente ainda estava flutuando, totalmente imersa na imagem de Alison Mashini dentro do carro em frente ao hospital, dizendo-lhe pela janela abaixada: *"Pense a respeito."*
Aquilo significava que ele concordava com a sugestão do médico.
Ter outro filho.
Anita Fontes passou a mão pelo rosto para afastar o torpor, hesitou por um instante e abriu a gaveta da escrivaninha.
Bem no topo, havia a foto de um menino que aparentava ter uns três anos, mas cujo corpo miúdo não correspondia à idade. Ele era magro e frágil, de bochechas encovadas e a cabecinha totalmente careca.
Ele estava doente, gravemente doente.
O médico fôra claro: se o menino não recebesse um transplante de medula óssea compatível a tempo, seu corpo não resistiria por muito mais tempo.
Eles já haviam testado todos os membros da família Mashini e revirado os bancos de doadores de medula, mas não encontraram ninguém compatível.
Se não fosse pelo desespero da situação, a família Mashini jamais teria vindo atrás dela.
Ela era a mãe biológica de Miguel, mas também representava uma mancha na vida de Alison Mashini.
No entanto, para salvar o primeiro filho, ele estava disposto a ter um segundo com ela.
Anita Fontes passou a tarde inteira aérea, tanto que o expediente terminou e ela não havia conseguido concluir suas tarefas.
Forçando-se a fazer hora extra, ela mal conseguiu terminar o que precisava. Arrumou suas coisas e desceu. Ao cruzar o saguão do edifício, avistou um carro estacionado no meio-fio.
O vidro estava abaixado e havia alguém no banco do motorista. Desta vez, ao ouvir os passos dela, o homem olhou em sua direção e ordenou friamente: "Entre."
Era Alison Mashini.
Os anos haviam passado, e ele continuava sendo o "Sr. Mashini".
Eles já haviam dormido na mesma cama e tinham um filho juntos. Mas, no fundo, não passavam de dois estranhos.
Exceto por aquela noite fatídica de quatro anos atrás, eles nunca tiveram qualquer tipo de contato, não se conheciam e jamais haviam trocado uma palavra sequer.
"Entre no carro", repetiu Alison Mashini.
Após uma breve hesitação, Anita Fontes abriu a porta e entrou.
Antes mesmo que ela conseguisse fechar a porta por completo, o carro arrancou como uma flecha.
Alison Mashini não disse para onde a estava levando; apenas afundou o pé no acelerador, correndo cada vez mais rápido.