Capitulo 6

Isabella

Há uma diferença sutil entre estar sob observação e ser analisada, e eu conheço essa diferença porque já estive dos dois lados dela. Ser observada é superficial, quase social, algo que se dissolve no momento seguinte. Ser analisada, porém, implica registro, implica memória, implica que alguém está arquivando pequenos detalhes para uso futuro.

E, nos últimos dias, eu começo a sentir que Alexander não apenas me observa, ele registra. Não de forma invasiva, não com perguntas diretas ou confrontos desnecessários, mas com aquele silêncio atento que ele sempre dominou com perfeição.

A semana avança com ritmo intenso. A renegociação da filial de Montreal exige reuniões sucessivas, ajustes contratuais, projeções refeitas três vezes até que os números sustentem não apenas crescimento, mas segurança. Eu mergulho no trabalho com disciplina quase excessiva, porque produtividade é minha forma de neutralizar qualquer desvio emocional.

Se estou ocupada, estou no controle. Se estou no controle, não há espaço para interpretações erradas.

Ainda assim, há momentos em que percebo o olhar dele fixo por meio segundo além do habitual, como se estivesse tentando lembrar de algo que escapa à lógica. Ele não menciona Oliver novamente. Não pergunta idade outra vez. Não comenta o evento no hotel.

Mas existe uma mudança microscópica no tom quando se dirige a mim, menos formal do que no primeiro dia, menos distante do que na entrevista. Não é proximidade. É reconhecimento de competência consolidada. E isso me preocupa mais do que qualquer pergunta direta.

Na quinta-feira à tarde, sou convocada para uma reunião privada na sala executiva. O pedido não vem por e-mail formal, mas por mensagem curta: “Preciso discutir projeção de fluxo. 17h.” Eu olho o relógio. 16h54. Seis minutos. Eu organizo os documentos, reviso mentalmente as alterações feitas e atravesso o corredor com passos firmes. Não corro. Não hesito. Quando bato à porta, ele responde para entrar sem levantar a voz.

A sala está silenciosa demais para aquele horário. A luz do fim da tarde atravessa a parede de vidro, tingindo o ambiente de um tom mais quente do que o habitual, e por um instante a imagem dele recortada contra a cidade cria uma lembrança involuntária de outro tempo, outra versão de nós, antes que tudo fosse reduzido a uma fotografia mal interpretada.

Eu empurro essa memória para o fundo da mente antes que ela ganhe forma.

Ele vai direto ao ponto, questionando a sustentabilidade de uma das projeções revisadas. Eu explico o ajuste feito, detalho o cenário conservador, justifico cada variável considerada. Ele escuta em silêncio, caminhando lentamente pela sala enquanto eu falo, como se estivesse avaliando não apenas os números, mas a firmeza da minha convicção.

Quando termino, ele para diante de mim, próximo o suficiente para que a distância seja profissional, mas densa.

— Você mudou a abordagem de risco... — ele observa.

— O mercado mudou a abordagem de instabilidade — eu respondo, sustentando o olhar.

Ele inclina levemente a cabeça, aquele gesto que antecede decisões importantes, e comenta que aprecia minha capacidade de adaptação sem perda de precisão. Não há elogio explícito. Mas há reconhecimento. E reconhecimento vindo dele nunca é casual.

O silêncio que se segue não é desconfortável, mas carregado de algo que não é dito. Ele parece ponderar se deve atravessar uma linha invisível. Eu mantenho postura neutra, porque não serei eu a cruzá-la primeiro.

Depois de alguns segundos, ele apenas afirma que a apresentação ao conselho foi aprovada e que a renegociação será conduzida sob minha supervisão direta.

É promoção indireta. Responsabilidade ampliada. Exposição maior.

Eu agradeço de forma objetiva, recolho os documentos e me viro para sair, mas a voz dele me detém.

— Isabella.

Eu paro, sem me virar imediatamente.

— Sim?

— Você trabalha melhor quando está sob pressão.

Não é pergunta. É constatação.

— Pressão organiza prioridades — eu respondo.

Ele não discorda.

Saio da sala com a sensação de que a linha entre passado e presente está se tornando mais fina, ainda que ninguém a tenha mencionado em voz alta. A confiança profissional que ele deposita em mim começa a criar um território perigoso, porque confiança gera proximidade, e proximidade pode gerar perguntas.

Em casa, Oliver está animado com a apresentação cultural da escola. Ele fala sobre ensaios, sobre o figurino simples que usará, sobre o colega que esquece a letra da música. Eu escuto cada detalhe enquanto preparo o jantar, tentando manter a mente focada no cotidiano doméstico que me ancora.

Ele me pergunta se posso ir ao ensaio aberto na próxima semana. Eu confirmo imediatamente. Não existe reunião importante o suficiente para competir com a primeira apresentação dele.

Depois que o coloco para dormir, fico sentada na beira da cama por alguns minutos, observando o modo como ele segura a ponta da fronha enquanto adormece. Esse gesto sempre me chama atenção porque carrega uma necessidade de controle que não deveria existir em alguém tão pequeno.

Eu me pergunto quantas coisas ele percebe sem dizer. Quantas perguntas guarda para o momento certo.

No silêncio da casa, eu reviso mentalmente os últimos dias. Alexander não confrontou. Não acusou. Não investigou oficialmente. Mas ele observa. E homens como ele não observam por curiosidade vazia. Observam porque algo não se encaixa completamente na narrativa que aceitaram anos atrás.

Eu sei que, se ele decidir buscar respostas, fará isso com discrição absoluta. Não cometerá erros óbvios. Não se exporá a constrangimentos desnecessários. E é exatamente por isso que eu preciso manter cada detalhe sob controle. Minha postura. Meus horários. Minhas respostas.

A questão não é se ele vai perguntar.

A questão é quando.

E, enquanto a dúvida permanece apenas como sombra, eu consigo administrá-la. Mas sombras crescem quando ignoradas, e eu começo a perceber que estamos nos aproximando de um ponto em que silêncio não será suficiente.

Porque confiança profissional pode ser construída em dias.

Mas confiança pessoal, quando quebrada, exige mais do que competência para ser reconstruída.

E eu ainda não sei se estou pronta para essa reconstrução.

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