Antes que aquilo continuasse a batida na porta insistente interrompeu. Átila correu para o banheiro, um misto de surpresa e nervosismo no rosto. Alex se levantou rapidamente para atender.
Quando abriu a porta, deu de cara com Aquila, que o olhava com uma expressão de desconfiança. Seus olhos deslizaram rapidamente para a bermuda de Alex, e um sorriso malicioso surgiu.
— Tá fazendo o que no quarto da Átila? — perguntou, cruzando os braços.
Alex tentou disfarçar a tensão.
— Ela tá no banho!
Aquila arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— Vocês transaram?
Alex gesticulou rapidamente, quase negando com pânico.
— Não! Não! Nada disso aconteceu!
Nesse instante, Átila saiu do banheiro já vestida, o cabelo ainda molhado, e os dois irmãos se encararam por um momento.
Aquila, com um sorriso provocador, não deixou passar:
— Você fez sexo aqui no seu quarto? O papai vai surtar quando souber!
Átila respondeu firme:
— Não fiz sexo, e ele é seu pai, não meu!
Alex tentou intervir, segurando o braço dela com delicadeza.
— Amor, para com isso!
Mas Aquila não parecia disposto a recuar.
— Ele é pai de nós dois, e você, querendo ou não, vai dividir sua mãe comigo, como sempre fizemos! Para de ser egoísta, Átila. Essa é nossa história, o destino que escolheu pra gente e somos felizes com ela.
Sem esperar resposta, Aquila desceu as escadas, pegou uma garrafa de gin na sala e voltou para a fogueira, onde os amigos ainda conversavam ao redor das chamas.
Alex olhou para Átila, que se encolheu um pouco, e a abraçou com carinho. Eles sentaram juntos na sacada da casa, o silêncio entre eles sendo o único som da noite.
No dia seguinte, ao sentar para o café da manhã, Átila não disse uma só palavra. Apenas pegou uma maçã da fruteira, mordiscou lentamente e saiu da mesa, deixando o clima pesado no ar.
Seu semblante carregava uma tristeza profunda, que transparecia em cada gesto. No trabalho, evitou falar com qualquer colega, mergulhando em seu próprio mundo.
Enquanto isso, Aquila continuava agindo como sempre, porém com um carinho incomum em relação à mãe, Lauryn.
Na faculdade, Aquila confidenciou o que sentia para Zaac, seu melhor amigo, que prontamente ofereceu apoio.
No intervalo da aula, Zaac não se sentiu bem e pediu para ir ao hospital. Aquila o acompanhou, preocupado.
No hospital, um médico se apresentou:
— Sou Allan Smith, médico de Zaac. Preciso falar com os membros da família.
Aquila, tentando conter a ansiedade, respondeu:
— Eu sou o melhor amigo dele. Os pais dele estão a caminho!
Pouco tempo depois, quando Mulan e Santiago chegaram, o médico chamou-os para uma conversa reservada.
Ele explicou a gravidade do quadro de Zaac: apesar da juventude, o coração do amigo estava em estado crítico. Ele precisava urgentemente de um transplante, mas, infelizmente, a fila de espera era muito longa. Zaac estava em 15º lugar, e o tempo para ele era curto — talvez dois meses.
Mulan desabou em lágrimas, enquanto Santiago segurava sua esposa firme, tentando transmitir força.
— Precisamos ser fortes — disse ele, com voz firme. — Vamos conseguir, de alguma forma.
O médico Allan explicou que, por ser um órgão tão vital, encontrar um doador compatível era um desafio enorme.
Aquila, ao ouvir tudo aquilo, ficou desnorteado, quase sem reação. Sentiu o peso da situação esmagar seu peito.
— Como posso pensar que alguém vai doar um coração? — murmurou, com os olhos marejados. — É uma loucura… Pobre do meu amigo Zaac!
A família se reuniu, compartilhando a notícia.
Zaac, no entanto, mostrava uma força surpreendente.
— Eu não tenho porque estar doente do meu coração — disse ele, com convicção. — Esse diagnóstico está errado. Eu me sinto saudável.
Santiago olhou para o filho, tentando manter a esperança.
— Vamos investigar tudo, meu filho. Se o diagnóstico estiver certo, teremos que aceitar. Mas vamos lutar. Vamos clamar a Deus por um milagre.
Zaac concordou, confiante na vontade divina. Mulan abraçava o filho com toda a força de uma mãe que não queria se despedir.
Os dias seguintes foram difíceis. Zaac piorava progressivamente. Seus ataques cardíacos se tornaram mais frequentes, acontecendo a cada três dias, e os remédios não surtiam o efeito esperado.
Aquila se desesperava, impotente. Não contou nada para sua família, e, para tentar fugir da dor, afundou no álcool. Quando chegava da faculdade, trancava-se no quarto, isolado e perdido em pensamentos sombrios.