Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Cecília Mendes
A respiração ofegante de Rafael batia contra o meu rosto, misturando-se com o cheiro da colônia francesa que me assombrou em tantas noites insones. As mãos dele apertavam os meus braços, prendendo-me contra a parede fria do recuo sob a escada.
— Você acha que o mundo gira em torno do seu ego, Rafael? — eu sussurrei, a minha voz tremendo com uma fúria que eu passei três anos engolindo. — Você acha que eu me amarraria em um contrato com o seu irmão apenas para me vingar de um moleque covarde?
O rosto dele contorceu-se, a dor substituindo a arrogância por uma fração de segundo.
— Covarde? Eu fui forçado, Cecília! A minha mãe ameaçou destruir qualquer futuro que pudéssemos ter! Eu fiz aquilo para proteger você!
— Você fez aquilo para proteger a sua herança! — Cuspi as palavras no rosto dele, o meu peito subindo e descendo freneticamente. — Você mentiu para mim todos os dias. Rafael Vilar. Você usava o nome de solteira da sua mãe porque tinha vergonha de quem eu era. Os rastros que você deixou na minha vida não foram de proteção, foram de destruição pura.
— Eu nunca deixei de amar você. Nunca. — A voz dele falhou, desesperada. As mãos dele subiram dos meus braços para o meu rosto, os polegares traçando a minha mandíbula com uma urgência possessiva. — Ele é de gelo, Cecília. O Alexander não tem coração. Ele vai destruir você.
— O meu coração já está morto, Rafael. E foi você quem o matou.
Eu tentei empurrá-lo, mas a resistência dele foi brutal. Em um movimento rápido e cego pelo desespero, Rafael esmagou a boca contra a minha.
Foi uma colisão violenta. Um choque de dentes, raiva e mágoa acumulada. Eu ergui as mãos para bater no peito dele e afastá-lo, mas a familiaridade do toque dele abriu uma fenda nas minhas defesas. Por um segundo maldito e miserável, o meu corpo traiu a minha mente. A lembrança do garoto que eu amei sob as luzes da faculdade fez com que eu parasse de lutar, permitindo que a intensidade daquele beijo roubado me transportasse para o passado. O gosto misturava sal, champanhe e um arrependimento doentio.
Mas então, um som cortou a escuridão do corredor.
TOC. TOC.
Passos lentos, pesados e calculados. Sola de couro italiano batendo contra o piso de mármore com a precisão de um relógio marcando os segundos para uma execução.
A realidade me atingiu como um banho de água congelante.
Empurrei Rafael com toda a força que restava no meu corpo, arrancando a boca da dele num solavanco brusco. O meu peito arfava descontroladamente. Esfreguei as costas da mão nos meus lábios, apagando freneticamente a umidade e qualquer rastro daquele erro. Alisei o meu vestido e ajeitei o cabelo com os dedos trêmulos em uma fração de segundo, dando um passo rápido para fora do recuo escuro, entrando na faixa de luz do abajur.
Rafael recuou um passo, sendo engolido pelas sombras justas a tempo.
Os passos pararam.
A temperatura do corredor pareceu despencar abaixo de zero. Das sombras projetadas do outro lado, a figura alta e imponente de Alexander Vilar emergiu.
Ele estava com as mãos casualmente nos bolsos da calça de alfaiataria, a postura ereta e dominante. Os olhos dele eram dois buracos negros. Escuros, letais e focados diretamente em mim. O meu estômago despencou. O contrato. A cláusula. Os dois milhões da cirurgia. Tudo passou diante dos meus olhos. Se ele percebesse os meus lábios avermelhados...
Quando Alexander finalmente falou, a voz dele foi baixa e macia, o que era infinitamente mais aterrorizante do que se ele tivesse gritado.
— Vicente informou que a sua ligação já havia terminado há cinco minutos, esposa. — Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos percorrendo o meu rosto pálido e a minha respiração irregular. — Presumo que tenha se perdido no caminho de volta para a nossa mesa.
— Eu... — a minha voz falhou na primeira tentativa. Engoli em seco, forçando a compostura que eu não tinha. — Eu me perdi. Esta mansão é um labirinto, Alexander.
Foi então que Rafael deu um passo para fora das sombras, parando a uma distância segura, mas ainda perto o suficiente para que a presença dele fosse notada. Senti o olhar de Alexander chicotear para o irmão. O maxilar do meu marido trancou instantaneamente.
— Eu a encontrei no corredor — Rafael mentiu, a voz surpreendentemente firme, mascarando o desespero e a paixão que ainda ardiam nos seus olhos castanhos. Ele enfiou as mãos nos bolsos para esconder o tremor. — Estava apenas indicando a ela o caminho de volta para a sala de jantar.
Alexander não disse nada por longos segundos. O olhar dele alternou entre mim e Rafael. Ele era um predador inteligente demais; percebeu a tensão densa e palpável no ar, a hostilidade latente. Mas, por sorte, ele a interpretou como o choque do reencontro e a inimizade do passado, e não como o resquício de um beijo roubado.
— Agradeço a cortesia, Rafael — Alexander disse, a voz gélida cortando o ar como uma lâmina. — Mas a partir de hoje, você não precisa se preocupar em guiar a minha esposa para lugar nenhum. Eu serei o único guia dela. Estamos entendidos?
Rafael apertou os punhos dentro dos bolsos, mas forçou um aceno lento com a cabeça.
Alexander tirou uma das mãos do bolso e estendeu-a na minha direção, a palma voltada para cima. O gesto era um comando claro, absoluto e inegociável.
— Venha, Cecília. O nosso jantar de casamento ainda não acabou.
Caminhei em passos duros e coloquei a minha mão sobre a dele. Os dedos de Alexander fecharam-se ao redor dos meus, quentes e possessivos. Antes de ser puxada de volta para a luz da sala de jantar, não resisti e olhei por cima do ombro.
Rafael ainda estava ali, parado nas sombras. Os olhos dele cravaram-se nos meus com uma promessa silenciosa, perigosa e sedutora. Um calafrio proibido desceu pela minha espinha. Aquele beijo não seria o último. O verdadeiro inferno tinha acabado de começar.







