Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio pesou entre eles.
Henrique olhou para a janela, para a rua lá embaixo, como se a resposta pudesse estar em algum lugar fora daquela sala.
— Você acha que eu não sei? — disse, finalmente. — Eu tentei puxar assunto de divórcio ontem. E ela já começou a dizer que me ama, que a gente vai fazer dar certo.
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— Mas eu não tenho vontade nem de…
Arthur ergueu a sobrancelha.
— Nem de transar com ela?
Henrique suspirou, resignado.
— É.
Arthur balançou a cabeça devagar.
— Aí você vai atrás da sua novinha e vai trair a Lilian? — disse, sem julgamento real na voz. — Não que eu vá te dar sermão por causa de traição, você me conhece.
Henrique soltou uma risada breve.
— Não poderia mesmo. Você já passou o rodo nesse escritório, meu amigo.
Arthur apontou para si, ofendido de mentira.
— Eu nunca namorei ninguém. Não traí ninguém. Meu negócio é curtir e ser feliz. Diferente do teu, que é sofrer e choramingar no meu ouvido.
Henrique apoiou as mãos na mesa, inclinando-se na direção dele.
— Você é meu único amigo. Não pode reclamar.
Arthur abriu um sorriso largo.
— Eu não reclamo. Desde que você ouça meu conselho.
Henrique estreitou os olhos.
— Que é?
Arthur apontou para o celular dele.
— Vai, amigo. Pega a novinha.
Henrique riu, balançando a cabeça.
— Idiota.
— Estou falando sério!
— Eu tenho um jantar hoje — Henrique disse, voltando a ficar mais contido. — Só isso. Um jantar.
Arthur fez uma careta exagerada.
— Você é devagar demais. Pelo amor de Deus. A menina tem dezenove anos, não setenta.
— Não é assim.
— Claro que é. — Arthur levantou-se, ajeitando o paletó. — Você se vira aí com seu drama existencial. Eu vou pra minha sala porque, diferente de você, eu tenho cliente.
Henrique ergueu uma sobrancelha.
— Cliente de quê?
Arthur abriu a porta já sorrindo.
— Divórcio.
Parou no batente, olhando para trás.
— Se você quiser, eu faço o teu no litígio de graça.
Henrique pegou uma caneta e jogou na direção dele, que desviou rindo antes de sair.
A sala voltou ao silêncio.
Henrique olhou novamente para o celular.
19h.
Era cedo demais para estar nervoso e tarde demais para fingir que aquilo era só um jantar.
O dia se arrastou.
As horas pareciam se mover com má vontade, como se o relógio tivesse decidido testá-lo. Ele tentou mergulhar nos processos, nas audiências, nas discussões técnicas que normalmente o absorviam com facilidade. Mas toda vez que se via sozinho por alguns segundos, a imagem voltava: faróis iluminando o acostamento, o vento nos cabelos dela, o jeito firme com que sustentara o olhar ao perguntar se ele era casado.
Às três e meia, quase enviou uma mensagem. Às quatro, pegou o celular e largou em seguida. Às cinco e quarenta e sete, não resistiu.
“Vou atrasar um pouco hoje.”
Enviou para Lilian com a naturalidade automática de quem avisa sobre uma reunião estendida. Não deu detalhes. Não explicou nada além do necessário. A resposta veio minutos depois: “Tudo bem” Sem ponto final. Sem pergunta. Sem calor.
Ele ficou alguns segundos olhando para a tela, perguntando-se se aquilo o aliviava ou o incomodava mais.
Às seis horas, outra mensagem chegou.
O endereço.
Lívia escrevera o número do prédio e o nome da rua com uma objetividade quase prática demais para alguém que dizia ter dúvidas. Ele releu três vezes, como se quisesse ter certeza de que ela realmente estava permitindo aquilo. Um homem casado indo buscá-la na porta de casa.
Às dezoito e quarenta e cinco, ele já estava no carro.
Não passou em casa. Não trocou o terno. Apenas afrouxou a gravata e dirigiu.
O trânsito parecia conspirar contra ele. Sinais demorados demais, motociclistas se enfiando entre os carros, buzinas impacientes. Ele nunca tivera pressa para nada na vida. Sempre fora calculado, estratégico, paciente.
Mas naquela noite, havia algo diferente.
Quando dobrou na rua indicada, o coração bateu com uma intensidade inesperada. Não era medo. Também não era apenas desejo. Era a sensação clara de que estava atravessando uma linha que, até então, permanecera apenas teórica.
Ele reduziu a velocidade ao se aproximar do número indicado.
E passou.
Seguiu até dois números antes e estacionou ali, discreto, ligeiramente afastado da portaria principal. Não era paranoia. Era prudência. Ele conhecia demais o mundo para confiar em coincidências, pais protetores, vizinhos curiosos, porteiros atentos.
Pegou o celular.
“Cheguei.”
A resposta não veio de imediato. Ele imaginou-a subindo as escadas do apartamento, talvez se olhando no espelho uma última vez. Imaginou o nervosismo escondido atrás da postura firme.
Dois minutos depois, viu o portão do prédio abrir.
Ela surgiu.
Calça escura, blusa clara, cabelo solto. Caminhou alguns passos para fora do prédio e olhou para os lados, procurando. O carro dele estava um pouco atrás, sob a sombra de uma árvore.
Ele piscou os faróis discretamente.
Ela o reconheceu e abriu um sorriso involuntário antes de se aproximar.
Quando entrou no carro, o perfume dela trouxe de volta a lembrança da rodovia. Não era forte. Era leve. Jovem.
Ela fechou a porta e olhou ao redor antes de encará-lo com um meio sorriso curioso.
— Ué… parou aqui atrás pra ninguém te ver?
Ele apoiou o braço no volante e sorriu, tranquilo.
— Tudo que eu menos preciso é seu pai vindo tirar satisfação comigo… e vendo minha aliança.
Ela soltou uma risada curta, surpresa com a franqueza.
— E você não devia ao menos esconder esse troço pra aliviar a minha culpa?







