Capítulo 6 - Uma Garota

Henrique estava no meio de uma discussão técnica sobre um habeas corpus quando o celular vibrou sobre a mesa.

Era início de tarde. Por volta de duas e vinte. A luz atravessava as persianas do escritório em linhas diagonais, iluminando parcialmente a mesa de madeira escura e os papéis espalhados. Arthur falava sem parar sobre uma estratégia processual, gesticulando com a caneta como se estivesse defendendo o caso ali mesmo, na sala.

— Se a gente conseguir desqualificar a testemunha principal, o promotor perde metade da sustentação. É simples — ele dizia, andando de um lado para o outro. — Não dá pra ir de peito aberto num júri desses.

Henrique assentia, mas a atenção dele já não estava totalmente ali.

O celular vibrou outra vez.

Ele não pretendia olhar. Mas olhou.

Número salvo na noite anterior.

Uma única mensagem.

Eu topo.

O mundo pareceu reduzir de volume por um segundo.

Henrique desbloqueou a tela devagar, como se o gesto precisasse ser discreto até para si mesmo. O canto da boca se curvou antes que ele tivesse tempo de controlar.

Ela realmente tinha mandado.

Alguns segundos depois, outra mensagem surgiu.

Só um jantar.

O sorriso dele aumentou.

Arthur parou de falar no meio da frase.

— Eu estou explicando uma tese brilhante ou você está apaixonado?

Henrique levantou o olhar lentamente, ainda com o celular na mão.

— Continua.

— Não continuo nada. — Arthur estreitou os olhos. — O que tem de tão interessante nesse telefone?

Henrique voltou a olhar para a tela e digitou com naturalidade controlada.

Só um jantar.

E antes que pudesse pensar demais:

Hoje. 19h?

A resposta não demorou.

Você é muito apressado.

Ele quase riu.

Depois de certa idade a gente para de perder tempo à toa.

Arthur pigarreou alto, teatral.

— Eu conheço essa cara. Isso definitivamente não é cliente. E duvido muito que seja a Lilian.

Henrique bufou, guardando o celular virado para baixo sobre a mesa.

— Claro que não. Se fosse a Lilian eu já estaria estressado.

Arthur abriu um sorriso lento, malicioso.

— Espera. — Ele apoiou as mãos na mesa. — Você não vai me dizer que arranjou uma amante, Pedro Henrique.

Henrique fechou os olhos por um segundo, já arrependido de ter demonstrado qualquer coisa.

— Não é nenhuma amante.

— Mas?

Ele respirou fundo.

— Conheci alguém ontem.

Arthur arregalou os olhos como se tivesse acabado de ouvir uma notícia histórica.

— Você? Conheceu alguém? Na vida real? Fora de um tribunal?

Henrique ignorou o sarcasmo.

— Parei na rodovia pra ajudar. Pneu furado.

Arthur começou a rir antes mesmo de ouvir o resto.

— Ah não. Isso é roteiro de filme ruim.

— Eu sei.

— E você salvou a donzela indefesa e agora ela quer te agradecer com um jantar?

Henrique lançou um olhar atravessado.

— Ela não é assim.

Arthur inclinou a cabeça.

— Então como ela é?

Henrique hesitou.

E essa hesitação disse mais do que qualquer resposta.

— Ela é… — ele parou. — Uma garota.

Arthur fez uma careta imediata.

— Menor de idade?

— Pelo amor de Deus, Arthur.

— Hoje em dia eu preciso perguntar.

Henrique passou a mão pelo rosto.

— Dezenove.

Arthur ficou em silêncio por um segundo. Depois outro.

E então começou a rir.

— Você está de brincadeira.

Henrique não riu.

— Ela tem quase a idade da minha filha.

— Quase não é a idade da sua filha — Arthur corrigiu, ainda divertido. — E desde quando você virou o guardião da moralidade?

Henrique se levantou e foi até a janela, afastando levemente a persiana.

— Eu não sei o que aconteceu. Eu parei, ajudei, conversamos… e desde ontem ela não sai da minha cabeça.

A admissão saiu mais honesta do que ele gostaria.

Arthur cruzou os braços.

— Você está preso num casamento infeliz há dezoito anos.

Henrique virou-se.

— Eu não estou infeliz há dezoito anos.

Arthur arqueou uma sobrancelha.

— Eu te conheço desde que era estagiário na firma em que você trabalhava. Isso tem… quanto? Sete anos? Você já parecia infeliz naquela época.

Henrique suspirou.

Arthur tinha essa habilidade irritante de dizer o que ele evitava admitir.

— Eu preciso fazer a Lilian aceitar o divórcio de uma vez por todas.

Arthur inclinou a cabeça, analisando o amigo com menos ironia e mais seriedade pela primeira vez na conversa.

— Você quer o divórcio… ou quer essa garota?

Henrique ficou alguns segundos olhando para o celular vibrando sobre a mesa antes de virar o aparelho para baixo novamente.

Arthur cruzou os braços, inclinando o corpo para trás na cadeira.

— Eu fiz uma pergunta — disse, com aquele meio sorriso provocador. — Você quer o divórcio… ou quer a garota?

Henrique respirou fundo, encarando o amigo com um cansaço que não era só físico.

— Eu quero os dois.

Arthur arregalou os olhos por um segundo e, no seguinte, caiu na gargalhada.

— Meu Deus, ele quer os dois! O criminalista mais ponderado da cidade virou adolescente!

Henrique balançou a cabeça.

— Não é assim. Eu já queria o divórcio antes dela aparecer do nada na minha vida.

Arthur apoiou os cotovelos na mesa.

— Então faz as malas e sai daquela casa, Pedro. Dá pra ver nos seus olhos o quanto você odeia aquilo lá.

Henrique se enrijeceu.

— Eu não odeio.

— Você não suporta — Arthur corrigiu. — É diferente.

Henrique ficou em silêncio por um instante, depois passou a mão pelo rosto.

— Não é fácil assim.

Arthur suspirou, já prevendo a justificativa.

— Lá vem.

— Se eu fizer isso, minhas filhas vão ficar contra mim, Arthur. — A voz dele perdeu a ironia e ficou grave. — Eu não posso perder as meninas. Elas são tudo o que eu tenho. Você sabe disso.

Arthur deixou a postura relaxada de lado por um momento.

— A Lilian vai fazer a cabeça delas — Henrique continuou. — Vai dizer que eu abandonei a família, que troquei a mãe delas por outra. Vai transformar minha vida num inferno.

Arthur inclinou a cabeça.

— E você vai ser refém da Lilian até quando? As duas fazerem dezoito?

Henrique não respondeu.

Arthur completou:

— Bruna tem onze anos, Pedro. Onze. É muito tempo pra ser infeliz.

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