Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 3
— Fala que eu tô vendo coisas... — Loke sussurrou atrás de mim, a voz rouca de incredulidade. — Eu queria poder dizer, mas é ela. É a Lara. Não era só o fato de ser ela. Era o jeito como ela estava. A garota vibrante, quase selvagem da noite anterior, tinha desaparecido. No lugar dela caminhava uma versão apagada, como se tivessem sugado toda a vida de dentro do seu corpo. — Não parece que o pai tá arrastando ela pro altar? — murmurei, sem tirar os olhos dela. Loke assentiu devagar, o maxilar travado. Os sussurros pela igreja aumentaram, criando um burburinho baixo e venenoso. André observava tudo do altar com um sorriso satisfeito, quase sádico, como quem sabia exatamente o que estava acontecendo. O pai de Lara segurava o braço dela com firmeza excessiva, guiando-a pelo corredor. Ele se inclinou ligeiramente na direção dela e disse algo baixo demais para escutarmos. Foi nesse momento que vi: uma lágrima escorreu pelo rosto dela, arrastando a maquiagem e revelando um hematoma arroxeado na maçã do rosto. Meu sangue ferveu instantaneamente. — Ela tá machucada, porra — rosnou Loke, a voz baixa e gelada. — Alguém bateu nela. — Eu tô vendo — respondi entre dentes, as mãos cerradas com tanta força que as unhas cravavam na palma. — Que merda aconteceu nas poucas horas desde que ela saiu da nossa cama? Lara andava devagar, quase arrastando os pés, como se cada passo exigisse um esforço sobre-humano. Quando chegou perto da nossa fileira, deve ter sentido nossos olhares queimando sobre ela e ergueu o rosto por um segundo. O desespero que encontrei em seus olhos me acertou como um soco no estômago. Ela parou abruptamente, o rosto ficando vermelho vivo. Por um instante, pareceu que ia dar meia-volta e correr. Mas o pai deu um puxão seco no braço dela, obrigando-a a continuar. — Calma — Loke segurou meu ombro com força, sentindo que eu estava prestes a avançar. Meu corpo inteiro vibrava de raiva. — Eu não consigo ficar aqui assistindo isso sem fazer nada — rosnei. — Ela tá ferida, Loke. Olha pra cara dela. — Eu sei. Mas ainda não é o momento. Vamos ter a nossa hora. Ela chegou ao altar, rígida como uma estátua. André estendeu a mão para ela com um sorriso falso, mas Lara não a segurou. Ficou apenas parada, os dedos apertando o tecido do vestido com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. O padre pigarreou. — Podem se sentar. Todos obedeceram. O homem começou o discurso padrão sobre amor, respeito e união. Cada palavra parecia uma facada em Lara. Seus ombros tremiam levemente. Quando o padre pediu que ficassem de frente um para o outro, pudemos ver claramente o ódio puro que ardia nos olhos dela ao encarar André. — André, você aceita Lara como sua legítima esposa, para amá-la e... A porta da igreja foi escancarada com violência. — EU ME OPONHO A ESSE CASAMENTO! — gritou uma moça, entrando como um furacão. — EU ESTOU GRÁVIDA DO ANDRÉ FARIAS! O caos foi instantâneo. Gritos, suspiros chocados, pessoas se virando. O pai de Lara marchou furioso em direção à garota. André desceu do altar, o rosto vermelho de raiva. Loke e eu nos olhamos. — É a nossa hora — eu disse. Não pensamos duas vezes. Subimos pelo corredor lateral e paramos ao lado de Lara. Segurei suavemente seu queixo, virando seu rosto para mim. De perto, o hematoma ficava ainda mais evidente. — Quem te bateu? — perguntei, a voz baixa, mas carregada de fúria contida. Ela não respondeu. Seus olhos marejados estavam fixos na confusão no centro da igreja. — Me tirem daqui... por favor — sussurrou, a voz falhando. Foi o suficiente. Loke segurou a mão dela do outro lado. Saímos os três pelo fundo da igreja, ignorando os gritos de André chamando o nome dela. A garota grávida ainda segurava a atenção de todos como uma leoa. — Vamos, entra no carro — ordenei, abrindo a porta traseira para ela enquanto Loke dava a volta. Assim que entramos, gritei para o motorista: — Arranca! O carro disparou. Só quando estávamos a uns cem metros de distância da igreja é que me virei para Lara. Segurei sua mão com cuidado, notando como ela tremia. — Agora me conta... que porra aconteceu hoje?






