Mundo de ficçãoIniciar sessãoHomens de Terno Não Trazem Boas Notícias
Saí do prédio espelhado de Carlos com o contrato de Vincent Blackwood enfiado na bolsa, dobrado ao meio, pesando mais do que se fosse de concreto. Eu não tinha assinado. Ainda. Quando a sua vida despenca de um penhasco, você não se j**a de cabeça na primeira rede que aparece sem antes testar os fios. O instinto de preservação de filha de raposa corporativa grita mais alto que o desespero. A noite paulistana caiu pesada sobre a cidade. A garoa fina grudava no meu casaco, gelando a nuca. O vento na Avenida Paulista não perdoava quem andava a pé, e a ironia de estar cercada por prédios milionários enquanto contava moeda me dava vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Meu celular apitou no bolso. Mais uma notificação automática do banco: cartão final 4021 bloqueado por determinação judicial. O terceiro só hoje. Hoje de manhã eu era Lena Whitmore, focada em entregar o TCC e garantir um estágio em jornalismo investigativo. Agora eu era um problema de família na planilha de alguém. Uma mercadoria que Vincent Blackwood queria anexar ao portfólio. Eu precisava comer. A última coisa sólida que engoli foi uma maçã esquecida na fruteira antes da Polícia Federal arrombar a porta do nosso apartamento. Caminhei alguns quarteirões, dobrei numa rua mal iluminada e entrei no primeiro lugar aberto. “Jantar” era uma palavra grande demais pro que tinha ali. O restaurante de esquina cheirava a óleo velho, café requentado e desinfetante de eucalipto. As luzes fluorescentes piscavam num zumbido que irritava até o dente. Sentei no fundo, na mesa de fórmica mais limpa que achei, e pedi um prato feito de arroz, feijão e um bife fino. Eu tinha exatos vinte e dois reais no bolso. O suficiente pra comida e pra pagar o ônibus de volta pro apartamento vazio do meu pai. Quando o prato chegou, enfiei o garfo, mas a fome sumiu. A TV de tubo presa num suporte de ferro no canto exibindo o jornal, no mudo. A imagem do meu pai, Roberto, entrando numa viatura com a cabeça baixa, repetia em loop. A tarja vermelha não tinha pena: Fraude milionária na construtora Whitmore. Roberto Whitmore aguarda audiência de custódia. Encarei o bife duro. Pensei no contrato. Pensei em Vincent. Por que eu? Era isso que travava a comida. Blackwood engolia empresa quebrada no café da manhã. Ele não precisava me comprar pra destruir meu pai. Podia fazer isso do escritório, com uma ligação. Se a Cláusula 4 exigia mudança imediata pra casa dele e “manutenção rigorosa de aparências públicas”, aquilo não era só ajuste de dívida. Era refém. Ele queria a filha de Roberto Whitmore dentro da casa, debaixo do olho dele, pra todo mundo ver. O sino da porta de vidro tocou, cortando o barulho da chuva lá fora. Não olhei na hora. Só senti a temperatura do lugar cair alguns graus. Dois homens entraram. O boteco inteiro de repente pareceu pequeno demais pra eles. Ternos escuros bem cortados não entram em lanchonete gordurosa às nove da noite de terça-feira à toa. Ou estão perdidos. Ou vieram atrás de alguém. Eles não pareciam perdidos. O mais alto, maxilar travado e ombro largo de quem é pago pra resolver problema com o corpo, veio direto na minha direção. O outro, mais magro, de terno cinza-chumbo, parou perto da porta. Não chegou perto. Se encostou na parede descascada ao lado do balcão e começou a girar um isqueiro dourado entre os dedos. Click. Click. A tampa abria e fechava num ritmo irritante. Ele não puxou cigarro, não pediu nada. Só ficava ali, girando o isqueiro, como se fosse parte do cenário. O som do metal batendo virou ruído de fundo que meu cérebro de repórter guardou sem querer. A cadeira de plástico à minha frente rangeu quando o homem mais alto puxou. Sentou sem pedir licença. — Senhorita Whitmore. — A voz dele era controlada. Plana. Treinada. — Meu horário pra capanga corporativo acabou às seis da tarde — respondi, empurrando o prato intacto alguns centímetros pra frente. Ele não reagiu. Enfiou a mão no bolso interno do paletó e tirou um celular preto. Sem capa. Sem marca aparecendo. Empurrou o aparelho pela mesa até ele encostar no meu copo suado de guaraná. — Não somos capangas. Somos assessoria executiva. — Ele falava como se estivesse lendo um script. — Você disse ao advogado que precisava de vinte e quatro horas para pensar na proposta. — É o tempo mínimo pra ler um papel que basicamente mexe com a minha vida inteira, sim. — O tempo do senhor Blackwood não acompanha o tempo da burocracia. — Ele cruzou as mãos sobre a mesa. — A fiança do seu pai vence amanhã, ao meio-dia. Se o juiz não ver a transferência, Roberto vai pra penitenciária estadual e sai da provisória. Eu sabia o que acontecia com empresário de colarinho branco na estadual. Roberto não duraria uma semana. Baixei os olhos pro bife frio e pensei se tinha como engolir alguma coisa antes de engolir aquele contrato. — O senhor Blackwood quer uma resposta — o homem concluiu, levantando com a mesma calma com que sentou. Lá no fundo, o cara do terno cinza guardou o isqueiro dourado no bolso. O clique finalmente parou, abafado pelo tecido. Os dois viraram de costas e caminharam até a porta. — O carro vai esperar lá fora por cinco minutos — o mais alto disse por cima do ombro, empurrando a porta de vidro. O sino tocou de novo. Fiquei sozinha no restaurante. O chiado da chapa de hambúrguer voltou a encher o lugar. Olhei pra mesa. A tela do celular preto acendeu, iluminando o plástico riscado. Número desconhecido, sem foto, só uma mensagem no meio da tela. Preciso de uma reunião. Hoje.






