CAPÍTULO 2

Homens de Terno Não Trazem Boas Notícias

Saí do prédio espelhado de Carlos com o contrato de Vincent Blackwood enfiado na bolsa, dobrado ao meio, pesando mais do que se fosse de concreto. Eu não tinha assinado. Ainda. Quando a sua vida despenca de um penhasco, você não se jo.ga de cabeça na primeira rede que aparece sem antes testar os fios. O instinto de quem cresceu vendo o pai mentir pra viver gritou mais alto que o desespero.

A noite paulistana caiu pesada sobre a cidade. A garoa fina grudava no meu casaco, gelando a nuca. O vento na Avenida Paulista não perdoava quem andava a pé, e a ironia de estar cercada por prédios milionários enquanto contava moeda me dava vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

Meu celular apitou no bolso. Mais uma notificação automática do banco: cartão final 4021 bloqueado por determinação judicial. O terceiro só hoje. Hoje de manhã eu era Lena Whitmore, focada em entregar o TCC e garantir um estágio em jornalismo investigativo. Agora eu era um problema de família na planilha de alguém. Uma mercadoria que Vincent Blackwood queria anexar ao portfólio.

Eu precisava comer. A última coisa sólida que engoli foi uma maçã esquecida na fruteira antes da Polícia Federal arrombar a porta do nosso apartamento. Caminhei alguns quarteirões, dobrei numa rua mal iluminada e entrei no primeiro lugar aberto.

“Jantar” era uma palavra grande demais pro que tinha ali. O restaurante de esquina cheirava a óleo velho, café requentado e desinfetante de eucalipto. As luzes fluorescentes piscavam num zumbido que irritava até o dente. Sentei no fundo, na mesa de plástico menos suja que achei, e pedi um prato feito de arroz, feijão e um bife fino. Eu tinha exatos vinte e dois reais no bolso. O suficiente pra comida e pra pagar o ônibus de volta pro apartamento vazio do meu pai.

Quando o prato chegou, enfiei o garfo, mas a fome sumiu. Lá no alto, uma TV velha passava o jornal no mudo. A imagem do meu pai entrando na viatura de cabeça baixa repetia sem parar. O letreiro vermelho gritava: Fraude milionária na construtora Whitmore. Roberto Whitmore aguarda audiência de custódia.

Encarei o bife duro. Pensei no contrato. Pensei em Vincent.

Por que eu? Larguei o garfo no prato. Um cara como o Blackwood negociava crises bilionárias sem nem suar. O meu pai era peixe pequeno pra ele. Se a Cláusula 4 exigia mudança imediata pra casa dele e “manutenção rigorosa de aparências públicas”, aquilo não era só ajuste de dívida. Era sequestro com papel assinado. Ele queria a filha de Roberto Whitmore dentro da casa, debaixo do olho dele, pra todo mundo ver.

O sino da porta de vidro tocou, cortando o barulho da chuva lá fora.

Não olhei na hora. Só senti o ar azedar na hora.

Dois homens entraram. O boteco inteiro de repente pareceu pequeno demais pra eles. Ternos escuros bem cortados não entram em lanchonete pé-suja de esquina às nove da noite de terça-feira à toa. Ou estão perdidos. Ou vieram atrás de alguém.

Eles não pareciam perdidos.

O mais alto, maxilar travado e ombro largo de quem é pago pra intimidar sem abrir a boca, veio direto na minha direção. O outro, mais magro, de terno cinza-chumbo, parou perto da porta. Não chegou perto. Se encostou na parede descascada ao lado do balcão e começou a girar um isqueiro dourado entre os dedos.

Click. Click. A tampa abria e fechava num ritmo irritante. Ele não puxou cigarro, não pediu nada. Só ficava ali, girando o isqueiro, como se fosse parte do cenário. O som do metal batendo virou ruído de fundo que meu cérebro de repórter guardou sem querer.

A cadeira de plástico à minha frente rangeu quando o homem mais alto puxou. Sentou sem pedir licença.

— Senhorita Whitmore. — A voz dele era controlada. Plana. Treinada.

— Meu horário pra receber capacho de rico acabou às seis da tarde — respondi, empurrando o prato intacto alguns centímetros pra frente.

Ele não reagiu. Enfiou a mão no bolso interno do paletó e tirou um celular preto. Sem capa. Sem marca aparecendo. Empurrou o aparelho pela mesa até ele encostar no meu copo suado de guaraná.

— Não somos capangas. Somos assessoria executiva. — Ele falava como se estivesse lendo um script. — Você disse ao advogado que precisava de vinte e quatro horas para pensar na proposta.

— É o tempo mínimo pra ler um papel que basicamente mexe com a minha vida inteira, sim.

— O tempo do senhor Blackwood não acompanha o tempo da burocracia. — Ele cruzou as mãos sobre a mesa. — A fiança do seu pai vence amanhã, ao meio-dia. Se o juiz não ver a transferência, Roberto vai pra penitenciária estadual e sai da provisória.

Eu sabia o que acontecia com empresário de colarinho branco na estadual. Roberto não duraria uma semana. Baixei os olhos pro bife frio e pensei se tinha como engolir alguma coisa antes de engolir aquele contrato.

— O senhor Blackwood quer uma resposta — o homem concluiu, levantando com a mesma calma com que sentou.

Lá no fundo, o cara do terno cinza guardou o isqueiro dourado no bolso. O clique finalmente parou, abafado pelo tecido. Os dois viraram de costas e caminharam até a porta.

— O carro vai esperar lá fora por cinco minutos — o mais alto disse por cima do ombro, empurrando a porta de vidro.

O sino tocou de novo. Fiquei sozinha no restaurante. O chiado da chapa de hambúrguer voltou a encher o lugar.

Olhei pra mesa. A tela do celular preto acendeu, iluminando o plástico riscado. Número desconhecido, sem foto, só uma mensagem no meio da tela.

Preciso de uma reunião. Hoje.

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