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Cumprindo o acordo

— Babaca... — Murmurei, bastante irritada. A minha respiração era audível, curta. — Quem ele pensa que é?

— Senhora Turner — assustei-me com a chegada de uma mulher. — Sou Helga, a governanta da casa — ela, que aparentava ter os seus cinquenta anos, estendeu a mão para mim e eu a apertei. — Estou às suas ordens e espero atingir as suas expectativas.

Ela certamente ouviu o nosso desentendimento, porém optou pela discrição. Boa funcionária.

— Este é o seu quarto — Helga abriu a porta e revelou um cômodo simples com uma cama de casal, uma penteadeira, três janelas, um closet e um banheiro. A decoração era branca e bege. Sem graça alguma. — Se algo não agradar, posso mudar.

— Não, está bom — forcei um sorriso. Eu não queria ser desagradável com ela, que só estava tentando me ajudar. — Esta porta aqui é para quê? — Questionei quando tentei abri-la, mas não consegui.

— Dá acesso ao quarto do senhor Turner.

— Ah...

Tentei não entrar no assunto “casamento de fachada” por enquanto. Mas por qual razão Brent teria permitido que os nossos quartos fossem integrados? E por que eu não tenho a chave?

— Sabe onde está a chave da porta?

— O senhor Turner disse que lhe daria pessoalmente.

— Claro — respirei fundo, tensa. Esse ambiente é novo, desconfortável, estou em total alerta. Essa casa não parece um lar. — Eu preciso de um banho.

— Vou preparar a banheira.

— Não é necessário — interrompi-a de imediato. Não quero ter que interagir com mais ninguém por hoje. — Eu faço.

— Tudo bem — ela sorriu. — Suas roupas estão no closet.

— Certo.

— Eu posso trazer uma sopa, se quiser.

— Isso eu vou aceitar — ri fraco. — Quase não comi durante a festa.

— Imaginei.

— Obrigada.

Quando ela se foi, fechei e tranquei a porta do quarto e caminhei até o closet. É tudo tão estranho. Me sinto tão deslocada aqui.

É porque você está deslocada, Irina.

Analisei as roupas e acessórios perfeitamente organizados no closet e suspirei ao localizar os robes que Margot me fez comprar. Ao contrário dela, eu não teria uma noite de núpcias. Mas eu já sabia que seria dessa forma e, sendo sincera, agradeço por isso. Não seria capaz de ir para a cama com um homem que vi pela primeira vez hoje.

— O que me impede de usá-lo? — Peguei um robe de seda branco e a camisola da mesma cor que o acompanhava.

Preparei a banheira e tomei um banho de trinta minutos, relaxando na minha própria companhia. Eu amava ter esses momentos e era tranquilizador poder viver isso em uma etapa tão conturbada da minha vida. Quando terminei, vesti-me e escutei batidas na porta do quarto. Era Helga com a sopa. Agradeci-a e me concentrei em comer enquanto observava o céu escuro e estrelado daquela noite.

O meu destino estava selado, eu nunca pude fugir dele.

— Irina! — Estremeci de susto ao ouvir a voz de Brent.

Procurei-o com o olhar pelo quarto, mas não o vi. Logo lembrei da porta que compartilhávamos. Ao me aproximar, notei um pequeno envelope marrom no chão. O ogro havia jogado aquilo pela fresta inferior da porta. Abaixei-me para pegá-lo e o abri imediatamente. Ali dentro estava a chave e um recado escrito com preguiça que dizia: “Use somente em caso de emergência, prometo que farei o mesmo.”.

— Por que ter isso? — Franzi o cenho, confusa. — É só derrubar essa porta e completar a parede — falei em volume normal, porém não fui respondida. Eu queria que ele me ouvisse. — Palhaçada.

                                                                                    [...]

— Chegaram antes do previsto! — John Turner disse sorridente. Brent e eu apertamos a sua mão. — Vocês poderiam até ter se atrasado!

— Tudo bem, minha filha?

O meu pai me recebeu com um abraço e eu o apertei com toda a força que tinha enquanto me continha para não chorar. Não sei como vou passar muito tempo convivendo com alguém como Brent. Mais uma vez, ele não falou absolutamente nada durante o trajeto.

— O que aconteceu? — Ele insistiu.

— Saudades, só isso — menti e ri para reforçar o meu fingimento. — A mamãe e a Claire estão bem?

— Com saudades de você também, assim como eu — o meu pai abrigou o meu rosto entre as suas mãos e beijou a minha testa. — Está cuidando bem dela, Brent?

— Estou, sim.

— Fico feliz.

— Victor, você já releu todos os pontos do contrato? — John perguntou ao meu pai, que confirmou. — Eu também concordo, então vocês precisam apenas assinar.

— Sem ler? — Brent perguntou.

— É o nosso acordo, não de vocês — John respondeu. — Você já é o CEO da holding e atua como CEO interino na construtora. Além disso, você sabe que vai herdar a liderança de todos os meus negócios.

— Agora, Brent, você será CEO definitivo da construtora — o meu pai revelou. — Faz parte do acordo. Estávamos te treinando.

— Te garanto que metade do que você vai comandar não existiria se Victor e eu não tivéssemos parado de competir e nos unido quando aquele infame do Jones surgiu no mercado das construções e pulverizou os nossos empreendimentos — John prosseguiu. — Hoje você tem nas mãos um império que vai muito além dessa área.

— Tudo bem, você acabou? — O seu filho bufou. — Me dá a caneta — inclinou-se para se apoiar na mesa e assinar o contrato. — Sua vez — entregou-me a caneta e me encarou.

— Eu estou passando a minha parte da empresa para o Brent? — Confusa, olhei para o meu pai.

Ele sorriu e acenou negativamente.

— Não, filha. Estamos fazendo a junção oficial das construtoras e as partes estão igualmente divididas — explicou-me. — Ninguém sairá perdendo.

— E o campo de golfe? — Recordei-me. — Ainda é só nosso, certo?

— Sim, claro — meu pai riu fraco. — Os demais negócios de cada família continuam sendo de cada um. A única diferença é que a construtora é o principal negócio dos Collins e um dos principais dos Turner.

— Mas Brent vai comandar com a mesma dedicação — John reforçou.

— Você terá a sua parte resguardada, mas com um acréscimo por ser minha esposa — Brent se pronunciou.

— E vice-versa, pelo que entendi — falei para ele. — Ou seja, nada muda. Temos a mesma coisa.

— Isso.

— O casamento serve para deixar as coisas mais pessoais e entrelaçar tudo, enraizar — John disse. — Salvamos as nossas construtoras com esse acordo naquela época e assim continuará. Os Jones seguem sendo uma pedra no nosso sapato.

— Certo — balancei a cabeça em concordância. — Tudo bem.

Após suspirar, segurei firmemente a caneta e assinei o contrato.

— Feito.

— Ótimo! — John pegou o papel, apertou a minha mão e a de Brent mais uma vez e fez o mesmo com o meu pai. — Acordo oficializado! Finalmente! — Sorriu. — Depois de vinte e cinco anos de parceria provisória!

— Agora o Brent só precisa arranjar um cargo de diretora para a Irina — o meu pai falou, atraindo a atenção de todos nós. — Vocês dois trabalharão juntos.

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