Na chuva se j**a pedras

SAVANNAH HAYES

— Calma, querida. A febre cedeu e ele finalmente conseguiu dormir.

Meu corpo inteiro relaxou na mesma hora.

Encostei a cabeça no metal gelado do metrô e fechei os olhos por um segundo.

— Graças a Deus…

— Você comeu algo pelo caminho ?

Soltei uma risada cansada.

— Você realmente acha que eu tive tempo?

— Savannah…

— Pego alguma coisa depois. — Menti, era mais provável que eu sobreviveria de café até às cinco da tarde. Fiz uma pausa. — Checa a febre do Noah de hora em hora, por favor. Preciso ir, tchau.

Desliguei a ligação quando o metrô finalmente parou na minha estação e saí correndo escada acima junto da multidão apressada. O vento gelado bateu no meu rosto no segundo em que emergi na rua.

Apertei a bolsa contra o corpo enquanto corria pela  calçada lotada de Manhattan desviando de gente, guarda-chuvas e motoristas que pareciam ter comprado ao invés de tirado a carteira de motorista.

Parei no semáforo de pedestres ofegante, esperando o sinal abrir enquanto passava a mão no coque já desmanchando.

Então ouvi o motor.

Virei o rosto exatamente a tempo de ver um carro preto caro atravessar uma poça gigantesca que estava a minha frente. A água suja veio direto em mim me molhando mais do que já estava, agora com água suja.

Fiquei parada por alguns segundos em choque, logo depois explodi.

— Filho da puta!

O carro continuou andando como se nada tivesse acontecido.

Ainda furiosa olhei para chão e vi uma pequena pedra perto da calçada que peguei sem nem pensar.

— Quer agir igual babaca? Então toma!

Joguei e no momento seguinte ouvi a pedra acertando a lateral do carro preto.

O veículo freou de forma brusca alguns metros à frente.

Olhei para meu uniforme em pânico, vendo que logo da Sinclair Corporation brilhava enorme no bolso da camisa, logo puxei a bolsa na frente do corpo cobrindo o símbolo.

O carro começou a dar ré e quando parou na minha frente o vidro escuro abaixou revelando o homem mais belo que já vi.

Ele tinha cabelos escuros bem penteados, um terno preto impecável e o relógio caro brilhando no pulso apoiado na janela, seu semblante não escondia sua raiva por eu ter acertado seu carro com uma pedra.

Os olhos dele desceram pela minha roupa molhada e depois voltaram pro meu rosto, me analisando como se eu fosse uma louca.

— Você acabou de jogar uma pedra no meu carro?

Cruzei os braços e nem tentei negar.

— Você me banhou com essa água imunda.

O olhar dele ficou ainda mais frio.

— Tem ideia de quanto custa esse carro?

Ri incrédula.

— Tem ideia de quanto custa terapia depois de ser encharcada por água suja às oito da manhã?

Silêncio.

— Você sempre reage jogando pedras?

— Só quando não encontro um tijolo para jogar.

Os olhos azuis dele estreitaram.

— Interessante.

— Não, interessante é um adulto precisar de um carro desse tamanho pra compensar problemas... fálicos.

O homem continuou me encarando com aquele olhar gélido, mas não falou nada sobre meu insulto.

Talvez fosse a certeza de não ter um pau pequeno, mas nunca iria saber. A última coisa que eu queria era homem e o que vinha no pacote.

Então os olhos dele desceram outra vez até minha bolsa apertada contra o peito, estava claro que eu escondia alguma coisa.  E o que eu escondia era o meu crachá e a logo da empresa em que trabalhava.

Segurei a bolsa com ainda mais firmeza.

— Tá escondendo o quê?

— Minha vontade de jogar outra pedra.

Por um momento achei que ele fosse sair do carro e meu coração disparou ainda mais.

Todavia fui salva por alguém que buzinou atrás dele.

O homem desviou os olhos para rua antes de voltar a me encarar.

— Você tem sorte de eu estar atrasado.

Dei um sorriso falso.

— E você tem sorte de eu não ter encontrado uma pedra maior.

O semáforo abriu e não demorei a atravessar antes que aquele psicopata rico resolvesse que eu deveria pagar pelo arranhão em seu carro.

Entretanto consegui ouvir a voz dele uma última vez:

— Não jogue mais pedra nos carros alheios.

Olhei por cima do ombro.

— Apenas se pararem de jogar água suja em mim!

Então saí andando rápido sem perceber o olhar fixo dele acompanhando cada passo meu até desaparecer na esquina.

Depois de pelo menos mais dois quarteirões o prédio da Sinclair Corporation apareceu na minha frente. Respirei fundo, me preparando mentalmente, pois odiava aquele lugar. Todavia o único problema era que aquele lugar pagava as contas.

Quando atravessei as portas dos funcionários da Sinclair Corporation, o relógio na parede marcava 8h12. Fechei os olhos por um momento enquanto tentava recuperar o ar depois de correr três quarteirões debaixo da chuva. Minha camisa preta do uniforme grudava nas costas, o coque estava desmanchando e meus pés latejavam dentro do sapato barato.

Passei direto pela copa antes que alguém pudesse falar comigo e corri para o vestiário feminino no fim do corredor. O lugar já estava cheio de funcionárias terminando de se arrumar pro expediente. Perfume barato, secadores ligados, maquiagem sendo passada às pressas e conversas abafadas enchiam o ambiente.

Fui direto até meu armário de metal amassado em que o número 27 já estava meio apagado pelo tempo. Abri e agradeci mentalmente por ter deixado um uniforme reserva ali na semana passada.

— Nossa, Savannah, o que aconteceu com você? — uma das copeiras perguntou enquanto passava batom.

— Manhattan aconteceu comigo.

Troquei o uniforme encharcado pelo outro seco, fechando os botões da camisa preta enquanto encarava meu reflexo cansado no espelho.

Suspirei antes de olhar pro lado.

— Me empresta o secador antes que eu pareça saída de um documentário sobre tragédias urbanas?

— Pega aí.

Ela me entregou o secador sem nem olhar, comecei a secar o cabelo enquanto observava minhas próprias olheiras no espelho.

Então a porta do vestiário abriu com força.

Silêncio instantâneo.

Todas as mulheres olharam, pois só existia uma pessoa naquele prédio capaz de causar silêncio imediato às oito da manhã. E dessa era Martha Collins. Ela entrou no vestiário com a postura rígida de sempre, segurando uma prancheta contra o peito. O coque impecável parecia tão apertado que provavelmente desafiava leis da física.

Os olhos dela encontraram os meus de imediato.

— Savannah Hayes.

“Oh merda, não é possível”, pensei.

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