Mundo de ficçãoIniciar sessãoEmma Anderson
O metrô rangia e sacolejava como se quisesse me sacudir para fora do meu próprio corpo. Cada solavanco fazia a cabeça de Ellie balançar contra meu ombro, o calor febril dela atravessando minha jaqueta fina como uma acusação silenciosa. Eu passava os dedos na testa dela a cada poucas estações, contando os segundos entre os batimentos acelerados do meu coração e o ritmo metálico dos trilhos.
O termômetro digital que comprei na farmácia da esquina ontem à noite marcou 39,2 graus antes de sairmos. Agora, naquele trem lotado e abafado, eu tinha a nítida sensação de que a temperatura estava ainda mais alta.
Eu não tinha escolha. A entrevista era hoje.
A Knight Corporation era o único anúncio que não exigia currículo impecável, anos de experiência ou aquela "disponibilidade para viagens internacionais" que eu nunca teria. Faxineira noturna. Meia-noite às seis da manhã. Um salário mínimo que mal cobria os aluguéis atrasados, mas era real. Era dinheiro que podia comprar antibióticos, um termômetro novo, talvez até uma consulta particular se eu conseguisse juntar com as gorjetas da lanchonete.
Sem isso, amanhã a gente não comia. Sem isso, Ellie continuava ardendo em silêncio naquela cama de solteiro.
Desci na estação certa com ela nos braços, o peso pequeno e quente me ancorando ao chão frio da plataforma. O prédio da Knight se erguia à frente como um monstro de vidro e aço, refletindo o céu cinzento da cidade em suas janelas impecáveis. As luzes internas brilhavam mesmo de dia, como se o lugar nunca dormisse. Era um mundo que pertencia a outras pessoas. Pessoas que não precisavam escolher entre o remédio e a comida.
A recepção era imensa, mármore polido, sofás de couro que pareciam nunca ter sido usados e um balcão curvo com uma mulher sorridente atrás dele. O tipo de sorriso profissional, ensaiado, mas que ainda assim aquecia um pouco o frio que morava dentro de mim.
— Boa tarde — ela me cumprimentou, gentil.
— Boa tarde, sou Emma Anderson.
— Emma Anderson, para a entrevista da vaga de limpeza noturna?
— Sim… — Minha voz saiu baixa, quase engolida pelo eco do saguão monumental. — Desculpe… eu trouxe minha irmã. Ela está com febre alta. Não tinha ninguém para ficar com ela.
A recepcionista, que no crachá dizia “Sarah”, olhou para Ellie com uma expressão suave. Minha irmã acordou devagar, os olhos vidrados pela febre, e se encolheu mais contra mim, fugindo da claridade.
— Não tem problema nenhum. Pode deixar ela aqui comigo. Eu fico de olho — Sarah disse, inclinando-se um pouco sobre o balcão. — Oi, docinho. Quer um copinho d’água gelada? E eu tenho uns lápis de cor e papel aqui, se quiser desenhar enquanto espera pela sua irmã.
Ellie assentiu devagar, sem energia nem para falar. Eu a sentei com cuidado numa das poltronas macias, cobrindo-a com meu casaco velho. Beijei a testa ardente dela, sentindo um nó na garganta.
— Ellie, fica aqui quietinha, tá bom? A Em entra ali, fala com a moça e já volta. Não sai do lugar, não mexe em nada. Promete pra mim?
— Prometo… — ela murmurou, a voz fraca como um fio de vento.
Sarah me deu um aceno encorajador, e logo uma mulher apareceu: Marina. Ela devia ter uns quarenta anos, óculos elegantes e uma voz calma que transmitia autoridade. Ela me conduziu por um corredor longo e silencioso. A sala de entrevista era pequena, iluminada pela luz natural que entrava por uma parede inteira de vidro. Marina sentou-se à minha frente e abriu uma pasta.
— Então, Emma… conte um pouco sobre você. Por que quer trabalhar aqui?
Eu respirei fundo, sentindo o aperto no peito, e a verdade vindo sem filtros.
— Porque eu preciso desesperadamente. Minha irmãzinha de seis anos está doente há dias. Febre alta que não abaixa. Eu não tenho dinheiro para remédio decente, muito menos para um médico particular. Se eu não conseguir esse emprego hoje, amanhã… amanhã pode ser tarde demais. Eu faço qualquer turno, qualquer coisa. Só preciso de uma chance.
Marina me observou por um longo segundo. Não havia julgamento nos olhos dela, só uma compreensão quieta e profunda.
— A vaga é exigente, Emma. Turno da noite, limpeza pesada, sozinha na maior parte do tempo. Você tem quem cuide da sua irmã durante essas horas?
— Eu… eu arranjo. Eu sempre arranjo — menti. Era o que eu precisava dizer para sobreviver.
Houve um silêncio, e depois um sorriso leve.
— A vaga é sua. Começa segunda-feira. Vamos subir ao RH para finalizar os documentos.
O alívio veio como uma onda física. Meus olhos arderam, mas segurei as lágrimas. Não ali. Não agora.
Voltamos à recepção. Ellie ainda estava na poltrona, rabiscando devagar num papel. Sarah sorriu para mim.
— Ela foi um anjinho. Nem se mexeu.
— Muito obrigada — respondi com um sorriso genuinamente grato, sentindo o primeiro peso do dia diminuir.
Subimos de elevador até o oitavo andar. O RH era mais formal, paredes brancas demais, cheiro de café forte e papel novo. A recepcionista dali era outra história: rosto fechado, voz cortante que parecia feita para afastar as pessoas.
— Crianças não ficam soltas nos corredores — ela avisou antes mesmo de eu abrir a boca.
Eu me abaixei na frente de Ellie, segurando as mãozinhas quentes dela entre as minhas.
— Princesa, senta aqui direitinho. Preciso que faça o mesmo que fez lá embaixo com a Sarah, ok? Não sai desse lugar. Não mexe em nada, não fala com ninguém. A Em entra ali na sala, assina uns papéis e volta em dez minutos, tá bom? Promete de novo?
Ela assentiu, os olhinhos vermelhos de febre e cansaço.
— Tá bom, Em…
Entrei. Assinei papéis. Respondi mais perguntas burocráticas. Meu coração batia tão alto que eu mal escutava as palavras da funcionária do RH. Eu só pensava na poltrona do lado de fora.
Saí em menos de quinze minutos. E o corredor estava vazio.
A poltrona estava vazia. Meu casaco velho estava jogado no chão. Nenhum sinal dela.
— Cadê minha irmã? — Minha voz saiu alta demais, ecoando pelas paredes brancas.
A recepcionista ergueu os olhos do monitor, visivelmente irritada.
— Eu não sou babá. Ela se levantou e saiu andando. Não vou sair correndo atrás de criança.
O pânico me atravessou como uma faca gelada. Corri pelo corredor, o sangue pulsando nas têmporas. Perguntei a uma mulher de uniforme que varria o chão.
— Vi uma criança indo para as escadas, mas não vi se ela desceu, ou subiu para o nono andar — ela me respondeu.
Escada. Subi correndo, degraus de dois em dois, o ar queimando nos pulmões como fogo. Cheguei ao nono andar. Havia uma confusão no corredor. Pessoas paradas, olhando para o elevador, vozes abafadas criando um ruído de fundo que me deixava tonta.
— Alguém viu uma criança pequena? Seis anos, cabelo castanho claro, moletom rosa? Por favor… Uma moça balançou a cabeça, com pena.
— Não vi nada, querida…
O elevador apitou. As portas foram se abrindo devagar, numa lentidão torturante. E lá estava ela.
Marina saiu segurando a mãozinha de Ellie. Minha irmã caminhava fraca, mas segura, os olhos inchados de choro.
— Ellie! — Falei, correndo até ela e caindo de joelhos no chão.
— Ela só foi ao banheiro — Marina explicou, com aquela voz suave que me ancorava. — Encontrei ela no corredor do sétimo andar, perdida e chorando. A faxineira disse que te viu vindo pelas escadas, então trouxe ela de volta para você.
Abracei Ellie com força, sentindo os ossinhos frágeis contra meu peito, o calor da febre misturado ao meu próprio tremor de alívio.
— Desculpa, pequena… me perdoa… eu nunca mais te deixo sozinha…
Ellie passou os bracinhos em volta do meu pescoço, soluçando baixo.
— Eu tava com medo, Em… achei que você tinha ido embora…
— Nunca. Eu nunca vou embora. Prometo.
Levantei devagar, segurando a mão dela com uma firmeza possessiva. Eu só queria sair daquele prédio.
— Vamos embora agora.
Dei um passo em direção ao elevador. Então, senti.
Dois bracinhos pequenos se enrolando nas minhas pernas por trás. Um corpinho se grudando em mim com uma força desesperada, como se nunca mais fosse soltar. Eu congelei. O ar parou nos pulmões.
Virei devagar, o coração batendo na garganta. Olhos verdes enormes, cheios de lágrimas. Cabelos loiros bagunçados. O mesmo rostinho redondo que eu arranquei das chamas há dois anos.
Luca.
Ele me olhava como se tivesse esperado por esse exato segundo a vida inteira. Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto dele. Minha voz saiu em um sussurro rouco, quebrado, quase inaudível:
— Você…
Me abaixei para ficar na sua altura, e ele me abraçou com a mesma urgência daquele dia no asfalto. Estávamos ali, naquele abraço impossível, quando uma voz grave e furiosa surgiu do nada, cortando o ar.
— Quem é você? E de onde conhece meu filho?
Levantei o olhar. Ali estava um homem loiro, olhos azuis como uma tempestade, e a expressão de quem estava decidindo o que faria comigo. O corredor sumiu. O prédio inteiro sumiu. E por um segundo, o mundo parou de girar.







