Mundo ficciónIniciar sesiónElena Hart
Eu descobri três coisas sobre trabalhar na casa de Alexander Thorne. A primeira: seus três filhos tinham energia suficiente para abastecer Londres. A segunda: cada bebê tinha uma maneira completamente diferente de transformar qualquer tarefa simples em um verdadeiro desafio. E a terceira: eu estava começando a gostar deles. O que era perigoso, porque gostar daqueles bebês significava me importar com uma família da qual eu não fazia parte, e eu já sabia muito bem o que acontecia quando alguém começava a se envolver demais. Ouvi um resmungo mais alto. Virei-me a tempo de ver Oliver agitando os braços dentro do cercadinho, chutando o cobertor e tentando alcançar o brinquedo pendurado acima dele. — Calma, pequeno — pedi docemente, me aproximando. Peguei-o no colo e ele imediatamente agarrou meu dedo com a mão minúscula, fixando os olhinhos em mim. Sorri diante do gesto. — Você é muito exigente, sabia? Do outro lado da sala, Olivia começou a resmungar no mesmo instante. — Ah, não — olhei para ela. — Você também? O choramingo aumentou de tom. Suspirei e me aproximei do berço portátil, ajeitando Oliver em um braço para pegá-la com o outro. — Certo. Um de cada vez. Ela se acomodou contra meu peito, mas o silêncio durou apenas alguns segundos. Então veio outro choro estridente do canto do cômodo. Olhei para o terceiro berço. — E você também resolveu participar? Aquela era Olive. Meu pequeno trio. Três bebês, três choros diferentes e três personalidades que eu ainda estava começando a descobrir. — Vocês estão combinando isso, não estão? — perguntei a eles. Nenhum deles respondeu, obviamente. Mas Oliver soltou um pequeno som com a boca que me fez rir fraco. — Muito engraçado. Algumas horas depois, estávamos todos dentro do carro. Alexander havia decidido que eu precisava conhecer melhor a rotina dos bebês e, segundo ele, a melhor maneira de fazer isso era acompanhá-lo a uma loja infantil no centro. Eu ainda não entendia por que ele precisava ir conosco, até olhar para o rosto dele e perceber que Alexander parecia estar se perguntando a mesma coisa. — Por que estamos comprando tudo isso? — perguntou ele, observando o carrinho cheio enquanto andávamos pelos corredores. — Porque seus filhos precisam de coisas — respondi, acomodando um pacote de fraldas. — Eles têm coisas demais. — Não têm um balanço adequado — retruquei. Ele apontou para o equipamento exposto na prateleira. — Para quê? — Para os bebês. — Eles já têm berços. — E você já tem uma casa enorme — provoquei, olhando para ele. — Ainda assim, provavelmente tem mais de uma cadeira. Ele me lançou um olhar severo. — Não é a mesma coisa. — Claro que não — debochei baixinho. Continuei empurrando o carrinho. Havia fraldas, mamadeiras, mantas, brinquedos próprios para recém-nascidos, roupas pequenas demais para parecerem reais e um enorme ursinho de pelúcia que eu tinha insistido em colocar no carrinho. Alexander encarou a pelúcia com o cenho franzido. — E esse? — Decoração — dei de ombros. — Você quer esse urso — acusou-me. — Talvez. Ele suspirou, derrotado. — Quanto? Olhei a etiqueta presa à orelha do bicho. — Setenta libras. Alexander pegou o urso com certo desdém e o ajeitou no carrinho. — Coloque. Arregalei os olhos, surpresa. — Você vai comprar? — Você não vai parar de olhar para ele até eu comprar. — Isso foi quase gentil. — Não se acostume — avisou ele, mantendo o tom sério. Sorri de canto. Talvez ele não fosse tão impossível quanto parecia. Estávamos passar pela seção de acessórios para bebês quando uma mulher se aproximou. Elegante, simpática e completamente à vontade, ela sorriu para nós. — Precisa de ajuda? — perguntou. Alexander abriu a boca, provavelmente para dispensá-la, mas fui mais rápida: — Na verdade, sim. Conversamos por alguns minutos. Ela se chamava Noire, descobrimos que tínhamos interesses em comum, trocamos contatos e, quando ela finalmente se afastou, percebi que Alexander estava me encarando com o cenho franzido. — O quê? — perguntei. — Nada. — Você está olhando. — Estou tentando entender como você consegue conversar com desconhecidos com tanta facilidade. — Você deveria tentar algum dia — provoquei, ajustando a bolsa no ombro. — Não tenho interesse. — Eu percebi — avancei um passo, mas sorri. — Ela pareceu legal. — Você acabou de conhecê-la. — E? — Nada. Olhei para ele de lado. — Está com ciúmes? Alexander parou o passo e me encarou. — Não. — Nem um pouquinho? — Definitivamente não. — Certo — murmurei. Voltei a empurrar o carrinho, mas o pequeno sorriso no canto da minha boca demorou a desaparecer. A parte mais difícil daquela tarde aconteceu minutos depois. Os três bebês estavam ficando inquietos no carrinho duplo e no bebê conforto. Oliver começou a chorar de repente; Olivia acompanhou em seguida e, como se fosse uma regra secreta entre irmãos, Olive decidiu completar o coro. — Meu Deus — suspirei, ajeitando as coisas. Peguei Oliver no colo, ninando-o. — Calma, meu amor. Alexander rapidamente se aproximou de Olivia, pegando-a com uma habilidade desajeitada para tentar acalmá-la, mas o choro de Olive aumentou no carrinho. — Eles estão com fome? — perguntou ele, visivelmente perdido. — Provavelmente. Enquanto tentávamos organizar os três, uma mulher que passava pelo corredor comentou: — Trigêmeos? Olhei para ela, segurando o bebê. — Sim. Ela sorriu com ternura. — Deus abençoe vocês. — Estamos precisando — murmurei, exausta. Alexander soltou uma risada baixa, surpreendendo-me. Foi quando percebi que, apesar do caos, havia algo quase engraçado naquela situação: nós dois, no meio de uma loja, cada um segurando um bebê enquanto o terceiro chorava no carrinho. Uma família improvisada. Por um instante, aquela palavra parecia perigosa demais. Família. No caminho de volta, o silêncio dominou o carro. Os três finalmente tinham dormido após o mamar. Oliver estava acomodado na cadeirinha, Olivia dormia profundamente e Olive segurava o pequeno brinquedo que Alexander tinha comprado para ela. Eu os observava em silêncio pela janela reflexiva. Era estranho pensar que, cinco meses atrás, eu corria pelas ruas tentando escapar da minha antiga vida e agora estava sentada ao lado daquele homem, cuidando dos filhos dele como se aquilo fosse normal. Nada na minha vida parecia normal, e talvez fosse justamente por isso que eu estivesse começando a gostar dela. Quando chegamos, Alexander levou Olivia para dentro com cuidado, enquanto eu peguei Oliver. Ele parou perto da porta de entrada, esperando-me passar. — Você está se saindo bem — comentou ele, baixo. Olhei para ele, surpresa. — Isso foi um elogio? — Não se acostume — desviou o olhar. Sorri. — Eles parecem felizes. Alexander olhou para os três nos meus braços e na cadeirinha. — Eu não sei fazer isso. — O quê? Ele demorou alguns segundos para responder, parecendo vulnerável: — Ser pai. A sinceridade daquela frase me pegou de surpresa. Aquele homem parecia capaz de comandar impérios, mas estava diante de mim admitindo que não sabia cuidar dos próprios filhos. — Você está tentando — pontuei com gentileza. — Não parece suficiente. — Talvez não seja. Ele levantou os olhos, encarando-me sob as sobrancelhas franzidas. — Isso deveria me fazer sentir melhor? Sorri levemente. — Não. Pela primeira vez, Alexander riu de verdade, um som baixo e rouco. Meu coração deu um salto no peito e eu odiei o quanto gostei de ouvir aquilo. Mais tarde, depois de colocar os três bebês para dormir, fui à cozinha beber água e encontrei Alexander ali sozinho, segurando uma taça de vinho. — Ainda acordado? — perguntei, aproximando-me. — Poderia perguntar o mesmo — ele ergueu a taça em um aceno. — Dia difícil. — Bastante — caminhei até a bancada. — Eles vão ficar bem. — Como sabe? — Porque têm alguém tentando fazer com que fiquem. Ele me encarou fixamente. — Você fala como se soubesse exatamente o que eles precisam. Baixei os olhos para minhas mãos sobre o mármore. — Talvez eu saiba. Alexander esperou em silêncio. Não pressionou e não fez perguntas, como se percebesse que havia coisas que eu ainda não estava pronta para revelar. — Obrigado — disse ele novamente. — Você já agradeceu. — Eu sei — ele deu um passo na minha direção e fiquei imóvel. — Só queria que você soubesse que realmente agradeço. Por algum motivo,quelas palavras soaram mais íntimas do que deveriam. — Boa noite, Alexander — murmurei, passando por ele antes que meu coração me fizesse cometer alguma bobagem. — Boa noite, Elena. Cheguei ao corredor e parei por um segundo. Não olhei para trás, mas um sorriso inevitável surgiu em meus lábios, e aquilo me assustou mais do que qualquer coisa.






