Mundo de ficçãoIniciar sessãoAmetista Davis
Voltei para a ala das secretárias com os joelhos ainda trêmulos e o perfume amadeirado de Jay Franklin impregnado na minha pele. Eu não tinha o direito de voltar para a reunião, e a verdade era que eu sequer sabia se ainda possuía um emprego para chamar de meu. Mas o ócio e a ansiedade eram uma combinação perigosa, então decidi me manter ocupada para não enlouquecer. Aproximei-me da outra secretária do setor, que digitava freneticamente, e perguntei se havia alguma tarefa pendente. Ela me olhou com uma ponta de pena, mas indicou uma pilha de relatórios desorganizados e algumas demandas simples de arquivamento. Mergulhei naquele trabalho burocrático como quem se agarra a uma tábua de salvação, tentando anestesiar minha mente e afastar o eco daquele gemido humilhante na sala do conselho. Os minutos se arrastavam como horas. Meu peito oscilava violentamente entre a esperança e o medo mais puro. Esperança porque as palavras de Jay no banheiro haviam sido firmes, quase possessivas, garantindo que ele conversaria com o pai e daria um jeito na minha situação. Medo porque o senhor Albert Franklin parecia o tipo de homem que não aceitava justificativas, um patriarca implacável que esmagaria qualquer um que ameaçasse o decoro da sua empresa multimilionária. Quanto mais eu racionalizava, mais o pânico apertava o meu estômago. Cerca de duas horas depois, o som pesado da porta da sala de reuniões se abrindo fez meu coração disparar contra as costelas. Ergui os olhos imediatamente, varrendo o corredor em busca daqueles olhos azuis cortantes. Mas os primeiros a sair não traziam boas notícias. Gary Franklin caminhava na liderança do grupo. Vendo-o agora com mais atenção, sua postura exalava uma elegância coreografada, mas profundamente falsa; havia uma frieza cirúrgica por trás de seu sorriso de fachada que me causou um arrepio imediato na espinha. Antes que eu pudesse esboçar qualquer movimento, a senhora Cameron se plantou diante da minha mesa, cruzando os braços. — O que você ainda está fazendo aqui? — disparou ela, o tom de voz pingando desdém. Pisquei, engolindo a seco diante daquela hostilidade gratuita. — O senhor Jay pediu que eu aguardasse aqui no setor. Cameron abriu a boca para retrucar, mas Gary Franklin desviou de seu caminho e se aproximou da minha mesa, invadindo meu espaço pessoal com uma autoridade gélida. — O Jay não manda em nada por aqui, senhorita Davis — a voz dele era mansa, pausada, o que a tornava ainda mais ameaçadora. — O presidente da empresa exigiu sua saída imediata. Então, sugiro que obedeça antes que a situação piore. — O senhor Jay me garantiu que resolveria o mal-entendido... — tentei argumentar, segurando a alça da minha bolsa com as mãos suadas. Gary inclinou-se ligeiramente para a frente, o olhar endurecendo como pedra. — E eu estou dizendo que você está demitida e deve ir embora. Agora. Ou você prefere que eu chame a segurança para arrastá-la até a Sunset Boulevard? Um nó doloroso se formou na minha garganta. Senti o calor da humilhação subir pelo meu pescoço, sem entender por que aquele homem me tratava com tanto sadismo. Eu era apenas uma engrenagem insignificante, uma recém-contratada que não representava perigo para ninguém ali dentro. — Tudo bem — murmurei, a voz quase sumindo. — Desculpe. Levantei-me, recolhendo meus pertences com as mãos trêmulas. Caminhei pelo corredor de madeira escura sentindo o peso de dezenas de olhares me julgando. Olhei para trás uma, duas vezes, esperando ingenuamente que a silhueta imponente de Jay Franklin surgisse da sala da presidência para interromper aquele pesadelo. Talvez ele estivesse travando uma batalha nos bastidores por mim. Talvez ele estivesse preso em uma discussão crucial com o pai. Ou talvez... ele tivesse mudado de ideia. A possibilidade me atingiu no peito como um soco físico. E se ele estivesse apenas jogando? Um bilionário entediado que decidiu usar o controle remoto e depois me dar falsas esperanças no banheiro só para se livrar de uma cena histérica? O cinismo de Los Angeles estava me engolindo viva. Entrei no elevador e encarei o espelho enquanto as portas se fechavam. Uma tristeza esmagadora desabou sobre mim. Eu havia encontrado o emprego que mudaria a minha vida e o havia perdido antes mesmo do meio-dia. Quando abri a porta do meu pequeno apartamento, o silêncio me acolheu. April havia dito que passaria no mercado após o trabalho, então a casa estava vazia. Tirei o blazer corporativo, joguei-me sob a água quente do chuveiro em um banho demorado e vesti a maior camiseta de algodão que encontrei no armário. Sem forças para mais nada, desabei no sofá, resgatei um pote de sorvete de chocolate do congelador e comecei a comer direto da embalagem, deixando as lágrimas finalmente rolarem. A realidade na Califórnia era cruel. Sem aquele salário, meus planos de independência desmoronavam. Eu teria que ligar para a minha mãe, arrumar as malas e voltar para o interior, derrotada. Eu não tinha mais o emprego na hamburgueria e agora a Maçã Vermelha havia cuspido meu currículo de volta. Algum tempo depois, o som da chave girando na fechadura quebrou o meu transe. April entrou carregando duas sacolas ecológicas, tagarelando sobre o trânsito e os testes de elenco como fazia todos os dias. Ela só interrompeu o monólogo quando deixou as compras na bancada da cozinha e me viu encolhida no sofá, com os olhos vermelhos e o pote de sorvete no colo. — O que você está fazendo em casa uma hora dessas, Ametista? Olhei para ela por cima da colher. — Fui demitida no meu primeiro dia de trabalho. Por causa da sua maldita calcinha. April franziu a testa, deixando os braços caírem ao lado do corpo. — Como assim? Eles acharam que você tinha roubado a lingerie? Porque eu tenho a porcaria da nota fiscal de fábrica! — Não, April. Ninguém achou que eu roubei nada. — Então o que aconteceu, pelo amor de Deus? Respirei fundo, deixando a colher de lado. — Você me obrigou a usar aquela armadilha e enfiou o controle na minha mão. Eu estava atrasada, minha meia-calça rasgou no ônibus e, quando fui arrancá-la no corredor do nono andar, minha bolsa caiu. Eu juntei tudo correndo no meio do pânico e não percebi que o controle remoto tinha ficado para trás, caído perto do rodapé. April levou as duas mãos à boca, os olhos castanhos se arregalando. — Não... — Sim. — Não me diga que alguém achou? — Achou. — Quem, Ametista? — O filho do dono do império. Um suspiro dramático escapou de April. — Jay Franklin? — Ele mesmo. April soltou um assobio longo entre os dentes. — E ele ligou o brinquedo? Aquele safado... Bom, a reputação dele em LA como um cafajeste de marca maior não é segredo para ninguém. Mas como ele deduziu que a calcinha estava em você? — ela começou a teorizar sozinha, gesticulando no ar antes mesmo de me deixar concluir. Revirei os olhos, a frustração atingindo o limite. — Isso não é o mais relevante agora, April! — Ah, é um pouco relevante, sim. Aquele homem é um Deus grego esculpido pelo pecado. — April! Ela ergueu as mãos em sinal de rendição, sentando-se na ponta do sofá. — Tá bom, tá bom! Continua. — Ele achou o controle e decidiu que seria incrivelmente divertido brincar com as intensidades durante uma reunião estratégica com o comitê de diretores. A expressão descontraída de April desmoronou instantaneamente. Ela me encarou com choque real. — Você está brincando... No meio da reunião? Na frente de todo mundo? Que completo cretino! — Eu gostaria muito que fosse uma piada. Contei cada detalhe sórdido. O constrangimento, o gemido involuntário que ecoou pela sala acústica, os olhares de nojo da secretária Cameron, a fúria fria do senhor Albert e a humilhação de ser expulsa como um estorvo. Quando terminei, o silêncio no apartamento era denso. — E depois? — April perguntou, a voz mansa. — Depois ele foi atrás de mim. Entrou no banheiro feminino. — O quê? Ele te tocou? — Não, não aconteceu nada desse tipo. Ele me encurralou contra a pia, usou aquele charme barato de herdeiro e jurou que consertaria tudo. Disse que eu não seria demitida porque ele conversaria com o pai dele. E veja bem onde eu estou agora... no nosso sofá, desempregada. Afundei minhas costas nas almofadas, sentindo o gosto amargo da decepção. — Ele mentiu na minha cara. O Gary Franklin me botou para fora daquele andar ameaçando chamar a segurança e o Jay nem sequer apareceu para me defender. Ele deve ter prometido aquela ajuda só para se livrar de mim e não causar um escândalo maior. Balancei a cabeça, limpando uma lágrima teimosa que insistia em cair. — Deixa para lá. Aquela empresa inteira é bizarra. As pessoas são cruéis. E se não fosse por isso, eles achariam outro motivo para me mandar embora de qualquer forma... De repente, uma vibração forte cortou o meu desabafo. Meu celular, jogado sobre a mesa de centro, começou a piscar na tela escura. Aproximei o corpo e olhei o visor. O número trazia a identificação do tronco de linhas diretas da sede da Maçã Vermelha. Era o Departamento de Recursos Humanos.






