Mundo de ficçãoIniciar sessãoJay Franklin
É simplesmente insuportável quando meu pai cisma que eu ainda sou um moleque irresponsável. Eu estava no auge dos meus 28 anos, administrava uma parte gigantesca dos negócios internacionais da Maçã Vermelha e entendia de posicionamento de mercado e desejo do consumidor muito mais do que ele jamais seria capaz de conceber. A grande diferença entre nós era sutil, mas crucial: eu não acreditava que viver significava passar quatorze horas por dia trancado atrás de uma mesa de mogno, afogado em planilhas e relatórios enfadonhos. Eu gostava de aproveitar a vida. Gostava de viajar de jatinho, de festas exclusivas, de conhecer mulheres interessantes e, acima de tudo, de fazer rios de dinheiro sem transformar o mundo corporativo na minha religião. Para o senhor Albert Franklin, entretanto, qualquer minuto que não envolvesse trabalho duro e sofrimento era uma perda de tempo imperdoável. Depois de quase uma hora trancado na sala dele, engolindo sermão atrás de sermão com um autocontrole que eu nem sabia que possuía, finalmente consegui o que queria: ele concordou em dar uma segunda chance para a garota da reunião. É claro que omiti os detalhes mais sórdidos da história. Algumas informações funcionam muito melhor se permanecerem enterradas para sempre no fundo do meu cérebro. Eu não seria idiota de contar ao patriarca puritano que a gostosinha com cara de nerd, que se escondia atrás de um terninho comportado de moça da igreja, na verdade guardava um segredo deliciosamente perverso entre as pernas. O que importava era que ele aceitara reconsiderar a demissão. Assim que consegui me livrar daquela conversa sufocante, saí da sala da presidência decidido a encontrar a maluca da calcinha vibratória para avisar que o emprego dela estava garantido. Só havia um pequeno e estúpido problema: eu não fazia a menor ideia de qual era o nome dela. Comecei a caminhar pelo andar executivo, perguntando de forma sutil e descompromissada sobre a funcionária nova que havia passado mal durante a apresentação do comitê. A burocracia daquele lugar me irritava; algumas pessoas fingiam não saber de nada, outras realmente não sabiam, e algumas simplesmente me lançavam olhares tortos, provavelmente tentando decifrar o motivo do interesse repentino do herdeiro da empresa em uma assistente novata. Foi então que uma das supervisoras me informou que três secretárias haviam sido contratadas naquela manhã. Quando exigi os registros de movimentação, veio o soco no estômago: apenas duas continuavam no prédio. A terceira já havia sido dispensada e escoltada para fora. Meu sangue ferveu de irritação. O estômago revirou instantaneamente. Eu já imaginava exatamente quem estava por trás daquilo. Sem perder tempo, marchei a passos largos até a mesa de Cameron. — A moça que pediu para sair da reunião... Onde ela está? — disparei, sem rodeios. Cameron ergueu os olhos do monitor, ajeitando a postura com aquela empáfia de sempre. — Foi embora, Jay. — Como assim foi embora? — estreitei os olhos, a voz descendo um tom. — Eu dei uma ordem direta para ela aguardar no setor. — Eu até fui falar com ela para entender por que ainda estava ocupando o espaço, e ela me garantiu que esperava uma decisão sua. Eu estava disposta a deixá-la mofando ali, mas o senhor Gary apareceu e mandou que ela pegasse as coisas dela e saísse imediatamente. Fiquei alguns segundos parado, apenas encarando a expressão cínica de Cameron enquanto assimilava a informação. — O Gary mandou? — Sim. Ele mesmo. Sem responder mais nenhuma palavra, virei as costas e saí dali. Meus sapatos ecoavam com violência contra o piso. Cruzei o corredor do nono andar e empurrei as portas de vidro duplo da vice-presidência financeira, invadindo a sala sem me dar ao trabalho de bater. Gary estava exatamente onde eu sabia que estaria. Sentado de forma impecável atrás de uma mesa cirurgicamente organizada, cercado por planilhas de custos, relatórios de auditoria e gráficos de barras. Toda aquela burocracia estéril que me causava um tédio quase físico. — Por que diabos você mandou a moça embora? — joguei as palavras no ar, parando bem na frente da mesa dele. Gary ergueu os olhos com uma calmaria que testava os limites da minha sanidade. Ele ajeitou os óculos de leitura com um toque minimalista. — Boa tarde para você também, Jay. — Não muda de assunto, Gary. Quero saber da secretária nova. Agora. Ele fechou uma pasta de couro com uma tranquilidade milimetricamente calculada para me irritar. — Eu a mandei embora porque o senhor Albert Franklin ordenou. Simples assim. — E eu pedi para ela esperar! — apoiei as duas mãos na borda da mesa dele, inclinando meu corpo para a frente. — E eu segui a ordem do homem que realmente manda nesta empresa. O presidente. — Gary cruzou os braços, recostando-se na cadeira de couro com um sorriso de superioridade que fazia meus punhos coçarem. — Eu também sou parte desta empresa, Gary. Caso você tenha esquecido o meu sobrenome. — Não, você não é a empresa, Jay. Você é apenas o filho do dono. Aquilo arrancou uma risada seca, totalmente sem humor, da minha garganta. O deboche dele era quase palpável. — Cuidado com a boca, Gary. Você está pisando em terreno perigoso. — Estou apenas constatando a realidade dos fatos. — Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa, entrelaçando os dedos e me encarando com uma frieza cirúrgica. — Seu pai continua muito bem vivo. E, considerando a saúde de ferro que aquele velho tem, ele continuará no comando por muitos e muitos anos. Você ainda é só um subordinado aqui dentro. Aquele desgraçado sabia exatamente onde golpear para me provocar. Ele queria me ver perder o controle, queria que eu fizesse uma cena para correr até o meu pai e provar que eu era imaturo. Dei mais um passo à frente, sentindo a adrenalina pulsar nas minhas veias. A minha vontade real era saltar por cima daquela mesa de vidro e quebrar a cara dele com um soco bem dado, desfigurando aquele sorriso cínico. Mas eu precisava ser mais inteligente. — Eu vou trazer a moça de volta — afirmei, a voz baixa, fria e absolutamente determinada. — Faça o que bem entender — ele deu de ombros, fingindo desdém. — E você nunca mais vai ousar se meter em uma decisão minha. Está me ouvindo? Gary sustentou o meu olhar, os olhos escuros opacos, sem demonstrar o menor sinal de intimidação ou medo. — Quando você finalmente tiver a autoridade real para dar ordens neste império, Jay... aí sim eu pensarei no assunto. Até lá, você é só o herdeiro mimado. Aquilo foi o limite. Girei nos calcanhares e saí daquela sala antes que a discussão terminasse em agressão física. Se havia uma coisa em Los Angeles que eu odiava mais do que reuniões de acionistas, era ter que olhar para a cara de Gary Franklin. Cruzei o corredor em direção ao meu escritório já puxando o celular do bolso do paletó. Disquei o ramal direto da diretoria de Recursos Humanos com força. No segundo toque, a supervisora atendeu. — Sim, senhor Jay? Em que posso ajudar? — Preciso de um favor imediato — ordenei, a voz ainda carregada com a raiva da discussão anterior. — A secretária que foi contratada hoje pela manhã e dispensada agora à tarde... Quero que entrem em contato com ela imediatamente. Houve uma rápida consulta ao sistema do outro lado da linha, seguida pelo som de teclas sendo pressionadas. — A senhorita Ametista Davis? Sorri pela primeira vez desde que colocara os pés naquele prédio. O nome ecoou na minha mente de um jeito estranho, quase possessivo. Ametista. Uma pedra preciosa e intocada. — Isso. Ametista Davis. Esse é o nome dela. — E o que devemos informar à candidata, senhor? — Digam para ela se apresentar amanhã de manhã, no horário normal de expediente. O emprego continua sendo dela. E o contrato já está assinado. — Perfeito, senhor Jay. Faremos o contato agora mesmo. Desliguei o celular e o joguei sobre a minha mesa de vidro. Eu nem sequer sabia se ela era uma boa funcionária, se sabia organizar um arquivo ou se seria um desastre administrativo. Mas depois do que Gary fizera, e depois do calor daquele gemido no meio da reunião, trazê-la de volta para a Maçã Vermelha havia deixado de ser apenas um capricho. Agora, era uma questão de honra pessoal. E eu jogava para vencer.






