5 - O Último Suspiro na Cidade

ISADORA VILLANOVA

Através da janela do táxi, observei os muros da Mansão Lancaster desaparecerem na neblina de San Vesper. Encostei a cabeça no banco, fechando os olhos enquanto um suspiro dolorido escapava dos meus lábios.

Acabou.

Antes de sair daquela casa definitivamente, eu havia voltado ao quarto apenas para deixar a minha aliança e redigir a cláusula 14 do contrato, ela me daria dois milhões de dólares pelo divórcio, mas sei que meus pais não me dariam paz se levasse esse dinheiro. Então, escrevi que não queria nada.

Vicente salvou a minha família da falência oito anos atrás. Mas agora, a conta estava paga. Paguei com três anos da minha juventude, com devoção e humilhações diárias. E, literalmente, paguei com a minha própria vida. Eu não devia mais nada a ninguém.

Peguei o celular na bolsa e disquei o número do médico que havia me dado a sentença de morte mais cedo.

— Aqui é o Dr. Arthur, boa noite.

— Sou eu, doutor — minha voz saiu fraca, arranhando a garganta. — Desculpe ligar a essa hora da noite.

— Não se preocupe com isso. Como você está? Conseguiu conversar com o seu marido?

Uma risada triste, que logo se transformou em um chiado no meu peito, escapou de mim.

— Não tenho mais marido, Dr. Arthur. O meu casamento acabou hoje.

— Meu Deus, minha querida. Seu marido foi egoísta a ponto de te abandonar nesse momento?

— Ele nem chegou a ouvir o diagnóstico, doutor. Ele chegou com os papéis do divórcio prontos e me expulsou de casa.

— Isadora, isso é um absurdo! — A indignação vazava pela voz do médico. — Você está em estado terminal. Onde você está? Vou mandar uma ambulância particular te buscar imediatamente!

— Não! Não precisa, por favor — implorei. — Eu estou dentro de um táxi, indo direto para a rodoviária. Liguei porque tomei a minha decisão e gostaria do seu encaminhamento para a clínica paliativa parceira do senhor.

— Tem certeza, Isadora? A clínica no Vale dos Cedros é no interior do estado, muito longe de toda a estrutura de San Vesper.

— É exatamente o que preciso. Quero passar os meus últimos meses em paz, respirando ar puro, longe dessa cidade. O senhor pode avisar que estou a caminho?

— Sim, claro que sim. Henrique Valadares é o médico responsável por lá e um grande amigo que vai cuidar muito bem de você. Mas a viagem de ônibus demora horas. Você tem certeza de que aguenta a viagem? O seu corpo já sofreu muito hoje.

— Eu vou aguentar, doutor. Só preciso sair daqui. Obrigada por tudo.

Desliguei o telefone antes que ele pudesse insistir em me buscar. Guardei o aparelho na bolsa, sentindo uma dor repentina no lado direito do peito. Era como se cacos de vidro estivessem rasgando os meus pulmões.

O estresse com Vicente e a dor de ver minha irmã o beijando finalmente cobraram o preço.

Levei a mão à boca quando a primeira tosse veio. Puxei o lenço de tecido do bolso rapidamente para abafar o som. Mas a segunda tosse foi tão violenta que meu corpo inteiro foi jogado para a frente.

— Moça? Tudo bem aí atrás? — o motorista do táxi perguntou, me olhando pelo retrovisor.

Tentei responder que sim, mas não consegui puxar ar para os pulmões.

Quando afastei o lenço do rosto, não era apenas uma mancha discreta. O sangue escuro e espesso ensopou o tecido em segundos, transbordou pelos meus dedos e pingou no meu vestido. As gotas vermelhas começaram a cair sem controle.

O motorista pisou no freio instintivamente.

— Meu Deus do céu! Isso é sangue?! Moça, você está vomitando sangue no meu carro!

— Por... favor... — ofeguei, sentindo o gosto forte de ferrugem escorrer pelo meu queixo. — Apenas... siga para a rodoviária...

— Rodoviária coisa nenhuma! Ficou maluca?! — Ele girou o volante com brutalidade. — Você está morrendo! Olha o tanto de sangue!

— Eu te pago o triplo! Me leve para o ônibus...

— Dinheiro nenhum vale um defunto no meu carro, senhora! Aguenta firme, o hospital tá logo ali na frente!

Minha visão começou a embaçar severamente. Se eu fosse internada em San Vesper, a notícia certamente correria. Isso não pode ser descoberto, nem por Vicente, nem pela minha família.

— Por favor... para o hospital não...

A última coisa que meus olhos registraram foram as luzes vermelhas da emergência. O táxi entrou na rampa, e os faróis iluminaram a enorme placa prateada na fachada: Hospital Central de San Vesper — Financiado pelo Grupo Lancaster.

Ouvi o motorista gritando desesperadamente por socorro, antes do meu mundo mergulhar na escuridão.

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