A chuva castigava o telhado do galpão abandonado nos arredores de Milão.
Lá dentro, dezenas de homens armados aguardavam em silêncio. O ar cheirava a pólvora, ferrugem e tensão. Entre as sombras, Robert Moretti observava a entrada do galpão com a frieza de um homem acostumado a vencer guerras.
Naquela noite, ele roubariam uma carga milionária pertencente a Lorenzo Vitale, um dos homens mais poderosos da máfia italiana.
Se o plano desse certo, os Moretti dominariam novas rotas e Lorenzo sofreria a maior humilhação de sua vida.
Ao lado de Robert estava o homem em quem ele mais confiava.
Matteo Contreras.
Seu braço direito.
Seu amigo.
Quase um irmão.
Matteo verificava a arma com tranquilidade.
— Tudo está pronto — disse ele.
Robert limpou o rosto com a arma em punho.
— O motorista é o mesmo?
— Sim.
— Os homens de Vitale?
— Seis. Não mais que isso.
Robert assentiu, mas algo o incomodava.
Um pressentimento.
Uma sensação estranha, pesada.
Seu pai, Enrico Moretti, aproximou-se segurando uma espingarda.
Mesmo aos sessenta anos, Enrico ainda carregava a presença de um Don. isso orgulhava o filho e o fazia pensar que gostaria de chegar à sua idade nessa disposição.
— Você está inquieto — disse o pai.
Robert soltou um breve sorriso.
— Aprendi com você que o homem que ignora os próprios instintos acaba dentro de um caixão.
Enrico bateu em seu ombro.
— Então confie em seus homens.
Robert olhou para Matteo.
Por um instante, uma frase antiga ecoou em sua mente:
Nunca confie completamente em ninguém.
O som de um motor interrompeu seus pensamentos.
O caminhão havia chegado.
Todos assumiram suas posições.
O veículo entrou lentamente no galpão e parou no centro.
Silêncio.
As portas traseiras se abriram.
Homens armados começaram a descer.
Robert franziu a testa.
Não eram os homens esperados.
Seu olhar correu para a cabine.
O motorista também era outro.
O sangue gelou em suas veias.
Lentamente, Robert virou o rosto.
Matteo o observava.
E sorria.
Um sorriso frio.
Um sorriso de traição.
Robert apertou a arma.
— Matteo...
O homem ergueu a pistola.
— Acabou, Robert.
O primeiro tiro ecoou pelo galpão.
A guerra começou.
Disparos explodiram por toda parte. Homens caíram. Gritos preencheram o ar. Madeira foi destruída por balas.
Robert se jogou atrás de caixas e atirou contra os invasores.
Enrico disparava ao seu lado.
— É uma emboscada! — alguém gritou.
Robert procurou Matteo entre a fumaça.
Ele estava no centro do galpão.
Calmo.
Como se tivesse esperado por aquele momento durante anos.
Robert saiu da cobertura, a arma apontada.
— Por quê?
Matteo inclinou a cabeça.
— Porque cansei de viver à sua sombra.
— Eu te dei tudo!
— Não. Você me deu migalhas enquanto se sentava no trono.
Robert sentiu o ódio crescer dentro do peito.
— Então foi você.
Eles discutiriam em meio aos tiros.
— Fui eu quem abriu as portas para Lorenzo Vitale.
O silêncio durou apenas um segundo.
Um segundo suficiente para destruir dez anos de confiança.
Robert olhou para aquele homem e percebeu que nunca o conhecera de verdade.
— Você vendeu sua honra.
Matteo deu um passo à frente.
— Honra não compra poder.
Robert levantou a arma.
— E a traição compra um túmulo.
Os dois atiraram ao mesmo tempo.
Robert sentiu a bala atingir seu abdômen.
A dor o fez cambalear.
Matteo foi atingido de raspão no ombro.
Enrico correu imediatamente para o filho.
— Robert!
O mundo girava.
O sangue escorria por sua camisa.
Enrico o segurou pelos ombros.
— Olhe para mim! Você não vai morrer!
Robert tentou responder.
Então viu Matteo se aproximando.
Arma em punho.
Olhos frios.
Enrico levantou a espingarda.
Foi tarde demais.
O tiro atingiu o peito de Enrico.
Robert arregalou os olhos.
— PAI!
Enrico caiu de joelhos.
Outro disparo.
Mesmo com dor Robert esqueceu por um momento do tiro disparado e tentou se juntar ao seu pai.
O velho Don cambaleou.
Robert tentou alcançá-lo, mas a dor o derrubou.
Enrico caiu no chão.
Robert rastejou até ele.
— Pai... pai, olha para mim.
Enrico respirava com dificuldade.
Sangue escorria pelo canto de sua boca.
Matteo parou diante deles.
Robert ergueu o olhar.
Havia fúria, dor e incredulidade em seus olhos.
— Não faça isso. rugiu entre os dentes, sua arma havia caído ao tiro disparado. mesmo que ele fosse um homem calculista não havia estratégias a fazer naquela hora.
Matteo apontou a arma para Enrico.
— Hoje os Moretti terminam.
Robert apertou o braço do pai.
— Matteo, eu juro... se tocar nele...
Matteo não permitiu que terminasse.
O corpo de Enrico estremeceu.
Robert gritou.
Outro tiro.
Mais um.
O galpão mergulhou no silêncio.
Enrico Moretti ficou imóvel.
Robert o segurou nos braços, sem conseguir acreditar.
O homem que construíra o império Moretti estava morto.
Enrico abriu os olhos pela última vez.
— Nunca... abaixe a cabeça...
E então partiu.
Robert permaneceu imóvel.
A chuva continuava caindo do lado de fora.
O sangue do pai escorria por suas mãos.
Matteo deu as costas e começou a caminhar para a saída. o mais estranho que poderia acontecer era ele não ter terminado o serviço e acabado com o seu ex-amigo. a sensação de impotencia se fez presente em Robert principalmente o fato da maioria dos seus capangas estarem caídos ao chão.
Robert ergueu os olhos.
Havia algo diferente neles agora.
Algo escuro.
Algo perigoso.
Segurando o corpo do pai contra o peito, ele falou em voz baixa:
— Ouça bem, Matteo.
Sua voz tremia de dor.
Mas também de ódio.
— Você tirou meu pai. Você destruiu minha família, me transformou em algo que nem eu conheço.
Robert beijou a testa de Enrico e fechou os olhos do pai.
Quando tornou a abri-los, já não havia tristeza.
Havia guerra.
— Eu vou encontrar você.
A chuva batia no metal do galpão como tambores de funeral.
— E quando esse dia chegar...
Robert apertou o corpo do pai nos braços.
— Você vai implorar pela morte.
E pela primeira vez naquela noite...
Robert Moretti não parecia um homem.
Parecia uma promessa de vingança.
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