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Capítulo 2 - Um Café, Trinta Laudas e Muito Orgulho

Mais tarde, Darían conversava com Eduardo e alguns funcionários na área do café.

Caminhei até eles.

— Bom dia!

— Bom dia, Leonor! — respondeu Darían com um sorriso.

Olhei para todos e, com um tom calmo, falei:

— Já que ontem ouvi que mulheres nasceram para servir café... pensei em fazer diferente hoje.

Os homens se entreolharam, sem entender.

Sorri discretamente.

— Que tal vocês prepararem o café para nós? Afinal, servir uma xícara não diminui a competência nem a masculinidade de ninguém.

O silêncio tomou conta do ambiente.

Eduardo abaixou a cabeça, percebendo a indireta.

Naomi se aproximou de mim e sussurrou:

— Amiga... o que é isso? Eles são os chefes.

Darían finalmente compreendeu o que eu queria dizer desde o dia anterior. O problema nunca foi o café. O problema foi o desrespeito e a forma como aquele investidor tratou as mulheres da empresa.

Sem hesitar, ele pegou a garrafa térmica.

— Tem razão.

Serviu uma xícara para para mim outra para Abigail e outra para Naomi.

Depois olhou para todos os funcionários.

— Nesta empresa ninguém está acima de ninguém. Quem desrespeitar qualquer colaborador, seja homem ou mulher, não volta a fazer negócios conosco.

Sorri pela primeira vez desde o ocorrido.

Talvez Darían não tivesse entendido  a minha dor no primeiro momento. Mas agora ele finalmente enxergava o que realmente havia acontecido.

Darían fechou a expressão. Revirou os olhos e falou firme:

— Leonor. Na minha sala. Agora.

Antes que eu respondesse, ele segurou meu braço e me conduziu até a sala.

Assim que a porta fechou, puxei meu braço de volta.

— Não precisava me puxar desse jeito. Você está se contradizendo, não acha??!!!

Ele respirou fundo.

— E você não precisava descontar a sua raiva em mim e no Eduardo.

Cruzei os braços.

— Ah, então agora quem está com o orgulho ferido é você?

Ele sorriu de lado.

— Talvez.

Abriu uma pasta sobre a mesa e a empurrou na minha direção.

— Tenho uma solução para ocupar essa sua energia.

Olhei desconfiada.

— Como você ainda é funcionária da Titanium, quero um relatório completo do projeto. Trinta laudas, com todos os desenhos técnicos e justificativas arquitetônicas.

Quase deixei a pasta cair.

— Trinta laudas?

— Sim.

— Você está falando sério?

— Completamente.

— Para quando?

Ele respondeu sem demonstrar qualquer pena.

— Hoje à noite.

Abri a boca, indignada.

— Você só pode estar brincando!

— Não estou. Acho que você precisa ocupar essa mente com trabalho.

Apontei o dedo para ele.

— Ah, seu orgulhoso... você ainda me paga por isso.

Ele deu um leve sorriso, daqueles que só me irritavam mais.

— Então é melhor começar logo. Se quiser sair cedo, trabalhe. Caso contrário, leve o relatório para casa.

Revirei os olhos.

— Você sabe muito bem que eu ainda tenho outro trabalho pela manhã.

— Tudo bem, você venceu por enquanto que eu não mudei de ideia.

— Ah, Leonor. Fico feliz em saber...

Ele falou no tom de ironia. Mas tudo bem. Se eu mudar de ideia, não farei esse relatório e coloco um ponto final. Saí da sala pensativa.

"Que homem mais orgulhoso..." nem parece que nos conhecemos a tantos anos.

Enquanto organizava os papéis sobre a mesa, não consegui evitar aquele pensamento.

Nem parecia o mesmo garoto que conheci na infância. O menino doce, sorridente e magrinho havia dado lugar a um CEO sério, exigente e, às vezes, insuportável.

Será que o melhor não seria pedir demissão de uma vez?

— Ei, Leonor! — Abigail chamou minha atenção. — Vamos combinar um jantar entre amigas no sábado? Você vai?

Sorri.

— Vou, sim. Estou precisando sair um pouco.

Naomi logo deu outra ideia.

— Na verdade, eu estava pensando em passarmos dois dias na praia. O que vocês acham?

— Por mim, tudo bem! — respondeu Abigail.

— Então está combinado! — comemorou Naomi.

Olhei para as duas e ri.

— Vocês esqueceram que trabalhamos no sábado?

Elas se entreolharam.

— Verdade... — Naomi fez uma careta. — Então jantamos na sexta e deixamos a praia para as férias.

— Concordo — disse Abigail. — Estamos precisando descansar.

As duas foram embora.

Eu permaneci ali.

— Leonor, você não vem?

Balancei a cabeça.

— Não posso. Tenho que terminar um relatório... ou melhor, tinha. Agora são trinta laudas.

Naomi arregalou os olhos.

— Mulher, pede para a inteligência artificial fazer!

Ri sem humor.

— Não. Se o relatório levar meu nome, quero que seja escrito por mim.

— Você perdeu a noção.

— Talvez.

Elas se despediram.

— Amanhã nos vemos!

— Até amanhã!

Pouco a pouco, a empresa foi ficando vazia.

As luzes do escritório se apagaram automaticamente.

Apenas a luminária da minha mesa continuava acesa.

Um arrepio percorreu minha espinha.

Nunca mais fico sozinha aqui até esse horário...

Olhei para o relógio.

18h15.

Continuei escrevendo.

Nove páginas.

Ainda faltava muito. Eu quase cochilei em frente o computador.

Foi então que ouvi passos.

Parei de digitar.

Silêncio.

Depois...

Um barulho vindo da copa.

Meu coração acelerou.

Será que ainda tem alguém aqui?

Levantei devagar.

Outro estrondo.

Vidros se quebrando.

Respirei fundo e caminhei lentamente até a copa.

Quando coloquei a cabeça na porta...

— Leonor?

Levei um susto.

— Darían?!

Ele segurava uma vassoura.

Ao lado dele, uma xícara quebrada espalhava cacos pelo chão.

— Vim fazer um chá... e deixei a xícara cair.

Coloquei a mão no peito.

— Você quase me matou do coração.

Ele sorriu de canto.

— Achei que você tivesse ido embora.

— Achei que só eu estivesse aqui.

Ele ficou me olhando por alguns segundos.

Depois respirou fundo.

— Sobre aquele relatório...

Cruzei os braços.

— O que tem?

— Esquece as trinta laudas.

Franzi a testa.

— Como é?

— Quero apenas uma síntese de trinta linhas. Até o fim do mês.

Fiquei imóvel.

— Você está brincando comigo?

— Não.

— Eu já escrevi nove páginas!

Ele coçou a nuca.

— Eu agi por impulso. Estava irritado. Então peço desculpas.

Olhei para ele sem acreditar.

— Você está bem da cabeça?

Ele deu uma risada baixa.

— Talvez nem tanto.

Balancei a cabeça.

— Você é impossível!

Começamos a juntar os cacos.

De repente...

Meu pé escorregou.

— Ah!

Antes que eu caísse, Darían segurou minha cintura.

Minha mão foi parar em seu peito.

O coração dele batia tão rápido quanto o meu.

Por um instante...

Nenhum de nós disse uma palavra.

Levantei o olhar.

Os olhos castanhos dele encontraram os meus.

Senti meu rosto esquentar.

Afastei-me rapidamente.

— É... melhor irmos embora.

Minha voz saiu trêmula.

O que está acontecendo comigo?

Como aquele garoto magrelo, que vivia correndo comigo quando éramos crianças, consegue mexer tanto comigo agora?

Sacudi a cabeça.

Estou vendo coisas.

Preciso descansar.

Darían pegou minha mão.

— Vamos.

Olhei o relógio.

— Já são sete horas?

— O tempo passou voando.

— Falaram de um jantar para ti?

— Jantar?? Ah, sim. Havia até me esquecido. Mas agora lembrei de um jantar especial.

Fiquei pensativa. Então lembrei. Minha tia tinha falado de um jantar importante em família e minha mãe tinha comentado que deveria ser algo especial.

—Talvez, não seja tão especial assim. Disse Darían com uma voz tão melancólica.

Fiquei curiosa, o que ele sabe sobre esse jantar que eu não sei?

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