Mundo ficciónIniciar sesiónEntramos no elevador.
O silêncio voltou a nos envolver. Fiquei de costas para ele e comecei a me abanar com a pasta, tentando disfarçar o desconforto. — Que calor é esse? — Está quente mesmo... Ele respondeu com uma voz tímida. Senti minhas bochechas queimarem no mesmo instante. Só então percebi que havia falado em voz alta sem querer. Fiquei ainda mais sem graça e continuei me abanando, fingindo que estava concentrada no calor. Por que eu tinha que ficar tão nervosa perto dele? Um amigo de infância que era até meu protetor no colégio... Depois, Ele também permaneceu em silêncio e eu também. De repente... O elevador deu um solavanco. As luzes se apagaram. Tudo ficou escuro. Meu celular perdeu o sinal. Meu coração disparou. — Darían... Minha voz falhou. — O que está acontecendo? — Calma, Leonor. Deve ser uma queda de energia. — Os celulares estão sem sinal... Minha respiração começou a acelerar. Ele percebeu imediatamente. — Leonor... Como ele sabia? Meu corpo começou a tremer. Ambientes fechados. Sempre tive pânico deles. Minha visão ficou embaçada. Senti falta de ar. Então... Os braços dele me envolveram. — Respira comigo. Encostei a cabeça em seu peito. Ele sussurrou pertinho do meu ouvido. — Estou aqui. Você não está sozinha. Fechei os olhos. A voz dele era firme. O abraço era seguro e senti que podia confiar. Aos poucos...minha respiração começou a voltar ao normal. Segundos depois, as luzes acenderam. O elevador voltou a funcionar. As portas se abriram. Dei um passo para sair. Mas minhas pernas falharam e tudo começou a girar. Então, ouvi foi a voz desesperada. — Leonor! Quando ele percebeu que eu não estava bem, me segurou antes que meu corpo atingisse o chão. — Leonor... olha para mim! Sem obter resposta, ele me pegou nos braços e saiu do elevador às pressas. — Chamem uma ambulância! Agora!!! Os seguranças correram em nossa direção. Sem esperar, Darían decidiu me levar pessoalmente ao hospital. Durante todo o trajeto, segurou minha mão com força. E todo continuava girando e eu...não conseguia falar. Pela primeira vez em muitos anos, o medo de me perder era maior do que qualquer orgulho que existia entre nós. Senti que meu corpo estava desfalecendo e me esforcei para falar. — Darían Al-Assad, meu amigo e meu amor para sempre em coração. —Leonor!! Fica comigo!!! Acorda!! Acabei desmaiando e não ouvi mais nada, só vi a escuridão tomando conta de mim. Depois de tudo o que aconteceu, Darían me levou para a casa do lago. Abri os olhos lentamente e, por alguns segundos, fiquei completamente confusa. À minha frente, através de uma enorme parede de vidro, eu conseguia ver um lago. Essa casa!? Olhei ao redor, ainda tentando entender onde estava. *O Darían me trouxe para cá?* — Oi, Leonor. Virei o rosto na direção da voz. Darían estava ali. — Fiz uma sopa para você. Vem tomar. Você precisa ficar bem quietinha. Arregalei os olhos. — Nossa, você sabe cozinhar? Está me assustando. Ele soltou um leve sorriso. — Mas, afinal, como eu vim parar aqui? O que aconteceu? Darían respirou fundo e se aproximou. — Você desmaiou no elevador, Leonor. Assim que ele voltou a funcionar, você começou a suar frio e, de repente, perdeu os sentidos. Tentei me lembrar. A escuridão. O elevador parado. Os braços de Darían ao meu redor. O hospital... Depois... Nada. — Eu... eu lembro que não me senti muito bem e não lembro de mais nada. — Eu imaginei. Chamei a ambulância e fomos para o hospital. Fizeram aplicação de ansiolíticos orais priorizando a emergência. — Você desmaiou. Chamei uma enfermeira. Ela disse que você precisaria de cuidados quando acordasse. — Você me trouxe para cá? — Pensei em levar você para a sua casa ou para a casa da sua mãe, mas fiquei com medo de que a tia pensasse alguma coisa e acabasse se preocupando. Então resolvi cuidar de você aqui. Fiquei em silêncio, tentando processar tudo. — No hospital, você acordou, aplicaram a medicação. Depois, você dormiu. A voz dele parecia diferente. Mais baixa. Mais preocupada. — Eu estava preocupado, Leonor. Nunca tinha visto alguém desmaiar na minha frente. Tentei me controlar para poder cuidar de você. Olhei para ele por alguns segundos. — Obrigada, Darían. Desculpa pela preocupação. Às vezes tenho crises de pânico. Sinto muito por ter preocupado você. Ele me encarou e cruzou os braços. — Sente mesmo? Franzi a testa. — Sinto. — Porque eu achei que você queria se vingar das trinta laudas. Revirei os olhos. — Bem que eu queria me vingar. Um pequeno sorriso apareceu no meu rosto. — Mas posso me vingar de outra forma... e não passando mal. Darían balançou a cabeça, tentando esconder um sorriso. — Você não tem jeito, Leonor. — E você é muito orgulhoso, Darían. E, aliás, agradeço por não ter contado nada à minha família. Mas, quando elas souberem, ficarão chateadas por não terem estado comigo. — Talvez eu não tivesse obrigação, Leonor. Mas queria ter certeza de que você ficaria bem. Fiquei preocupado. Meu coração acelerou novamente. Apesar de tudo, acabei sorrindo. — Ainda bem que cuidaste de mim. Apesar de você me assustar hoje. Primeiro faz uma sopa, depois fica cuidando de mim e diz que ficou preocupado. Ele desviou o olhar por um instante. — Eu fiquei preocupado, sim. E me diz uma coisa: faz tempo que você tem claustrofobia? Darían, que até então permanecia em silêncio, virou lentamente o rosto para mim. Abaixei os olhos por um instante. Aquela lembrança ainda doía, mesmo depois de tantos anos. — Algumas meninas diziam que o meu cabelo atrapalhava a aula por ser muito volumoso. Falavam que ele tirava a atenção delas... Soltei uma risada fraca, sem humor. — Como se existisse algo de errado em mim. Como se eu precisasse ocupar menos espaço para que elas se sentissem confortáveis. Darían trincou os dentes e respirou fundo. — Elas fizeram o quê? — perguntou, em voz baixa. Respirei fundo também. — Me trancaram no banheiro. E ficaram do lado de fora rindo. Eu bati na porta, pedi para abrirem... mas elas só riam. Acho que foi naquele dia que comecei a entender como as pessoas podem fazer você se sentir pequena sem precisar tocar em você. O silêncio tomou conta do ambiente. — Por muito tempo, eu acreditei nelas — continuei. — Comecei a prender o cabelo, a tentar escondê-lo... a tentar ser menor. Só para ninguém olhar para mim e decidir que eu era demais. Darían virou-se completamente para mim. O olhar dele estava diferente. Não havia apenas raiva. Havia algo mais profundo. Uma dor silenciosa por imaginar a garota que eu era, ainda tão jovem, sozinha, chorando atrás de uma porta trancada. — Leonor... Ergui os olhos. — Você nunca foi demais. A voz dele saiu baixa, mas firme. — Nunca foi o seu cabelo. Nunca foi você. O problema sempre foi a crueldade delas. Tentei sorrir, mas meus olhos se encheram de lágrimas. Darían deu um passo na minha direção e parou, como se tivesse medo de ultrapassar um limite. — E pensar que você passou por tudo isso sozinha... — Eu não queria que ninguém soubesse — admiti. — Eu tinha vergonha. Se acontecesse algo assim hoje, eu saberia me defender, mas, na época, eu era muito tola. A expressão dele se fechou. — Vergonha? — repetiu, quase em um sussurro. — Você não tinha que sentir vergonha, Leonor. Quem deveria ter sentido vergonha eram elas. Ele desviou o olhar por um instante, como se tentasse organizar os próprios pensamentos. — Peço desculpas por ter sido um intrometido... Ah, e sobre essas meninas... elas tinham inveja. Voltou a me olhar. — Pois o seu cabelo é lindo. Ele passou a mão pelos cabelos e suspirou profundamente. Sorri de leve. — Tudo bem ser um intruso, se for para salvar a vida de alguém. Obrigada... Nem sei como agradecer. E, dessa vez, não era por causa do medo. Por alguns segundos, ficamos em silêncio. Mas, pela forma como ele me olhava, percebi que talvez aquela noite fosse muito mais estranha do que eu imaginava.






