Mundo de ficçãoIniciar sessão
Capítulo 1: O Erro de Milhões
POV: Luna Carvalho O cheiro de antisséptico das clínicas ginecológicas sempre me deu um leve calafrio, mas aquela era apenas mais uma consulta de rotina. Pelo menos, era o que eu pensava enquanto olhava para o teto branco do consultório, esperando a Dra. Helena terminar o procedimento. Aos vinte e três anos, minha vida era rigidamente organizada: o trabalho promissor na editora, os planos de crescimento profissional e o namoro de longa data com o Rafael. Nós tínhamos um acordo claro. Passos maiores, incluindo nossa primeira noite juntos, aconteceriam no momento certo, quando estivéssemos estabilizados. Eu era virgem por escolha, dona das minhas próprias regras. — Prontinho, Luna. Tudo limpo por aqui — a Dra. Helena sorriu, tirando as luvas de látex com um estalo seco. — O laboratório envia os resultados de rotina em alguns dias. Você já está liberada. Agradeci, me vesti e saí dali direto para a editora, esquecendo completamente o assunto. Minha vida seguiu o fluxo normal por três semanas. Até que meu corpo começou a agir de forma estranha. A primeira pista foi um enjoo matinal avassalador que me fez perder o metrô. Depois, um cansaço que nem três xícaras de café conseguiam aplacar, acompanhado por uma sensibilidade absurda nos seios. Camila, minha amiga na editora e dona de uma percepção quase assustadora, largou os originais que estava revisando e me encarou de cima a baixo após me ver recusar o almoço pela terceira vez na semana. — Luna, você está com uma cara péssima. E essa mania de tomar chá de gengibre de hora em hora? — Ela estreitou os olhos, cruzando os braços. — Quando foi sua última menstruação? — Está atrasada uns dez dias, mas é só o estresse do fechamento do catálogo — respondi, tentando focar na tela do computador, embora meu estômago estivesse dando voltas. — Sei. Faz um teste de farmácia. Só para desencargo de consciência. — Camila, eu e o Rafael não... você sabe. Não tem como. — Testes de farmácia custam dez reais, amiga. Deixa de teimosia e faz logo. Para calar a boca dela, comprei o teste na farmácia da esquina na hora do almoço. Fiz o procedimento no banheiro da editora, rindo daquela situação absurda. Eu ia esfregar o resultado negativo na cara da Camila. Deixei o bastão de plástico sobre a pia e esperei os cinco minutos regulamentares enquanto checava meus e-mails no celular. Quando olhei para baixo, o riso morreu na minha garganta. Dois riscos vermelhos. Bem nítidos. Fortes e Inquestionáveis. — Não, não, não. Isso tá errado. Só pode tá estragado — sussurrei para o banheiro vazio, sentindo uma gota de suor frio escorrer pelas minhas costas. Saí dali sem falar com ninguém, peguei minha bolsa e fui direto para a clínica da Dra. Helena, exigindo ser atendida. Eu precisava de um exame de sangue. Precisava que a ciência desmentisse aquele pedaço de plástico vagabundo. O exame foi feito em regime de urgência devido ao meu estado de nervos. Duas horas depois, eu estava sentada na sala da diretoria clínica, com as mãos congeladas, esperando o resultado. A Dra. Helena entrou na sala segurando uma pasta parda. O rosto dela não tinha a leveza de três semanas atrás. Ela parecia ter envelhecido dez anos. Suas mãos tremiam levemente ao colocar o papel timbrado na minha frente. — Luna... o seu exame de Beta HCG quantitativo deu positivo. Você está grávida de aproximadamente três semanas. — Isso é impossível! — Minha voz falhou, um nó de pânico apertando meu pescoço. — Eu já te expliquei, Doutora. Eu nunca tive relações sexuais. Eu sou virgem! O teste está errado, só pode ser isso. A médica engoliu em seco, tirando os óculos e massageando as têmporas. O silêncio dela foi mais aterrorizante do que qualquer grito. — O teste não está errado, Luna. E nós sabemos que você está dizendo a verdade. — a voz dela era um sussurro trêmulo. — Nós revisamos as câmeras e os registros de procedimentos do dia da sua consulta de rotina. Houve uma quebra de protocolo inadmissível no nosso laboratório de reprodução assistida. — Do que você está falando? — Perguntei, sentindo o chão sumir sob os meus pés. — O técnico de plantão confundiu os frascos de triagem. O espéculo utilizado no seu exame de rotina foi contaminado diretamente com o material genético de um procedimento de fertilização in vitro que deveria ter ocorrido na sala ao lado. A sala pareceu girar. Minha mente tentava processar as palavras, mas elas pareciam vir de um idioma estrangeiro. Contaminado. Fertilização. Grávida. — Você está me dizendo que... vocês me engravidaram por um erro? — Minhas unhas cravaram-se nos braços da cadeira. — Foi um erro médico gravíssimo, e pedimos nossas sinceras desculpas Senhorita Carvalho. Nós já identificamos o doador do material genético. O sêmen pertence ao senhor Gabriel Montenegro, CEO da Montenegro Holdings. O nome ecoou pelas paredes da sala como uma bomba. Gabriel Montenegro. O bilionário implacável que estampava as capas de jornais de negócios, o herdeiro de um império tecnológico. Eu estava grávida do homem mais poderoso do país, sem nunca nem ter tocado nele.






