O som insistente atravessou a névoa antes mesmo de ganhar forma.
Era agudo, irritante, como se não devesse existir naquele momento. Camila tentou ignorá-lo. Tudo ainda girava devagar, embriagada pela memória do corpo de Ticiano contra o seu, pelo calor que ainda pulsava sob a pele, pela sensação absurda de estar inteira, viva, depois de tanto tempo em ruínas.
Mas o barulho não cessou.
Pelo contrário, tornou-se mais alto, mais intrusivo, rasgando o entorpecimento que a envolvia como um cobertor quente que acalentava seu coração despedaçado. Um som mecânico, repetitivo, que não combinava com a urgência silenciosa que ainda vibrava em seus ossos, ansiosos por mais desse momento.
Ticiano se afastou de súbito.
Uma sucessão de impropérios escapou de sua boca máscula, num tom grave e áspero que Camila jamais ouviu antes. Não era a fúria controlada de minutos atrás, nem o desprezo calculado. Era irritação pura, prática, voltada para o mundo exterior.
Ele a colocou de volta no chão com um gest