Mundo de ficçãoIniciar sessãoMagdalena
Por que, Deus? Por que?
O circo de horrores abriu cedo hoje, porque esse maluco mais uma vez veio me atazanar. Tudo que eu desejo é ficar quieta, na minha, curtindo a natureza. Mas esse cara colocou na cabeça que é a última bolacha do pacote.
_ Ainda vai me dizer não? _ Sua voz saiu rouca, cheio de si.
_ Sim... _ Respondi, e ele sorriu. _ Eu ainda vou dizer não!
Seu sorriso morreu. Ele ficou ereto na mesma hora, e seus olhos ficaram fixados em mim. Um rosnado saiu de sua garganta, e devo confessar que senti medo na mesma hora.
_ Por que ?
_ Porque eu nem te conheço, senhor. E também não lhe quero! _ Virei minhas costas, tentando me afastar.
Porém sua mão veio de encontro ao meu braço, e me segurou no lugar. Olhei para ele, sentindo meu coração quase na garganta.
_ Eu sou um macho alfa, rico e atraente! Como você pode me recusar? _ Ele parecia estar com o ego ferido.
Respirei fundo, tentando pensar em algo que não o magoasse ainda mais. Esses shifters são bem complicados.
_ Eu não sinto atração por .... _ Droga... pensa Magdalena! _ ... homens! _ Ele franziu a testa. _ Eu não sinto atração por homens. Então... eu não consigo sentir atração pelo senhor.
Consegui puxar meu braço. Ele ficou parado dentro da água, e eu fui andando para a beirada da cachoeira. Peguei minhas coisas que estavam em uma pedra e comecei a andar em direção a trilha.
Demorou pouco para ele me alcançar.
_ Mentirosa! _ Ele rosnou alto, muito irritado. _ Eu sinto seu cheiro! Está mentindo! _ Continuei andando, sem virar para encara-lo, até porque, ele está nu! _ Olhe para mim, fêmea!
Ele berrou, e alguma coisa dentro do meu corpo se revirou. Meus ossos doeram e meu corpo pareceu pesado. Parei no lugar, sentindo uma falta de ar forte.
Dizem que alguns alfas tem uma espécie de “comando”, que dependendo da intensidade, podem atingir humanos.
Quase cai de joelhos, porém senti as mãos dele agarrarem meu corpo.
_ Desculpa... _ Murmurou. _ Não sabia que ia te atingir. Foi... por impulso.
Olhei para cima, encarando seus olhos.
_ Me deixe em paz! _ Sussurrei ofegante. _ Nenhum homem vai me usar de novo!
Engoli a bola de choro que se acumulou na minha garganta, e mesmo com falta de ar e me sentindo fraca cambaleei pela trilha até chegar na cabana principal.
Assim que pisei no lugar, me joguei em uma cadeira de praia que estava ali na rua.
Respirei fundo, sentindo a brisa no meu rosto acalmar a aflição que estava sentindo.
Algumas lembranças dolorosas quiseram emergir das profundezas da minha mente, mas lutei até que elas voltassem para seus devidos lugares.
(...)
Conforme o dia foi passando, fiz todo o meu trabalho e voltei para a minha pequena cabana, que é muito mais simples que a dos hospedes, mas que me serve muito bem.
Deitei na minha caminha, sentindo o cheirinho dos lençóis limpos, a maciez da coberta, e o cheiro da floresta que entra pela janela que sempre deixo aberta.
Alguns flashes do dia me fizeram levantar e fechar a janela. Voltei a lembrar do lobo, das palavras do homem cujo nome é Darius, que inclusive combina muito com ele.
Ele se acha demais, mas dá para ver que é o tipo de homem que tem tudo nas mãos a hora que quer, quando quer.
Não dá para culpa-lo por completo por ser tão arrogante. A vida se curvou as vontades dele.
Bem, hoje eu quase me curvei, mas foi por falta de ar e a culpa é toda dele.
_ Para de pensar nisso mulher! _ Rosnei para mim mesma.
Revirei na cama diversas vezes, sem conseguir pegar no sono apesar de estar cansada.
Quando meus olhos estavam quase fechando ouvi um barulho estranho, de galhos quebrando.
Levantei imediatamente, e espiei pela janela. Não vi ninguém, havia apenas escuridão. Foi quando ouvi outro barulho estranho, um barulho que ouvi ainda hoje, de ossos quebrando e algo a mais que faz meu estomago embrulhar.
Corri para a porta e abri. E mais uma vez o maluco nu estava na minha frente, mas dessa vez alguma coisa estava diferente. Evitei olhar para baixo, encarando sua parte mais intima.
_ Mas...
_ Espere, Magdalena. _ Ele me interrompeu. _ Eu sinto muito por mais cedo. Eu fui muito incisivo, e vocês humanos são muito sensíveis.
Revirei meus olhos com a desculpa esfarrapada.
_ Ok, senhor Darius. Será que o senhor pode me deixar dormir? _ Minha paciência estava no fim, e acho que serei obrigada a denuncia-lo para o anfitrião.
_ Eu trouxe uma coisa... para me desculpar! _ Ele virou de costas e se abaixou.
Fechei meus olhos, evitando vê-lo peladão.
Ele levantou e estendeu em minha direção uma cesta enorme de doces. Olhei para ele desconfiada, mas peguei.
O arco que segura a parte debaixo estava molhada, o que acredito ser saliva do lobo, porque só assim para ele ter trazido até aqui.
_ Nossa... obrigado... _ Murmurei surpresa._ Mas como você conseguiu isso? Esse estabelecimento fica a quilômetros daqui!
_ Eu fui correndo. _ Disse ele com um sorriso convencido. _ Meu lobo é veloz.
_ Oh... _ Havia uma mancha vermelha no rosto dele, e notei que no peito também, e depois na mão que ele alisou o cabelo. _ Você está ferido?
_ Ah, um corte, mas logo eu me recupero.
_ Corte onde?
_ Na coxa. _ Disse enquanto olhava para baixo.
_ Eu não quero olhar para baixo porque o senhor está nu... _ Virei de costas e entrei na cabana, larguei a cesta em cima da minha cama e peguei uma toalha. Voltei e entreguei para ele. _ Se cobre, por favor.
_ A melhor parte você não quer ver? _ Perguntou convencido.
Fiquei em silêncio e ele entendeu meu recado.
Darius se cobriu, e então olhei para a coxa dele.
_ Meu Deus... _ Era um corte fundo, que estava sangrando muito. _ V-Vem, eu vou limpar isso!
Puxei Darius para dentro da cabana, e o fiz sentar na cama. Ele me encarou profundamente, mas não liguei. Apenas procurei pela maleta de primeiro socorros para tentar amenizar o sangramento, principalmente porque provavelmente ele se machucou indo buscar essa cesta de doces para mim.
Eu pedi? Não, não pedi. Mas também não posso abandonar a minha humanidade só porque ele é um convencido arrogante.







