Capítulo 3

Ajeito a gravata, certificando-me de que esteja perfeitamente alinhada ao colarinho da camisa.

Permaneço diante da grande janela do meu escritório, observando a cidade despertar lá embaixo.

Mas minha atenção não está nos prédios.

Nem no trânsito.

Nem nas pessoas.

Está na única certeza que tenho para esta manhã.

Em alguns minutos, Isabella Still baterá àquela porta para conversarmos sobre o contrato de casamento.

Ainda me surpreendo por ela ter aceitado.

Confesso que gostei da decisão.

Na verdade...

Não consigo imaginar outra pessoa ocupando esse lugar.

Ouço duas batidas suaves na porta.

Elas me arrancam dos meus pensamentos.

— Entre. — Digo.

A porta se abre.

Não me viro.

Continuo observando a cidade através do vidro.

O som dos saltos ecoa pelo escritório, firme e elegante.

Um passo.

Depois outro.

Até que o silêncio toma conta do ambiente.

— Morrone. — Ela diz.

Um discreto sorriso surge no canto dos meus lábios.

— Still. — Respondo.

Viro-me para olhar nos olhos castanhos de Still. Mesmo diante dessa situação diferente, ela não cora, nem parece desconfortável.

Será que é possível uma mulher nunca demonstrar um mero constrangimento?

Still me conhece muito bem. Não no âmbito pessoal, mas sabe mais sobre mim do que qualquer outra funcionária.

Sabe a hora em que saio de casa, sabe quando não tomo café, sabe como gosto da comida, conhece minha organização. Sabe quando estou estressado, quando estou bem, sabe quando não gosto de algo e até como gosto da sala de reuniões.

Profissionalmente, essa mulher me conhece muito bem.

— Sente-se, vamos conversar! — digo a ela.

Ela se senta na cadeira à minha frente e coloca sobre a mesa o contrato que lhe entreguei.

— Como será feito isso? — ela pergunta.

Sento-me e abro um leve sorriso diante da sua pergunta.

— Vou mandar um caminhão de mudança e algumas pessoas à sua casa amanhã para levar suas coisas para a minha casa. Depois, vamos resolver a questão do casamento. Será apenas no cartório, e preciso apresentá-la à minha mãe como minha esposa. Também precisaremos ir a algum evento beneficente para mostrar a todos que tenho uma esposa. — digo.

Still apenas acena com a cabeça.

...

No dia seguinte, chego à empresa antes mesmo do horário habitual. O prédio ainda está silencioso, e poucos funcionários circulam pelos corredores.

Entro em minha sala, retiro o paletó e o acomodo sobre a poltrona. Caminho até a grande janela, observando a cidade despertar enquanto tomo um gole do café recém-servido.

Ainda preciso resolver algumas coisas antes que Isabella chegue definitivamente à minha casa.

Pego o celular sobre a mesa e procuro o contato da empresa responsável pelas mudanças.

A ligação é atendida após poucos toques.

— Bom dia, senhor Morrone. Em que podemos ajudá-lo? — a atendente pergunta.

— Quero uma equipe completa na casa da senhorita Isabella Still hoje pela manhã. Levem um caminhão grande e embalem tudo com cuidado. Quero que todos os pertences dela sejam transportados para minha residência sem qualquer dano. — Digo.

— Certamente, senhor. Deseja que nossa equipe faça toda a desmontagem e organização?

— Sim. Cuidem de tudo. Ela apenas indicará o que deve ser levado. Não quero que ela precise se preocupar com absolutamente nada.

— Perfeitamente. A equipe estará no endereço em menos de uma hora.

— Ótimo.

Encerro a ligação e deixo o celular sobre a mesa.

Uma batida discreta na porta interrompe meus pensamentos.

— Senhor Morrone, seu pai já está esperando na sala de reuniões. — Isabella informa.

Lanço um último olhar para a cidade antes de vestir novamente o paletó.

Já imaginava que aquela conversa não seria agradável.

Caminho pelos corredores da empresa em silêncio. Alguns funcionários abaixam a cabeça em cumprimento, mas minha atenção está voltada apenas para a porta de madeira escura ao fim do corredor.

Empurro a porta sem bater.

Meu pai está sentado à cabeceira da mesa, folheando alguns documentos. Meu irmão permanece ao seu lado, com um sorriso discreto nos lábios, como se já soubesse exatamente o rumo daquela reunião.

Puxo uma cadeira e me sento.

— O senhor queria falar comigo? — Pergunto.

Meu pai fecha a pasta lentamente e apoia as mãos sobre a mesa.

— Quero resolver uma questão da empresa.

Permaneço em silêncio.

— Você vai vender parte das suas ações para o seu irmão.

Ergo uma sobrancelha.

— Não.

A resposta sai firme, sem qualquer hesitação.

Meu pai estreita os olhos.

— Isso não foi um pedido.

— Então continuará sem ser atendido.

O silêncio toma conta da sala.

Meu irmão desvia o olhar, claramente desconfortável.

Meu pai se inclina sobre a mesa.

— Seu irmão também faz parte desta família. Ele merece ter a mesma participação que você.

Cruzo os braços.

— Se ele quiser mais ações, que as conquiste. Eu trabalhei por cada porcentagem que possuo.

— Está sendo egoísta.

— Estou protegendo aquilo que construí.

Meu pai b**e a mão contra a mesa.

— Eu ainda mando nesta empresa!

Levanto-me devagar.

— O senhor manda na parte que lhe pertence. Nas minhas ações, quem decide sou eu.

Ele se levanta logo em seguida, com o rosto tomado pela irritação.

— Volte aqui, Thomas. Ainda não terminei de falar.

Ajeito o paletó sem sequer olhar para trás.

— Eu terminei.

Abro a porta da sala e saio, ignorando a voz do meu pai ecoando pelo corredor.

Pela primeira vez em muito tempo, deixo-o falando sozinho.

Saio da sala de reuniões sem olhar para trás. Os gritos do meu pai continuam ecoando pelo corredor, mas não diminuo os passos.

Pego o celular do bolso enquanto caminho até o elevador.

Há apenas uma pessoa com quem consigo conversar depois de discussões como essa.

James.

A ligação é atendida no terceiro toque.

— Achei que estivesse ocupado mandando em meia empresa. — A voz debochada do meu irmão atravessa a linha.

Um leve sorriso surge em meus lábios.

— Acabei de sair de uma reunião com o meu pai.

— Pela sua voz, já imagino que não foi um encontro amigável.

Aperto o botão do elevador.

— Ele pediu, mais uma vez, que eu vendesse parte das minhas ações para o nosso irmão.

James solta uma gargalhada.

— Ele ainda insiste nisso?

— Insiste.

— E você mandou ele para o inferno, certo?

As portas do elevador se abrem.

— Com outras palavras.

James volta a rir.

— Esse velho nunca aprende. Se ele quer aumentar a participação do filho favorito, que entregue as ações dele. As suas você conquistou trabalhando, não recebeu de presente.

Entro no elevador.

— Foi exatamente o que pensei.

— Então não venda.

— Não vou.

— Ótimo. Assim você evita que ele ache que pode mandar na sua vida para sempre.

O elevador começa a descer.

Permaneço alguns segundos em silêncio.

— Tem outra coisa.

— Lá vem.

Respiro discretamente.

— Estou com uma mulher.

Do outro lado da linha, James faz um som de surpresa.

— Você?

— Sim.

— Isso eu preciso ouvir.

Olho meu reflexo nas portas espelhadas do elevador.

— Acho que vou pedir a mão dela.

O silêncio que surge do outro lado dura apenas alguns segundos.

— Quem é a corajosa?

— Isabella Still.

James ri alto.

— Eu sabia.

Franzo a testa.

— Sabia?

— Nunca duvidei.

— Do quê?

— Da forma como você falava dela.

Balanço a cabeça.

— Nunca falei dela de um jeito diferente.

— Falava, sim. Você só nunca percebeu. Sempre que mencionava essa mulher, prestava atenção em detalhes que não observava em mais ninguém. Sabia do café que ela gostava, da competência dela, do quanto confiava no trabalho dela. Você só estava ocupado demais para notar.

Permaneço em silêncio.

— Então... quando pretende pedir a mão dela?

— Em breve.

— Fico feliz por você, Thomas.

Encerro a ligação alguns minutos depois.

Guardo o celular no bolso e permaneço imóvel dentro do elevador enquanto observo meu próprio reflexo.

James parecia genuinamente feliz.

Provavelmente minha mãe também ficaria.

Talvez meu pai até enxergasse isso como mais um passo esperado na minha vida.

No fim, talvez não fosse uma surpresa para ninguém.

Todos acreditariam que Isabella e eu finalmente havíamos assumido um relacionamento que, aos olhos deles, sempre teve potencial para acontecer.

A verdade, porém, era muito mais simples.

Não havia romance.

Não havia declarações.

Não havia amor.

Existia apenas um contrato.

E, quando tudo chegasse ao fim, cada um seguiria seu próprio caminho como se nada daquilo tivesse acontecido.

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