Mundo de ficçãoIniciar sessãoPeter Darcyk
Eu achei que isso já fosse passado. Mas, ao que tudo indica, os sentimentos que eu acreditava estarem enterrados — aqueles da adolescência — voltaram com força total. E isso me apavorava.
Sou apaixonado por Naomi desde sempre. Desde que me entendo por gente. E ela nunca percebeu. Sempre me enxergou apenas como o amigo fiel, e eu respeitei isso. Nunca ousei confessar o que sentia.
Mas agora… agora tudo estava diferente.
— Não tem uma roupa maior, não? — pergunto, visivelmente irritado.
— Você sempre me viu assim. É meu pijama — ela responde, inocente.
— É que esse pijama está curto demais — digo, tentando soar natural. — E a Aubrey e o panaca vão vir para um programinha de casal. Se for ficar de pijama, coloca aquele de calça.
Minto descaradamente. A verdade é que eu estava incomodado. E, possivelmente, excitado.
— Tá bom — ela diz, correndo para o quarto.
A campainha toca.
Aubrey entra toda estabanada, me abraça forte e já segue direto para a cozinha. Deivd, por outro lado, me analisa de cima a baixo.
— Não vou deixar vocês dois juntos — ele diz, sem cerimônia alguma.
Sub: É o quê?!
— Eu e o vinho? — ironizo. — Fique tranquilo, tenho uma adega cheia.
Pego a garrafa de sua mão e dou espaço para ele entrar.
— Estou falando de você e da Naomi — ele insiste.
Esse cara perdeu completamente a noção.
Por um instante, penso em contar tudo para Naomi. Desmascará-lo. Abrir os olhos da Aubrey. Mas a verdade é dura: o coração dela escolheu o homem errado.
— Cuide da sua noiva. Da minha namorada, cuido eu — digo entre dentes.
— O que está acontecendo aqui? — Naomi surge no corredor. Tenho certeza de que ouviu parte da conversa.
— Nada, ruiva — Deivd responde com um sorrisinho idiota.
A vontade de arrebentar a cara desse maldito cresce dentro de mim.
E ainda por cima chama a minha Naomi de ruiva.
— Por favor, me chame pelo meu nome. Só meu namorado me chama assim — ela rebate.
Aquilo doeu. Doeu nele… e em mim também, doeu por que eu queria ser o namorado de verdade e não o de mentirinha.
— Vou atrás da Aubrey — ele diz, se afastando.
— Esse cara é louco — falo, furioso.
— Ouvi parte da conversa — Naomi diz, curiosa.
— Ele é totalmente sem noção. Não sei como vocês duas conseguiram se apaixonar por ele — respondo, desviando o assunto.
Não é raiva dela. Nunca foi. É dele.
— A lasanha está no forno. A tia Petra que fez — Aubrey anuncia, surgindo da cozinha.
— Nossa Senhora! — jogo-me no sofá. — A lasanha da tia Petra é a oitava maravilha do mundo.
— Tia? — Deivd se mete onde não é chamado.
— Qual parte de “Peter é íntimo da nossa família” você não entendeu? — Naomi responde, sem paciência.
— Esqueci que o Peter é o queridinho da família… — ele murmura, revirando os olhos.
O ciúme dele é tão evidente que chega a ser constrangedor. Não sei se ele queria estar no meu lugar, no sentindo em que todos me amam, já ele ainda não tem tanto valor na família.
— Vou abrir o vinho — Aubrey diz, tentando aliviar o clima.
Sentamos no sofá, bebemos vinho e assistimos a vários filmes. Eu e Naomi só estávamos ali por causa da Aubrey. Algo dentro de mim dizia que esse noivado não iria para frente.
Deivd não parava de olhar para Naomi, e isso me incomodava profundamente.
— Já é amanhã — Aubrey diz, animada.
— Nossa família é louca — Naomi comenta, bebendo um gole generoso do vinho.
— Eu sei! O look de vocês está pronto. Trouxe tudo naquela mochila. Vocês já vão sair daqui direto para lá, bem lindos e maravilhosos — Aubrey b**e palmas.
Deivd revira os olhos.
— Será o dia mais feliz das nossas vidas, não é, amor? — digo, sorrindo para Naomi.
— Sim, meu amor — ela responde, me dando um selinho.
— Eita! Olha a hora, temos que ir — Aubrey anuncia.
— Mas vamos deixá-los sozinhos? — Deivd questiona novamente.
— Eles são bem grandinhos para se virarem sozinhos. Vamos, Deivd — Aubrey responde, impaciente.
Eles vão embora.
Esse cara está testando seriamente minha paciência.
— Acho que estou com ranço dele — Naomi comenta.
Aquilo me dá uma ponta de esperança.
— Só você? — ironizo.
Voltamos a beber vinho e assistir a mais filmes. Naomi acaba deitada sobre meu peito, e eu faço carinho em seus cabelos. Estar tão perto dela assim me deixa completamente extasiado.
O cansaço vence, e tudo fica escuro.
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Acordamos no dia seguinte às oito da manhã. Estávamos um pouco atrasados, mas ainda dava tempo de inventar uma desculpa.
— Vamos? — Naomi pergunta.
— Vamos — respondo, pegando as chaves do carro.
As roupas que Aubrey preparou eram lindas demais. Até fiquei com pena de usá-las. Mas fazer o quê? Tenho uma reputação de galã a manter.
Chegamos à casa dos meus sogros. Assim que estacionei, a porta se abre bruscamente e a família inteira sai de dentro da casa.
— Ainda dá tempo de sair correndo — Naomi propõe.
— Vamos… — quase cedi e sai correndo dali com ela. — Vamos encarar essa família louca.
Ela me olha indignada.
— Entrem, meus queridos! Vamos comer e depois começamos o ritual — tia Petra anuncia, toda feliz.
— Tia, falando assim os vizinhos vão achar que somos satânicos — Naomi brinca.
Todos riem.
E, apesar de tudo, eu percebo: essa é a minha família também. Essa loucura toda. E eu amo isso.
Entramos na casa e logo avistamos Deivd sentado no sofá e Aubrey descendo as escadas.
— Olá, meus amores — Aubrey diz, sorridente.
— Hello, cunhada — digo, abraçando-a.
— Qual será a prova dessa vez? — Naomi pergunta.
— Não faço ideia. Eles não contaram nada — Aubrey responde, pensativa.
— Ih… — murmuro. — Quando escondem assim, vem surpresa.
— Vai ser um dia épico — Deivd diz, com um sorriso malicioso.
Tenho um pressentimento péssimo.
Se depender desse cara, a surpresa não vai ser nada agradável. Eu só queria que Naomi e Aubrey acordassem para a vida e vissem o qual baixo esse crápula é. Ele me dá calafrios e sinto que ele não é tudo isso que diz, sei que por trás desse rostinho de galã, tem um posicopata.
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