2 - LAYSLA

A noite inteira eu rolei na cama, olhando pro teto, pensando na proposta da Lídia. Meu cérebro brigava com meu coração o tempo todo. Uma parte de mim gritava que aquilo era loucura, que não, que eu não nasci pra isso, que eu tinha limite. A outra parte... bom, a outra parte só lembrava das contas jogadas na mesa. Do aviso de corte de energia. Dos três boletos da faculdade carimbados com “URGENTE”. E do fundo da geladeira, que tinha uma água, um ovo e um resto de arroz.

Mas, ainda assim, eu resisti. Acordei no dia seguinte determinada a bater na porta do mundo mais uma vez. Sai pra procurar emprego, entregar currículo, cara e coragem. Subi e desci ruas, entrei em loja, oficina, mercadinho, salão, qualquer coisa. Algumas pessoas me olhavam com pena, outras nem levantavam os olhos do computador. E no fim do dia, adivinha? Nada. Nenhuma ligação. Nenhuma chance.

Cheguei em casa exausta, com os pés doendo, a alma mais ainda. Me joguei no sofá rasgado, respirei fundo, fechei os olhos e tentei não chorar. Eu tava no meu limite, mas a vida… a vida sempre consegue puxar a corda só mais um pouco.

— TOC, TOC, TOC!

Três batidas secas na porta. Levei um susto. Olhei no relógio. Sete da noite. Quem seria?

Levantei, ajeitei o cabelo meio por fazer, e abri a porta. Era o seu Antônio, o proprietário da casa. A cara fechada, braços cruzados e aquele olhar que já dizia tudo.

— Laysla... vim aqui resolver aquele papo pendente. — Ele ajeitou o boné na cabeça. — Já faz três meses que você tá atrasada no aluguel, minha filha.

Engoli seco. O estômago virou.

— Eu sei, seu Antônio... eu tô correndo atrás... juro. Só mais uns dias, eu...

Ele levantou a mão, cortando minha desculpa no meio.

— Dois dias. — Falou seco, firme. — Dois. Ou você paga ou... sinto muito, mas vou ter que pedir a casa. Eu também dependo disso, menina. Tenho conta pra pagar. Você entende, né?

A única coisa que consegui fazer foi balançar a cabeça, sem som, sem força, sem nada. Ele deu um suspiro pesado, me olhou com pena, mas não voltou atrás.

— Dois dias, Laysla. — Repetiu, antes de virar as costas e descer as escadas.

Fechei a porta devagar, como quem fecha uma cova. Me encostei na parede e deslizei até sentar no chão, com os braços cruzados sobre os joelhos e o queixo apoiado. Olhei ao redor. Meu pequeno mundinho. A salinha apertada, a mesa manca, a cama improvisada no canto. Não era muito. Mas era tudo que eu tinha.

E agora... nem isso.

Fiquei ali por uns bons minutos, olhando pro vazio. O silêncio parecia ensurdecedor. Eu podia ouvir meus próprios pensamentos, todos embaralhados, confusos, doloridos. Até que, sem nem perceber, minha mão já tava esticando pro sofá, pegando o celular.

Fiquei encarando a tela. O contato da Lídia ali. Meu dedo tremia. O orgulho gritava lá no fundo, pedindo pra eu não fazer isso. Mas o desespero… o desespero tava gritando mais alto.

Suspirei. E apertei o botão de chamada.

O telefone nem deu dois toques.

— Sabia que você ia ligar. — A voz dela veio quase que rindo do outro lado.

Fechei os olhos e respirei fundo.

— Li... — minha voz saiu fraca. — Eu... acho que não tenho escolha.

— Eu sei, amiga. — Ela não soava nem surpresa, nem julgadora. Só… certa. — E, olha... cê tá fazendo a escolha certa. Na moral. Cê não faz ideia do quanto isso vai te salvar.

— Eu ainda não sei... — apertei os olhos. — Eu só... não quero perder tudo. Não posso.

— Relaxa. — Ela parecia tranquila, até divertida. — O cara é tranquilo. Meio doido, não vou mentir. Mas inofensivo. Eu já falei com ele por cima sobre você. Ele tá interessado.

— Tá… — Apertei mais forte o celular na mão. — E como é que funciona?

— Eu te passo o contato dele. Você liga, ele vai passar o endereço. Você vai lá, conversa, vê se topa. E, amiga... — fez uma pausa — te prepara. Porque esse não é um job qualquer. Esse homem… é diferenciado.

Arregalei os olhos, tensa.

— Diferenciado... como assim?

Ela riu.

— Calma, não é nada de filme de terror, não. Só que ele tem umas... manias. Mas, na boa? Vale cada centavo. E não é pouco, viu?

Fechei os olhos, pressionando as têmporas com os dedos.

— Quanto?

— O suficiente pra você pagar esses três meses da faculdade, dois anos de aluguel, quitar tuas dívidas, e ainda sobra pra viver bem por um bom tempo.

Senti meu coração acelerar. O peito apertar. O chão parecia que ia sumir.

Ela percebeu meu silêncio e completou:

— Se quiser... eu te mando agora. Só falar.

Fiquei encarando o nada. As unhas arranhando a própria perna. Uma parte de mim ainda tentava resistir. Gritava que não, que aquilo não era eu. Mas, olhando ao redor, pra minha realidade, percebi uma coisa: talvez nunca tenha sido sobre querer.

Era sobre precisar.

Trinquei os dentes. Apertei o celular com força.

E soltei um suspiro pesado.

— Manda.

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