Capítulo 5

Mary

A noite estava quente para os padrões de Connecticut, o tipo de calor que grudava na pele e fazia a gente querer dançar até o corpo pedir arrego. Depois de um dia inteiro de testes de luz no estúdio, eu precisava extravasar. Liguei para as meninas da campanha, Kayla, a stylist, e Priya, a maquiadora, e para o Julian, o fotógrafo, que virou quase um amigo.

Barzinho simples, música boa, um bar com luz baixa, paredes de tijolo aparente e um DJ tocando uma mistura de R&B com batidas que me fazia sentir em casa.

Eu com vestido preto curto, justo na cintura e soltinho nas pernas, cabelo longo solto ondulando nas costas e batom vermelho. Eu dançava no meio do salão como se o mundo fosse meu, ria alto, jogava os braços para cima, girava. Kayla e Priya gritavam junto, e Julian fingia dançar mal só para me fazer rir mais.

Foi quando eu vi ele.

Clarke.

Encostado no bar, conversando com um grupo de amigos, copo de uísque na mão, olhos escuros fixos em mim como se o resto do bar tivesse desaparecido. Ele não tinha avisado, não tinha mandado mensagem. Simplesmente apareceu, vestindo camisa preta com as mangas dobradas, revelando antebraços fortes, e aquele olhar que me fazia sentir nua mesmo vestida.

Meu corpo reagiu antes da cabeça, um calor subindo pela barriga, os bicos dos seios endurecendo contra o tecido fino. Mas eu sorri só de canto, fingindo que não tinha notado. ‘’Que venha, Bellomo. Hoje eu vou te deixar louco.’’

Continuei dançando. Um amigo do Julian, um modelo chamado Theo, loiro, alto, sorriso bonito e zero química comigo, me puxou para dançar uma música mais lenta. Coloquei as mãos nos ombros dele, ri quando ele girou exagerado, encostei o quadril de leve só para manter o ritmo, bem inofensivo. Diversão pura.

Clarke não achou inofensivo.

Em menos de trinta segundos ele atravessou o salão como um predador. Parou ao lado da gente, e com a voz grave cortando a música chamou.

— Mary Anne!

Theo parou, confuso. Eu virei devagar, erguendo uma sobrancelha.

— Clarke, que surpresa!

— Dançando com ele? — O tom era baixo, controlado, mas os olhos queimavam. Ele olhou para Theo como se quisesse arrancar a mão do cara da minha cintura. — Aqui? Na frente de todo mundo?

Senti a irritação subir quente pelo peito. Soltei Theo com um sorriso rápido, vendo ele ir embora e me virei completamente para Clarke, cruzando os braços.

— Com licença? — Minha voz saiu alta, do jeito cigano que não esconde nada. — Eu danço com quem eu quiser, Bellomo. Não sou propriedade sua e de ninguém.

Ele deu um passo mais perto, ignorando os olhares das pessoas ao redor. Ele segurou a minha cintura no lugar de Theo, o perfume dele me atingiu em cheio, amadeirado, caro, misturado com uísque. Suas mãos quentes apertando minha pele sobre o tecido fino. Meu corpo me traiu, um arrepio descendo pela espinha.

— Eu vi como ele te tocou — rosnou baixo, só para mim. — Vi como você riu pra ele. Depois do quase-beijo da última vez que te vi? Depois de você me deixar duro pra caralho no jardim de casa e nem poder ir atrás de você, porque minha casa estava cheia?

As palavras dele foram diretas, cruas. Senti um pulsar entre as pernas, mas levantei o queixo, me fazendo de difícil.

— Ciúmes, Clarke? — provoquei, chegando tão perto que nossos peitos roçaram. — Que fofo. Mas eu não sou de dar satisfação. Se você não aguenta me ver dançando, o problema é seu. Eu sou livre, eu rio alto, eu danço, eu vivo. E se você quer estar na minha vida, vai ter que aprender a lidar com isso sem fazer cena como um garoto de vinte anos.

Ele segurou e apertou nossos corpos, não forte, mas firme o suficiente para eu sentir o calor dele enquanto nos moviamos lento fora do ritmo da musica. O toque queimou.

— Eu não sou garoto — murmurou, o hálito quente contra minha orelha. — E eu quero você pra caralho, Mary Anne. Quero você de um jeito que me faz acordar pensando no seu cheiro. Mas ver outro homem te tocando… me deixa louco. Me deixa querendo te jogar por cima do ombro e te levar embora agora.

Meu coração martelava. Eu queria isso, eu queria ele me prensando contra a parede do banheiro, levantando meu vestido, me fazendo gemer o nome dele. Mas eu não ia ceder. Ainda não.

Saí do seu abraço devagar, roçando minha mão no pau dele de propósito. Senti ele ficar tenso.

— Então fica louco — sussurrei, os lábios quase tocando os dele. — Porque eu não vou parar de viver só pra você não sofrer. Se quiser me ter, vai ter que merecer cada pedaço. Sem cena. Sem ciúmes de menino.

Eu me afastei, voltei para as meninas e dancei mais uma música, sentindo o olhar dele me perfurar as costas o tempo todo. Quando saí do bar, ele não veio atrás. Mas eu sabia, ele estava obcecado, e isso me deixava molhada só de pensar.

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No dia seguinte o ensaio fotográfico era no estúdio principal em Stamford. O conceito era “Paixão entre vinhedos”: fazendo poses sensuais, corpos próximos, pele contra pele. Eu faria com outro modelo, um cara chamado Bento, brasileiro, lindo, corpo esculpido e profissionalismo total.

Cheguei cedo, cabelo solto e ondulado, pele bronzeada, vestindo um robe fino por cima da lingerie de renda que o estilista tinha escolhido. Julian me deu um abraço.

— Hoje vai ser quente, Mary Anne. Bento já está pronto.

Eu ri alto.

— Perfeito. Vamos esquentar ainda mais.

As primeiras fotos foram leves: eu sentada numa cadeira alta, Rafael atrás, com as mãos nos meus ombros. Foi fácil. Depois vieram as mais íntimas, eu de pé, de costas para ele, o corpo dele colado no meu, mão dele descendo pela minha cintura, dedos roçando a curva do meu quadril. A câmera clicava sem parar. Eu olhava para a lente como se estivesse olhando para Clarke.

E então ele apareceu… novamente.

Clarke entrou no estúdio sem avisar, terno escuro, expressão fechada. Parou no fundo, braços cruzados, olhos fixos em mim e em Bento. Eu senti o ar mudar. Sorri por dentro.

“Hora de brincar.”

Na próxima pose, Bento me virou de frente para ele. Nossos corpos colados, peito contra peito, a perna dele entre as minhas. Eu inclinei a cabeça para trás, meus cabelos raspando no chão, lábios entreabertos, e deixei escapar um suspiro baixo e sensual, daqueles que eu sabia que Clarke ouviria.

— Assim, Bento… mais perto — murmurei alto o suficiente para o estúdio inteiro ouvir. — Quero sentir seu corpo.

Bento, profissional, obedeceu. Suas mãos desceram pelas minhas costas, parando logo acima da bunda. Eu gemi baixinho, só para provocar. Olhei direto para Clarke por cima do ombro de Rafael. Nossos olhares se prenderam. Vi o maxilar dele travar, as veias do pescoço saltando.

Julian adorou.

— Isso, Mary Anne! Essa química tá insana!

Eu me mexi devagar contra Rafael, roçando o quadril, jogando o cabelão para o lado. Clarke deu um passo à frente, depois outro, o olhar dele era puro fogo. Outro homem da produção fala algo com ele, mas ele nem dá importância.

Na pose seguinte eu estava sentada no colo de Bento, pernas abertas ao redor dele, braços em volta do pescoço. Minha lingerie mal cobria o essencial. Eu me inclinei para frente, roçando os seios no peito dele, mordendo o lábio enquanto olhava para Clarke.

— Mais firme, Bento… — sussurrei, voz rouca. — Quero que pareça real.

Clarke perdeu o controle.

— CHEGA!!

A voz dele cortou o estúdio como um tiro. Todo mundo parou. Julian virou, confuso.

— Sr. Bellomo? O que…

— Chega — repetiu Clarke, caminhando até o set. — Essa pose não… isso é um ensaio sério, não um ensaio pornô.

Eu me levantei devagar do colo de Rafael, o robe escorregando de um ombro de propósito. Fui até Clarke, parando tão perto que nossos corpos quase se tocavam. Meu coração batia forte, eu estava molhada, excitada com o poder que tinha sobre ele. Mas tambem irritada.

— Ciúmes de novo, Bellomo? — provoquei, voz baixa. — Na frente da minha equipe? Na frente da câmera?

Ele segurou meu cotovelo, puxando-me para o canto do estúdio, longe de todos. A voz saiu rouca, quase um rosnado:

— Você está fazendo isso de propósito. Me deixando louco. Roçando nesse cara, gemendo, olhando pra mim como se quisesse que eu te fodesse aqui mesmo.

Eu sorri, maliciosa. Cheguei o rosto perto do dele, lábios a um milímetro.

— E se eu quiser? — sussurrei. — E se eu estiver molhada só de te ver sofrer? Mas você ainda não merece, Clarke. Ainda não, principalmente após essa cena.

— Você quer que eu te implore, Ciganinha? — Ele diminui o tom da voz.

— Adoraria ver, Sr Bellomo ! — Falo passando o indicador nos seus lábios.

Ele gemeu baixo, a mão apertando minha cintura. Senti a ereção dele contra minha barriga. Duro, latejando. Eu queria tanto, queria arrastar ele para o camarim, sentar no colo dele e cavalgar até gritar. Mas eu me afastei, ajustando o robe.

— Termina o ensaio, Julian — disse alto, voltando para o set. — Sr. Bellomo já está de saída.

Clarke ficou parado mais alguns segundos, respirando pesado, olhos prometendo vingança. Depois virou e saiu do estúdio batendo a porta. E eu ri por dentro.

“Louco. Completamente louco por mim.”

Terminamos o ensaio duas horas depois. Eu estava exausta, excitada e triunfante. Quando cheguei na casa da tia Magda, já era noite. Tomei um banho gelado, vesti só uma camisola fina e me joguei na cama.

O celular tocou. Era minha amiga Lívia, de Boston, amiga desde sempre, outra cigana de alma livre como eu. Ela disse que achou um apartamento perfeito para nós duas dividir.

Desliguei o telefone com o coração leve. A Itália estava chegando. Dez dias inteiros vinhedo dele, no território de Clarke Bellomo.

Eu ia deixar ele ainda mais obcecado.

E quando eu finalmente cedesse… ia ser inesquecível.

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