Capítulo 19: O Relevo das Cicatrizes (Ágata)
Trinta dias no morro me ensinaram que a liberdade tem um cheiro diferente daquele que eu imaginava. Não cheira a maresia ou a perfumes importados; cheira a terra úmida, café passado no coador de pano e ao ferro do armamento que Miguel mantém sempre por perto. Mas, acima de tudo, para mim, a liberdade começou a ter o cheiro dele.
Durante esse mês, minha percepção sobre o "Pai" mudou drasticamente. No asfalto, ele era uma lenda urbana, um nome que os homens como Ricardo pronunciavam com nojo e um medo disfarçado de autoridade. Aqui, eu via o homem. Eu via o jeito como ele olhava para os idosos da comunidade com um respeito quase sagrado, e como o seu silêncio impunha mais ordem do que qualquer grito do meu ex-marido.
Eu estava ajudando Dona Glória. Ela se tornou meu porto seguro, uma mulher de mãos calejadas e coração imenso que parecia ler meus pensamentos.
— Ágata, querida, leve essas toalhas limpas lá para cima — Dona Glória pediu, enquant