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A festa de Livramento

carro de luxo da família Moore deslizava suavemente pelas ruas de Manhattan, deixando para trás o rastro de destruição que Evelyn acabara de plantar no altar. O silêncio dentro do veículo era quebrado apenas pelo som baixo do motor. Josh, o motorista que a vira crescer e que sempre a tratara com um carinho quase paternal, olhou pelo retrovisor com uma expressão de choque ainda estampada no rosto.

— Senhorita Evelyn... quer que eu a leve para casa? Seus pais devem estar chegando lá em breve — ele sugeriu, com a voz cautelosa.

— Não, Josh — Evelyn respondeu, limpando uma única lágrima solitária que teimava em cair, mas mantendo um sorriso gélido nos lábios. — Eu tenho uma festa para curtir. Me leve para o salão de festas. Mas vamos estacionar um pouco afastados. Quero esperar até que os convidados cheguem. Não vou deixar que todo aquele champanhe e caviar sejam desperdiçados com o luto que eu não sinto.

— Sim, senhorita. Como desejar.

Enquanto o carro se posicionava estrategicamente perto da entrada do salão, Evelyn observava o fluxo. Na igreja, o caos era absoluto. John Moore, um dos advogados mais respeitados de Nova York, estava cercado por convidados atônitos.

— John, o que faremos agora? — um sócio da firma perguntou, enquanto a confusão aumentava.

John olhou para a esposa, Ayla, que mantinha uma postura impecável, embora seus olhos brilhassem com uma mistura de fúria por Ethan e orgulho pela coragem da filha. Ela conhecia Evelyn; sabia que aquele não era um colapso nervoso, mas um plano meticulosamente executado.

— Se a minha filha quer curtir a festa, nós vamos para a festa — John declarou com autoridade. — Minha filha não vai se esconder como se tivesse feito algo errado. O erro não foi dela.

Ayla e John Moore

Cristina Parker

Ethan Reynolds

Maísa Brooks

A decisão foi tomada. A maioria dos convidados da noiva, movidos pela lealdade e pela curiosidade mórbida, seguiram para o salão. Do lado de fora da igreja, Ethan saiu arrastando Maísa pelo braço, os rostos de ambos pálidos e desfigurados pela vergonha.

— Você vai entrar naquele carro e vai dizer a verdade! — Ethan esbravejava, desesperado. — Você vai dizer que me drogou, que isso foi um plano seu para me separar dela! Evelyn tem que acreditar que eu achei que era ela na cama!

Maísa apenas chorava, mas seus olhos revelavam que o "arranjo" de dois anos não tinha sido um acidente químico, e sim uma escolha consciente de ambos.

Afastada da entrada do salão, protegida pelos vidros fumê do carro, Evelyn assistia aos convidados entrarem. Ela via os rostos chocados, os cochichos, a elite de Nova York processando o escândalo. Quando sentiu que o salão estava cheio o suficiente, ela tomou uma decisão radical. O vestido de noiva, aquele símbolo de uma pureza que fora ridicularizada, pesava como chumbo. Com movimentos ágeis e sem qualquer hesitação, ela começou a se despir dentro do carro.

Ela retirou as camadas de tule e seda, desabotoando o corpete com uma pressa libertadora. Por baixo, ela usava uma lingerie branca sofisticada: um espartilho de renda fina que desenhava suas curvas, meias sete-oito presas por ligas delicadas e o salto alto que a tornava ainda mais imponente. Ela manteve apenas o véu, preso ao cabelo perfeitamente arrumado, como uma coroa de vitória sobre o que deveria ter sido sua ruína.

Evelyn saiu do carro. A cabeça erguida, os ombros para trás. Quando seus pés tocaram o chão do salão de festas, ela deu o sinal para a banda. A marcha nupcial começou a tocar, mas desta vez em um ritmo acelerado, quase irônico. Ela entrou no salão, ergueu os braços para cima e soltou o grito que estava preso em sua garganta desde a noite anterior.

— Uhulllll! Viva a festa do livramento! — ela gritou, sua voz ecoando por cima da música.

O silêncio caiu sobre o salão por um segundo, logo substituído por aplausos e assovios. Cristina se aproximou correndo, rindo e chorando ao mesmo tempo, e as duas começaram a dançar no centro da pista, cercadas por olhares que misturavam escândalo e admiração.

No entanto, a porta se abriu bruscamente. Ethan entrou, seguido por uma Maísa desgrenhada. Ele correu em direção a Evelyn, tentando segurar suas mãos.

— Eve, amor, eu posso explicar! Foi a Maísa! Ela me drogou, eu juro! Eu estava totalmente fora de mim, eu achei que era você na cama, eu juro pela minha vida!

Evelyn parou de dançar. Ela o olhou de cima a baixo, o nojo visível em cada traço de seu rosto.

— Nem na minha festa de livramento eu me livro de você? Vai embora daqui, Ethan. Você e essa piranha que você chama de amiga.

— Foi um erro, Eve! Eu te amo! — ele insistia, as lágrimas de crocodilo escorrendo.

— Quer mesmo que eu refresque a sua memória? — Evelyn perguntou, com uma calma assustadora. Ela se aproximou o suficiente para que apenas ele ouvisse, mas sua voz carregava o peso da prova que ela ouvira no apartamento. — "Aí, Ethan... que delícia... Maísa... Você é muito gostosa, mas não esqueça que é a última vez. Só estou com você porque a Evelyn quer se casar virgem". Foi isso que eu ouvi você dizer enquanto estava em cima dela, Ethan. No seu apartamento. Na nossa véspera de casamento.

O rosto de Ethan perdeu toda a cor. Ele recuou, percebendo que Evelyn não tinha apenas fotos; ela tinha ouvido a verdade nua e crua. Os convidados ao redor, que captaram partes da conversa, começaram a vaiar. O coro de desaprovação cresceu, ecoando pelas paredes luxuosas.

Evelyn não parou por aí. Ela caminhou até uma mesa lateral, pegou um vaso de cristal alto, retirou as flores com um movimento brusco e caminhou de volta até o ex-casal.

— Já que vocês dois estão com tanto fogo, vamos apagar o incêndio — ela disse, virando o vaso de água gelada sobre a cabeça de Ethan e Maísa.

O choque da água fez Maísa soltar um grito agudo. Evelyn estalou os dedos para os seguranças da família que observavam a cena.

— Retirem esse monte de lixo e essa vadia da minha festa. Agora!

Os seguranças não hesitaram. Ethan e Maísa foram arrastados para fora sob uma chuva de vaias e risadas. Evelyn respirou fundo, olhou para a banda e gritou: — Agora que o imprevisto passou, vamos comemorar!

A festa tornou-se lendária. Evelyn dançou até seus pés doerem, bebeu champanhe como se fosse água e aproveitou cada segundo da celebração. Ela não era uma vítima; ela era a dona da própria história. No final da noite, exausta mas com a alma leve, ela se aproximou dos pais.

— Estou indo para a minha Lua de Fel — ela disse, beijando o rosto da mãe. — Até a volta.

— Filha, você tem certeza que está bem? — Ayla perguntou, preocupada. — Talvez seja melhor você tirar um tempo em casa. Você ainda tem o último ano da faculdade de Direito...

— Ele vai pagar, filha — John Moore interveio, a voz sombria. — Eu mesmo vou destruir a carreira e os negócios dele em Nova York.

Evelyn sorriu com doçura para o pai. — Não se importe com esse monte de lixo, pai. O pequeno presente que eu dei a ele na igreja já vai causar estrago suficiente. As redes sociais e os jornais farão o resto do trabalho. Eu vou aproveitar a minha viagem.

— Eu liguei para a companhia aérea e cancelei a passagem dele — John explicou. — Mas se eu fosse você, iria para outro lugar. Se ele resolver ir atrás de você para tentar se redimir...

— É por isso que eu mesma mudei o destino antes de vir para a igreja — Evelyn revelou, piscando para o pai. — Eu planejei tudo enquanto o cabeleireiro terminava o meu penteado.

— Descanse, minha filha — John disse, abraçando-a. — Você merece.

Evelyn pegou suas malas, que já estavam no carro, e Josh a levou para o Aeroporto JFK. Ela não ia para Paris, como planejado originalmente. Ela ia para um lugar onde ninguém a conhecia como "a herdeira Moore" ou "a noiva traída". Ela iria passar quinze dias longe de tudo, refazendo-se da dor causada por Ethan, mas também tentando entender o que aquele estranho de costas largas e perfume de sândalo tinha despertado nela.

Enquanto o avião decolava e as luzes de Nova York se tornavam pequenos pontos brilhantes abaixo dela, Evelyn Moore fechou os olhos. A virgindade que ela guardara como um tesouro fora entregue a um desconhecido, e o homem que ela amava era um monstro. Mas, estranhamente, ela não se sentia quebrada. Ela se sentia livre. A jornada para sua nova vida estava apenas começando.

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