Mundo de ficçãoIniciar sessãoRio de Janeiro | Brasil
Decidi ficar no Morro do Coiote para ensinar aqueles garotos a resistir com ginga e inteligência em vez de se entregarem ao tráfico, mas o sangue quente escorrendo pela minha camisa e o segundo tiro passando a centímetros da minha cabeça me lembraram, no mesmo instante, que a favela cobra caro de quem tenta mudar o jogo de dentro. Um garoto de uns quinze anos, magrelo, camisa do Flamengo suja de terra e suor, saiu correndo do portão enferrujado da Escola Municipal Professora Maria Clara com os olhos arregalados de pavor puro. Atrás dele, dois caras numa moto preta, um deles com o rosto escondido sob o boné abaixado, abriram fogo de novo. Pá! Pá! O primeiro tiro acertou a coxa direita do moleque. Ele caiu de joelhos no meio da rua estreita, gritando de dor, as mãos apertando a perna enquanto o sangue já manchava a calça. O segundo tiro passou tão perto da minha orelha que senti o deslocamento de ar quente e o estilhaço do vidro de uma janela explodindo atrás de mim. O caos foi instantâneo. Portas bateram, mães gritaram pelos filhos, gente correu para dentro das casas como se o tiro fosse rotina — e, naquele morro, era. Naquela hora meu corpo não pensou. Agente de Forças Especiais americanas não pensa quando o tiro começa; reage. Corri até o garoto caído, agarrei o braço magro dele e o arrastei para trás de um muro baixo de concreto rachado, usando meu próprio tronco como escudo. O cheiro metálico do sangue dele subiu forte, misturado ao de esgoto e ao pó da rua. Pressionei a ferida na coxa com as duas mãos, sentindo o calor viscoso molhar os dedos e a camisa. O moleque tremia inteiro, dentes batendo, lágrimas escorrendo pela cara suja. — Calma, mano. Fica quietinho. Respira fundo. Olha pra mim — falei baixo, a voz firme que eu usava para manter soldados vivos sob fogo. Meus olhos verdes fixaram os dele. — Você não vai morrer aqui. Não hoje. Os caras da moto circularam uma vez. O de boné me olhou por um segundo a mais. Vi a hesitação. Alto, tatuado, cicatrizes no rosto, postura de quem já matou e não treme — eu não parecia morador. Deviam ter achado que eu era polícia infiltrada ou algo pior. Aceleraram e sumiram ladeira acima, o ronco do motor se afastando entre os gritos. O barulho das motos sumiu, mas os choros e as maldições continuaram. O garoto me encarava ofegante, a voz fraca: — Cê… cê não é daqui, né? — Eu era. Há muito tempo. Uma multidão começou a se formar. Alguém gritou por ambulância, mas todo mundo sabia que demoraria horas, se viesse. Uma mulher, a mãe, chegou correndo desesperada, se jogou em cima do filho, gritando o nome dele — “Pedro! Pedro!” — enquanto tentava afastar minhas mãos sujas de sangue. Eu me afastei devagar, as palmas vermelhas, o coração batendo forte no peito como nos velhos tempos de emboscada. O joelho direito ainda tremia levemente da adrenalina. Olhei para a escola caindo aos pedaços, para o menino sangrando no chão sujo, para as faces assustadas nas janelas, e algo dentro de mim quebrou de vez. Eu não ia embora. Passei a mão no rosto, sentindo o cheiro metálico impregnado na pele. Lembrei da minha mãe, capoeirista raiz, gingando no quintal de madeira da nossa casa, o berimbau soando baixo enquanto ela me corrigia a postura. “A capoeira não é só briga, Louis. É resistência. É vida. É não se entregar.” A voz dela ainda ecoava na memória, mesmo depois da morte. Talvez essa fosse a hora de colocar aquelas palavras em prática. Eu tinha voltado para enterrar o que restava dela. Agora entendia que o enterro verdadeiro era outro. Entrei na escola pelo portão torto. O diretor, um homem cansado de uns cinquenta anos, cabelo grisalho, camisa amarrotada, me recebeu na sala pequena cheia de papéis e cheiro de café velho. Quando me apresentei — Louis, ex-aluno, ex-soldado das Forças Especiais americanas, de volta depois de dezoito anos — o olhar dele passou das cicatrizes no meu rosto para a mancha de sangue na camisa e voltou para meus olhos verdes. — O que o senhor quer exatamente? — Quero dar aulas de capoeira de graça. Para os piores. Os que ninguém mais quer. Os que já estão com um pé no tráfico. Ele riu sem graça, descrente, e se recostou na cadeira rangendo. — Seu Louis, aqui não é zona de guerra americana não. Aqui é mil vezes pior. Os meninos tão perdidos. Tem crack, maconha, roubo, envolvimento com o tráfico desde os doze anos. Não entra nisso ou cê vai se foder, meu irmão. De verdade. Eu olhei pela janela empoeirada. No pátio, três moleques fumavam no canto, olhar vazio, uma AK-47 apoiada na parede como se fosse brinquedo. O sol da tarde batia nas pichações de facção. Minhas mãos ainda sujas de sangue apertaram o parapeito. — Talvez eu precise me foder mesmo — respondi, a voz baixa e firme. — Mas não vou embora. Vou ensinar esses garotos a lutar de outro jeito. Com ginga, com malícia, com inteligência. Capoeira não é só chute. É estratégia. É cultura. É principalmente não se entregar. O diretor me olhou por um longo tempo. O silêncio pesou. Depois suspirou, passando a mão no rosto cansado. — Tá bom. Pode tentar. Mas não diga que eu não avisei. O Silverio não vai gostar de ver alguém mexendo com os moleques dele. Silverio. O nome soou familiar, um eco distante de quando eu ainda era moleque. Eu ainda não fazia ideia de quanto aquele nome ia custar caro. Apenas anotei mentalmente, como se anota um alvo em missão. O diretor me indicou um quarto para alugar no segundo andar de uma casa mais abaixo, pertinho da escola. Quando saí, o sol já se punha atrás do morro, pintando tudo de laranja e vermelho sangue. A camisa colada no peito ainda molhada, o cheiro metálico subindo a cada respiração. Caminhei devagar pela ladeira, sentindo os olhares nas minhas costas, o peso da mochila militar no ombro esquerdo, a cicatriz latejando. O funk voltava ao longe, grave e insistente. Luzes começavam a acender nas casas grudadas. Eu respirei fundo o ar quente e sujo, sentindo o gosto de pólvora e esgoto na língua, e pensei: eu tinha voltado para casa. Mas o problema era que eu ainda não sabia o preço. Na curva da rua, um moleque de uns doze anos me encarou de cima de uma laje, o celular na mão apontado na minha direção, e gritou para alguém que eu não via: — Avisa o Silverio. Chegou um gringo alto de olho verde. Tá mexendo com os cria.






