A noite no Coiote não era só escuridão. Era um animal que respirava. O ar quente e úmido grudava na pele, misturando cheiro de esgoto, fritura de bar e maconha que subia das bocas de fumo. Eu voltava da escola depois de guardar os berimbaus e as roupas de capoeira, a mochila pesada no ombro, o corpo ainda suado do treino. Anos de disciplina militar me faziam andar em silêncio, mas o silêncio daquela noite era diferente. O funk que sempre martelava as paredes sumiu de repente. As motos pararam. Até os cachorros magros se calaram. Meu instinto, aquele que sobreviveu a emboscadas no Afeganistão e a tiroteios em lugares sem nome, gritou antes que eu viesse a ver. Eles saíram da viela estreita como se a sombra tivesse parido. Dois homens grandes, pistolas aparentes na cintura, rostos fechados de quem já matou por ordem. E no meio, ele. Silverio Oliveiras. Alto, pele negra retinta, músculos marcados por academia e por brigas de rua, cabelo raspado, barba aparada com precisão, corrente de o
Ler mais