CAPÍTULO 3 UM BRINDE POR ELA

Quando finalmente terminou a sessão, Margaret sentiu que podia descansar. Mas não foi assim. Enquanto terminava os relatórios, Ethan invadiu o escritório dela.

— Vejo que a senhora é muito comprometida com o trabalho. Que bom saber disso, soube por alguns meninos que no passado foram abandonados por aqueles em quem acreditavam.

— É uma pena que existam pessoas assim. Mas eu sou diferente, meu pai diz que comigo quebraram o molde. O que você tá fazendo aqui, posso te ajudar em alguma coisa?

— Estou aqui porque quero saber se posso te mostrar uma coisa — perguntou, a voz mais baixa do que o habitual.

Margaret assentiu, intrigada. Ethan abriu o caderno, revelando um esboço a lápis: um girassol, detalhado e vivo, com um fundo de sombras que pareciam sussurrar uma história oculta.

— Você desenhou isso? — perguntou, surpresa com a profundidade do traço.

— É só… fiz ontem à noite porque não conseguia dormir — admitiu ele, coçando a nuca, nervoso —. Queria que a senhora visse. Não sei por quê, mas achei que ia gostar.

Margaret sentiu um nó no peito. Aquele desenho não era só um girassol; era o reflexo de algo que Ethan não se atrevia a dizer com palavras.

— Ethan, isso é incrível — disse, a voz suave mas firme —. Você tem um talento que não deveria esconder. Se algum dia quiser compartilhar mais, não só desenhos, mas o que carrega dentro… eu vou estar aqui.

Por um instante, os olhares se encontraram, e o ar entre eles se carregou de uma tensão que nenhum quis nomear. Ethan assentiu, guardou o caderno e foi embora, deixando Margaret com uma certeza inquietante: algo nele estava prestes a transbordar, e ela, quisesse ou não, estava destinada a fazer parte daquela tempestade.

***

Dois anos depois.

O tempo tinha jogado suas cartas como só ele sabia. Ethan já não era aquele menino rebelde que cometia idiotices pra chamar atenção. Agora se mostrava como um homem centrado, disciplinado e decidido.

Margaret, por sua vez, continuava fiel aos princípios: ser a melhor profissional, sem permitir que nada nem ninguém interferisse no caminho dela.

— Que manhã maravilhosa! — exclamou ao se levantar. Os olhos se detiveram no calendário que pendia na parede, e uma pontada de nostalgia se filtrou no peito —. Obrigada por mais um ano… hoje vai ser um grande dia. — Se olhou no espelho do banheiro e murmurou com firmeza —: Você se saiu bem, Margaret. Não foi fácil, mas você merece tudo de grandioso que a vida tiver preparado. Vai atrás de mais.

O dia dela se desenrolou entre pequenos prazeres: uma ligação dos pais lamentando não estarem ao lado dela, um café da manhã requintado num dos restaurantes mais sofisticados de Santa Mônica, uma sessão relaxante de spa, uma passagem pelo salão de beleza e, finalmente, a compra de um terno elegante novo.

Enquanto Margaret se consentia, no centro de reabilitação se organizava uma celebração em sua honra.

— Nossa, Ethan — disse Marcus em tom de gozação, embora no olhar brilhasse a surpresa —. Nunca pensei que você ia deixar de ser aquele desleixado pra virar um estudante aplicado e responsável. Embora eu desconfie que suas intenções não são totalmente inocentes.

Ethan sorriu com calma.

— Meu querido amigo, ela merece isso e muito mais. Tudo o que eu sou hoje eu devo a ela. Não vou negar, no começo eu quis dificultar a vida dela… mas ela acabou mudando o meu mundo.

Ethan estava decidido: Margaret era a dona do coração dele. Rosaura já não existia na memória. O único que ele anhelava era que Margaret se apegasse a ele com a mesma intensidade com que ele se apegara a ela. E, como num jogo de xadrez, se dispunha a iniciar a partida.

— Isso é verdade — assentiu Marcus, observando o amigo com certo orgulho —. Você largou o álcool, não se meteu mais em problemas, cortou as festas, é padrinho do centro e até busca opções universitárias. Se me contassem, eu não acreditava: aquela mulher fez um milagre.

— Ela impediu que meus demônios me devorassem — respondeu Ethan com voz grave —. Agora vamos, ela não vai demorar.

— Já entendi — riu Marcus, erguendo as mãos em rendição —. Você tá perdidamente apaixonado. Acho que só me resta aceitar fazer parte dessa pieguice.

— Para de reclamar. Você vai ter sua recompensa: a mansão vai ser sua pra organizar a festa.

— Yes! — exclamou Marcus, empolgado —. Prometo que não vou fazer estragos.

Ethan arqueou uma sobrancelha.

— Duvido, mas tá bom. Agora vamos concentrar no que importa.

Enquanto os preparativos se afinavam, Margaret cumprimentava o vigilante ao entrar no prédio.

— Bom dia, Robert. Como você tá? E a família, tudo bem?

— Senhorita Margaret! Que prazer te ver. Tá radiante.

— Bom, trinta e três anos não se fazem todos os dias — respondeu ela com um sorriso brincalhão.

— Hoje é seu aniversário? Me desculpa, eu não sabia.

— Não se preocupa, quase ninguém sabe.

Robert improvisou, cantarolando com entusiasmo:

— Happy birthday to you, happy birthday to you, happy birthday, Margaret, happy birthday to you. Que o seu dia seja cheio de amor.

Ela soltou uma risada leve.

— Você foi muito carinhoso, Robert. Esses detalhes são os que eu mais valorizo.

Comovida, se despediu e entrou no escritório. Mal abriu a porta, uma explosão de vozes e aplausos a envolveu:

— Surpresa!

Margaret ficou sem palavras.

No meio de balões, flores e uma enorme mesa com bolos e petiscos, os rostos dos colegas irradiavam alegria. Mas entre todos, havia um olhar que a queimava em silêncio: o de Ethan.

Ele não se afastava dela nem por um instante, como se cada gesto, cada sorriso e cada movimento fossem peças de um quebra-cabeça que só ele sabia montar.

Margaret sentiu um leve estremecimento. Podia perceber aquela intensidade, aquela força escura que latejava nos olhos de Ethan. Sorriu pra disfarçar, agradecendo a todos com gratidão sincera, embora no fundo se perguntasse até que ponto aquele “novo Ethan” tinha realmente mudado.

Quando a confusão se acalmou, Ethan se aproximou com uma taça na mão e uma determinação que endurecia as feições.

— Vamos brindar — disse, erguendo a taça com voz segura, sem desviar o olhar dela —. Pela mulher que me salvou a vida, a que me devolveu a fé e que merece muito mais do que o mundo pode dar.

Os presentes aplaudiram, enternecidos. Margaret, ao contrário, sentiu um nó na garganta. Aquele discurso, pronunciado com tal intensidade, parecia destinado só a ela… e algo no interior dela avisava que Ethan não pararia até reclamar o que acreditava ser seu.

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