Mundo de ficçãoIniciar sessão
O salão cheirava a madeira, com o sol da tarde entrando pelas persianas. Margaret Smith, com a postura firme e um sorriso que irradiava calor, se apresentou ao grupo.
— Boa tarde, pessoal. É um prazer trabalhar com esse novo grupo. Sou Margaret Smith, professora na Pacifica Christian High School e psicóloga. Já faço três anos de colaboração neste centro de apoio e, a partir de hoje, vou acompanhar vocês nos processos de reintegração — disse com um sorriso caloroso —. Como não quero sobrecarregar ninguém no nosso primeiro encontro, que tal a gente se apresentar com cinco qualidades que nos definem?
— Outra que quer conquistar a gente com “boas intenções” — exclamou Ethan, olhando de soslaio.
— Temos um entusiasta aqui! — replicou ela com firmeza, aproximando-se até ficar bem na frente dele —. Já me falaram de você: o típico “rei do mundo” que sempre precisa chamar atenção. Me diz, você não cansa de fazer o mesmo papel?
— Não. Eu curto — respondeu com orgulho.
— Perfeito. Se você quiser repetir a mesma conduta uma e outra vez, sem problema. Só te peço um favor: não me faça perder tempo.
O comentário provocou um murmúrio entre os colegas, o que irritou ainda mais Ethan.
— Vamos ver quanto tempo você aguenta — disse em tom desafiador.
— Fica tranquilo — respondeu Margaret com compostura —. Vou ficar por aqui por muito tempo. Acredite, já lid ei com muitos iguais a você, e você não vai ser a exceção.
— Isso a gente vai ver.
Se tinha uma coisa que Ethan detestava, era se sentir desafiado. Ele era um Pirs e estava acostumado a que nada lhe fosse negado. Naquele dia tomou uma decisão: faria Margaret pagar pelo atrevimento.
Quando a sessão terminou, ele se aproximou dela.
— Senhorita, espera, eu queria falar com a senhora — disse com um sorriso falso.
— Claro, ainda tenho tempo — respondeu ela, embora sentisse que as intenções dele não eram genuínas. Sua paixão por ensinar sempre a fazia conceder mais um espaço —. Em que posso te ajudar?
— Vou ser direto — tirou o talão de cheques com gesto arrogante —. Quanto a senhora quer pra ir embora daqui? Eu sou um Pirs, herdeiro de uma fortuna enorme. Uma simples professora e psicóloga de quarta categoria não deve custar muito.
— Você é um…! — Margaret inspirou fundo, controlando a fúria —. Cai fora! Dessa vez eu vou esquecer a ofensa, mas não me provoque de novo.
— Já! Não tem nada pra perdoar. Eu conheço as da sua laia: fingem doçura, mas na real são umas vadiazinhas.
O desprezo nas palavras dele inflamou Margaret.
— Já chega! — deu um tapa forte nele —. Quem diabos você pensa que é?!
— E quem a senhora pensa que é? — espetou com o olhar em fogo —. Isso não vai ficar assim, eu vou te denunciar.
— Manda ver. Eu também tenho minhas armas. Em todos esses anos de trabalho nunca tive um problema sequer. Já você é… — fechou os olhos por alguns segundos, contendo a raiva —. Você é o cara que ninguém aguenta, o que todo mundo evita. Em quem você acha que vão acreditar?
— A senhora não sabe nada de mim! — gritou Ethan, embora no fundo aquelas palavras o atravessassem como facas.
— Sei o suficiente: seus atos falam por você. E escuta bem: alguém como você jamais vai manchar minha reputação.
Com passo firme, Margaret subiu no carro e foi embora, deixando Ethan com os punhos cerrados e o orgulho em pedaços.
— Idiota…! — rugiu entre os dentes —. Eu vou virar o seu pior pesadelo, você vai ver.
Cheio de fúria, caminhou até seu bar favorito. Pediu um uísque e bebeu de um gole só.
— Com que direito ela falou assim comigo? — rosnou enquanto esmagava o copo no chão.
O barman, um homem que já conhecia os ataques de Ethan, observou com calma.
— Tá bem, pequeno? — perguntou, limpando o balcão com um pano.
Ethan o fulminou com o olhar.
— Me fala a verdade. Você acha que eu sou um perdedor?
O barman suspirou, apoiando-se no balcão.
— Depende. Você é jovem, bonito, com uma fortuna que muita gente invejaria. Mas… — fez uma pausa, medindo as palavras — um perdedor é alguém que não valoriza os beijos da mãe, os conselhos do pai, as carícias de uma amante ou a lealdade de quem esteve nos piores momentos.
As palavras se cravaram em Ethan como agulhas. Pediu outro drink, dessa vez dobrado, e bebeu com a mesma fúria. Deixou um punhado de notas no balcão e saiu cambaleando, sem destino. A imagem de Margaret piscava na mente dele, a voz dela ecoando como um eco implacável.
— Por que ela? — murmurou entre os dentes.
As ruas o levaram a um clube noturno, onde o ritmo pulsante e as luzes cegantes prometiam uma fuga. Na entrada, uma mulher de olhos escuros e lábios carnudos se aproximou, rebolando com uma sensualidade calculada. Ethan a puxou para perto, o hálito quente roçando o pescoço dela.
— Quer que eu te leve à glória? — sussurrou, mordendo o pescoço dele.
— Se você pagar bem, pode fazer comigo o que quiser — respondeu ela, levando a mão dele à calça.
Em segundos estavam num quarto escuro. Ethan a devorava com fúria, arrancando a roupa, beijando sem compaixão. Mas cada vez que fechava os olhos, a voz de Margaret o perseguia, os passos dela o alcançavam.
— Merda! — se afastou de súbito, ofegante.
— O que foi? — perguntou ela, tentando se aproximar.
— Desculpa. Não consigo continuar. Não se preocupa, eu te pago o que quiser.
Ethan se vestiu rápido, enfiou a carteira no bolso de trás e, sem olhar para trás, deixou um maço de notas na mesinha de cabeceira. A mulher, ainda enrolada nos lençóis, não disse nada. Ele também não. Com passos rápidos, abandonou o hotel e dirigiu o esportivo até a mansão em Bel Air, que lhe parecia fria; mesmo assim voltou para o escritório, indo direto ao minibar que parecia ser o único refúgio que ele reconhecia.
— De novo vai se afogar em uísque? — A voz grave de Alan, seu homem de confiança, quebrou o silêncio. Aproximou-se com passos firmes, o olhar carregado de preocupação —. O que te deixou assim, Ethan? Outra briga com seu pai?
— Meu pai não passa de um desgraçado. Não é nada pra mim; ele matou a mamãe, me tirou tudo o que pôde. Não passa de lixo — tão grande era a ira que apertou o copo com força até quebrá-lo.
— Já chega! Você curte viver desse jeito mesmo? Eu sei que você sente a perda da sua mãe, ela era uma grande mulher, e sei que o que você viveu com a Rosaura te transtornou, mas já faz mais de um ano. Tenta se reconstruir, ou você não se salva do abismo.
— Você acha que eu sou feliz desse jeito? Pra sua informação, até eu me detesto. Tudo o que eu faço é pra receber um pouco de atenção, me sentir valorizado. Já! Que patético eu sou.
— Garoto — colocou a mão no ombro direito dele —, você sabe muito bem que pra mim você é como um filho.
— Alan, você me aguentou esse tempo todo porque meus avós te pediram.
— Não é assim, e você sabe. Olha o Marcus, ele te adora como se fosse irmão. A Matilde te vê como neto. Cada um de nós que trabalha pra você é sua família.
— Família? Você acha que um dia eu vou ter uma? — Apoiou a cabeça no peito dele e não conseguiu mais segurar o choro —. Às vezes eu sinto falta dela. Eu sei que ela me destruiu, que pra ela eu sou descartável, mas eu juro, teve momentos em que eu senti que ela me amava. Por que ela me feriu desse jeito?
Alan o segurou com força, como se quisesse ancorá-lo na realidade.
— Ethan, a Rosaura nunca te amou. Só te manipulou. É uma víbora, tão quebrada que corrompe tudo o que toca. Mas você… você tem um futuro. Pode mudar. Não desiste agora.
— Você tem razão; eu não posso continuar assim — se levantou.
— Por que não aproveita os grupos de ajuda? Talvez lá você consiga tirar todas essas tempestades que te agitam tanto.
— É, talvez amanhã seja melhor — Ethan foi para o quarto, e a cada passo que dava, ela se fazia presente —. Raio! Não tem como negar, ela é hipnotizante. Talvez… eu tenha agido como um idiota completo.







