Mundo de ficçãoIniciar sessão
Mônaco, Le Masque.
09/Junho/2023, 23h40.O som que reverbera pelas paredes de veludo é um dark progressivo denso, com batidas que não se ouve, se sente no plexo solar. Mas o que faz meu sangue latejar não é a música. É a antecipação.
Desço a escada em caracol sentindo o cheiro de luxo, suor e segredos que só um lugar como o Le Masque consegue esconder. Ajusto a minha máscara de cetim preto. Ela me dá o anonimato que eu preciso para ser o canalha que o mundo dos negócios não me permite ser abertamente.
O salão se abre diante de mim, um mar de corpos mascarados e luxúria contida. Mas meus olhos, treinados para detectar o que é valioso, ignoram o mármore e o cristal. Eles travam nela.
Lá está ela. Possuindo aquela pista. Sozinha.
O suor faz o cabelo escuro grudar na nuca de um jeito que me dá vontade de passar os dedos ali e puxar, só para ver se ela me enfrentaria com a mesma audácia com que encara o vazio.
O vestido de lantejoulas prateadas parece metal líquido que abraça suas curvas e o decote em V é um convite perigoso, mas são as costas nuas, descendo até aquela cintura insultuosamente estreita, que me fazem travar o maxilar.
Himmel, Arsch!... (Puta Que o Pariu!) aquela bunda. Arredondada, firme, um monumento à tentação que se move com uma cadência que me faz esquecer como se respira. É uma silhueta escultural, poderosa, que grita que ela é dona de si mesma.
Observo de longe, encostado a uma coluna, com os braços cruzados e um sorriso cínico que a máscara esconde. Vejo um idiota tentar a sorte. Ela o descarta com um gesto seco, sem nem perder o ritmo.
Atrevida. Gosto disso.
Adoro mulheres que sabem dizer "não", porque torna o "sim" muito mais saboroso.
Ela dança para si mesma, sem pedir permissão, sem buscar olhares. E é exatamente essa independência que me irrita e me atrai como um imã. Sinto o calor subir pelo meu pescoço.
Quero ver o que acontece com essa pose de intocável quando eu decidir que o tempo dela de dançar sozinha acabou. Afasto a máscara apenas para ajustar o foco, sem desviar os olhos do corpo por um segundo sequer. Não avanço.
Ainda não.
Sou um estrategista, e estou saboreando o momento antes do ataque.
Permaneço ali, no limite entre a sombra e a luz da pista, sentindo o desejo estalar como eletricidade. Ela ainda não me viu, mas eu já decidi: hoje à noite, ela vai descobrir que encontrou alguém tão implacável quanto.
Mantenho meu copo de whisky em uma mão, sentindo o frio do cristal contra a palma, enquanto a outra repousa no bolso da calça do meu terno sob medida. A máscara de cetim aperta levemente as têmporas, mas o leve desconforto me mantém focado. Meus olhos não saem dela.
O modo como os quadris se movem, uma fluidez que não parece vir de esforço, mas de instinto, desequilibra a ordem desse salão. As lantejoulas desenham a curva da sua bunda a cada passo lateral, e eu me pego apertando o copo com mais força do que o necessário.
Um homem de máscara dourada tenta se aproximar, tocando seu braço. Vejo a rapidez do seu reflexo. Ela não recua como uma vítima; ela se esquiva como uma predadora que não quer ser incomodada. O modo como mal olha para ele, mantendo o queixo erguido e os olhos perdidos na própria dança, faz meu maxilar travar.
Atrevida.
Ela termina um movimento, girando o corpo, e por um milésimo de segundo, o olhar varre a penumbra onde eu estou. Eu não me movo. Não recuo para as sombras. Deixo que ela sinta o peso do meu escrutínio. Quero que ela saiba que está sendo caçada, não por um amador, mas por alguém que entende exatamente o que essa sua autoconfiança esconde.
Tomo um gole do whisky, o líquido queimando a garganta e alimentando o fogo que começou a arder no meu baixo ventre desde que a vi. Sua respiração parece mais pesada agora, o peito subindo e descendo sob o decote profundo, e eu me pego acendendo por dentro se é pelo cansaço da dança ou se ela finalmente percebeu que a temperatura ao seu redor subiu alguns graus por minha causa.
Largo o copo em uma mesa lateral, sem desviar os olhos da sua nuca. Dou o primeiro passo para fora da proteção da coluna. O som do meu sapato de couro no chão de mármore é engolido pela batida, mas eu sei que ela vai sentir minha aproximação. A distância entre nós encurta.
Cinco metros.
Três.
Paro exatamente atrás dela, perto o suficiente para que o calor do meu corpo invada o seu espaço pessoal, mas sem tocar. O cheiro da sua pele, algo doce misturado ao sal do suor, me atinge como um soco.
"É um desperdício de talento dançar sozinha em um lugar onde todos matariam por um segundo da sua atenção", digo, minha voz saindo baixa, um barítono que vibra rente ao seu ouvido, cortando o som do clube. "Ou talvez você só não tenha encontrado alguém à altura do seu ritmo."
Inclino levemente a cabeça, observando de perto como a luz do clube atinge a linha da sua mandíbula. Estou esperando. Quero ver se ela vai fugir, se vai se curvar ou se vai ter a petulância de me enfrentar como eu espero que faça.
"Bonita a frase. Estava ensaiando na frente do espelho ou saiu natural?", ela diz e simplesmente sai dançando sem nem se preocupar se eu ouvi.
Um sorriso lento e perigoso surge nos meus lábios, e mesmo oculto pela máscara, meus olhos não escondem o brilho de puro deleite diante desse coice.
Ela é insolente. Eu deveria estar irritado por ser ignorado enquanto ela continua a se mover, mas a indiferença é o combustível mais potente que ela poderia ter jogado no meu fogo.
Dou mais um passo, reduzindo a distância a quase nada. Sinto o calor que emana da sua pele, o rastro de suor que brilha suavemente nas suas costas nuas, e o desejo de passar a língua por aquela curva pecaminosa me atinge como um soco no estômago. Mantenho as mãos nos bolsos, mas meus dedos se fecham em punhos, lutando contra o impulso de segurar sua cintura e interromper esse movimento que ela usa para me desdenhar.
"Saiu tão natural quanto a sua necessidade de fingir que a minha presença não te afeta", respondo, minha voz agora um sussurro rouco, quase fundindo-se à batida grave da música. "O espelho é para os narcisistas. Eu prefiro observar o real. E o que eu vejo aqui é uma mulher que usa o sarcasmo como escudo porque sabe que, se parar de dançar, não vai conseguir desviar o olhar do meu por mais de dois segundos."
Eu não recuo. Pelo contrário, inclino-me um pouco mais, deixando que minha respiração atinja a pele sensível logo abaixo da sua orelha, onde o cabelo está preso. Consigo ver os pequenos pelos do seu braço se arrepiando.
"Continue dançando", provoco, o tom carregado de uma autoridade sombria. "Adoro ver como você tenta manter o controle enquanto eu invado o seu espaço. Mas cuidado... no meu mundo, quem desafia o predador acaba aprendendo a gostar da caça."
Mantenho meu olhar fixo no perfil do seu rosto, esperando a próxima faísca. Ela não é como as mulheres da Renânia que baixam os olhos diante do meu sobrenome. Ela é o caos em lantejoulas prateadas, e eu estou começando a achar que domá-la vai ser o ponto alto da minha estadia em Mônaco.
"Pode ficar com a pista pra você."
Observo o movimento fluido e decidido com que ela se afasta, deixando-me para trás com uma frase curta que carrega mais desdém do que qualquer insulto direto. O modo como seus quadris balançam sob o brilho prateado do vestido enquanto ela caminha em direção ao bar é uma afronta que faz meu sangue circular mais rápido.
Maldita petulância.
Eu deveria simplesmente deixá-la ir e buscar alguém que saiba apreciar a hierarquia natural deste lugar. Mas o controle, para mim, é um vício, e ela acabou de chutar a porta da minha zona de conforto. Sigo seus passos, mantendo uma distância que me permite apreciar a linha impecável das suas costas, até que ela se encosta no balcão e faz o seu pedido.
Paro ao seu lado, invadindo seu espaço pessoal com uma proximidade que a maioria das pessoas consideraria intimidante. Não me sento. Fico de pé, a mão esquerda no bolso da calça, observando o barman preparar a bebida.
"Um Mojito?", minha voz sai baixa, carregada de um sarcasmo cortante. "Esperava que alguém com essa postura de quem é dona do mundo escolhesse algo com mais personalidade. Ou talvez o açúcar seja apenas um contraste necessário para esse seu temperamento... ácido."
Faço um sinal quase imperceptível para o barman, indicando que a conta é minha, sem desviar os olhos dela por um segundo sequer. Analiso a forma como segura o copo, a força nos seus dedos, a sua respiração que, apesar da pose, parece um pouco mais acelerada agora.
"Fugir da pista não vai fazer eu me interessar menos pelo que você está tentando esconder atrás desse seu ar de superioridade", continuo, inclinando-me levemente em sua direção.
O cheiro da sua pele agora é mais nítido, misturado à hortelã da bebida, e isso me irrita profundamente porque eu quero mais do que apenas o cheiro.
"Diga-me... você costuma dar as costas para tudo o que te desafia ou eu sou o primeiro homem aqui que conseguiu te deixar sem palavras?", observo o modo ela pega o copo de drink e como seus lábios envolvem o canudo, a sucção leve, o movimento da garganta enquanto engole... cada detalhe é uma provocação visual que ela finge não estar fazendo.
Ela inclina a cabeça, apenas o suficiente para me enquadrar na sua visão, o descaso na sua voz é quase palpável.
"Aquilo era um desafio? Desculpe, eu não percebi."
A audácia dessa mulher é um insulto delicioso. “Eu não percebi.”
Solto uma risada curta, sem nenhum humor, apenas a constatação de que encontrei exatamente o que não sabia que estava procurando: um problema à minha altura.
Reduzo o espaço entre nós até que o meu terno toque levemente a lateral do seu braço. Sinto o calor que emana dela, um contraste violento com a frieza do mármore do bar.
"Não precisa mentir para mim. Seus olhos dizem o contrário enquanto você mede a distância exata para me manter por perto", respondo, minha voz descendo um tom, tornando-se uma vibração grave que sei que ela sente na pele. "E sim, foi um desafio. Mas se você não percebeu, é sinal de que preciso ser menos sutil. Eu não gosto de desperdiçar tempo com sutilezas quando o que eu quero está bem na minha frente."
Levo minha mão ao balcão, perto do seu copo, mas sem tocá-la. Meus olhos fixam-se nos dela através das máscaras, uma conexão que parece queimar o oxigênio entre nós.
"Você tem essa pose de quem não se impressiona com nada, mas sua pulsação aqui..." estendo o indicador e, com uma audácia calculada, toco a base do seu pescoço por apenas um segundo, sentindo a batida acelerada do seu sangue contra a ponta do meu dedo antes de afastar a mão "...diz que você está bem ciente de cada centímetro que eu avanço."
Aperto o maxilar, lutando contra o impulso de segurar seu queixo e forçá-la a encarar a intensidade do que estou sentindo.
"Me diz uma coisa: você costuma ser tão teimosa ou só está tentando ver até onde vai a minha paciência? Porque eu garanto... eu tenho toda a noite, e paciência é uma virtude que eu só exerço quando o prêmio vale o esforço."
"E eu sou um prêmio que vale o esforço?" O movimento que ela faz, virando-se de frente para mim pela primeira vez, é a confirmação de que o jogo finalmente começou.







