LEILÃO DE SANGUE  VENDIDA PELO  INIMIGO, COMPRADA PELO SHEIK
LEILÃO DE SANGUE VENDIDA PELO INIMIGO, COMPRADA PELO SHEIK
Por: Hagar Rodriguez
PRÓLOGO

O Último Aniversário.  

O Imperial Milano parecia feito para momentos inesquecíveis.  

Lustres de cristal derramavam luz dourada sobre mesas impecáveis. Rosas brancas e orquídeas misturavam perfume doce ao aroma dos pratos e às notas do piano. Pelas janelas, o sol de Milão incendiava carros de luxo como promessas.

Na mesa junto ao vidro, Ariana Romano sorria.  

Não era educado. Nem contido.  

Era daqueles que transbordam quando a felicidade não cabe no peito.

Dezoito anos.  

A idade que o pai sempre citou quando dizia que ela entraria no mundo como mulher, não como herdeira.  

Chegou. E ela estava onde queria: entre os dois que mais amava.

— Para de me olhar assim — Ariana apontou o garfo para a mãe. — Me deixa nervosa.  

Isabella levou a mão ao peito, teatral.  

— Olho para minha filha. Tenho autorização legal.  

— Não desse jeito. Como se eu fosse embora amanhã.  

Isabella riu baixo, olhos brilhando.

Lorenzo observava em silêncio.  

O homem que fazia a Itália engolir seco era outro ali.  

Não existia o chefe da organização Romano.  

Só um pai. Orgulhoso. Apaixonado pela filha.

— Sua mãe chora desde o café — disse ele. — Chorou escolhendo o vestido. Chorou vendo suas fotos.  

— Lorenzo!  

— Chorou na sobremesa também — acrescentou Ariana. — Quatro vezes.  

— Foram três.  

— Quatro.  

— Três.  

Os três riram. Leve. Quente. Familiar.  

Por minutos, o mundo sumiu. Sem negócios. Sem máfia. Só família.

Ariana olhou os pais. O pai segurava a mão da mãe sobre a mesa, gesto antigo. Como se ainda fosse o garoto que se apaixonou por Isabella.  

Talvez fosse.

— O que foi? — Isabella notou.  

— Nada. Só pensei que tenho sorte.  

O silêncio foi breve, mas denso. Isabella marejou. Lorenzo desviou o rosto para a janela. Hábito antigo quando a emoção batia forte.

— Não — a voz dele saiu rouca. — Nós é que temos sorte. Você foi a melhor coisa da nossa vida. Desde o primeiro choro, mudou tudo.  

Ariana piscou rápido. Perdeu.  

— Papai...  

— É verdade — ele segurou a mão dela. — Cada dia.  

— Agora ela chora também — Isabella riu entre lágrimas.  

— Culpa sua. Você começou.  

O garçom trouxe uma caixa com fita dourada.  

— Seu presente — disseram juntos.  

Dentro, um colar de diamantes e esmeraldas. No verso do pingente:  

_Para nossa eterna princesa._  

_Com amor,_  

_Mamãe e Papai._  

Ariana levou a mão à boca.  

— Eu amo vocês — sussurrou.  

Isabella a abraçou. Lorenzo fechou o círculo.  

Os três. Inteiros.  

Sem saber que eram os últimos segundos inteiros que teriam.

Uma hora depois, o Imperial ficou para trás.  

Ariana caminhava entre os pais até o estacionamento. Sol acendia seus cabelos loiros. A caixa do colar ia junto ao peito. Tesouro.  

Seguranças alinhavam o comboio. Carros blindados, homens atentos. Rotina Romano.  

Lorenzo abriu a porta do veículo principal. Antes de entrar, Isabella segurou o rosto da filha. Olhou como quem decora. Os olhos verdes. O sorriso. A vida.

— Mamãe? O que foi?  

— Nada. Só estou te olhando.  

— Como se eu fosse sumir.  

Isabella riu, mas algo vacilou no olhar. Rápido demais pra Ariana notar.  

— Isso nunca vai acontecer — beijou a testa dela. — Nunca esqueça o quanto é amada.  

Ariana sorriu. Sem saber que guardaria aquelas palavras como relíquia.  

Minutos depois, Milão ficou no retrovisor. A festa na mansão esperava. O futuro esperava.  

O comboio Romano cortava as montanhas do norte da Itália enquanto o sol descia. Luz dourada tingia vinhedos e encostas de irreal. Sombras longas deitavam no asfalto. Uma tranquilidade enganosa.

Dentro do blindado, Ariana tocava o colar sem perceber. Precisava confirmar: era real. A tarde existia. Os pais estavam ali. Tudo estava bem.

Isabella observava a filha. O mesmo olhar carregado de amor.  

— Você tá fazendo de novo — Ariana sorriu.  

— O quê?  

— Me olhando como se eu fosse a oitava maravilha do mundo.  

— Pra mim, você é.  

— Mamãe...  

— Sou sua mãe. Tenho licença.  

Lorenzo riu baixo.  

— Sua mãe perdeu a objetividade quando você nasceu.  

— E você não? — retrucou Isabella.  

— Eu tento manter a dignidade.  

— Mentira — Ariana riu. — Você guarda até meus desenhos.  

— Arquivo histórico. Patrimônio da família.  

A risada dela encheu o carro. Leve. Espontânea.  

Lorenzo a observou e o sorriso murchou. Não por tristeza. Por emoção.  

Tão feliz. Tão viva.  

Um aperto estranho surgiu no peito dele. Pequeno. Quase nada. Mas presente.

Seus olhos foram pra janela. Instinto. Lorenzo nunca ignorava instinto.  

A estrada seguia normal. Escolta em posição. Tudo certo.  

Ainda assim, não gostou.

O maxilar contraiu. Isabella percebeu na hora. Sempre percebia.  

— Lorenzo — chamou baixo. — O que foi?  

— Nada.  

Mas não era nada.  

Ariana sentiu. A felicidade continuava, mas uma sombra mínima riscou o ar. Um detalhe.

As montanhas cresceram. A estrada ficou isolada. Curvas fechadas, árvores densas.  

O rádio do motorista chiou. Mensagem baixa. Ele respondeu, olhos na estrada.  

— Algum problema? — Lorenzo inclinou-se.  

— Não, senhor — resposta rápida. Profissional. Mas tensa.  

O coração de Ariana acelerou. Pouco.  

O rádio chiou de novo. Vozes confusas, cortadas.  

— Perdemos comunicação com a equipe à frente — disse o motorista.  

Silêncio pesado.  

Isabella endireitou-se. Encontrou a mão de Ariana. Gesto protetor.  

— Talvez seja só sinal.  

— Talvez — Lorenzo respondeu. Não parecia convencido.  

Quando Lorenzo Romano ficava alerta, existia motivo.  

O comboio avançou. Segundos longos. A felicidade da tarde virava pressentimento. Frio estranho na coluna de Lorenzo.  

Então aconteceu.  

O primeiro carro da escolta freou brusco. O segundo também.  

O blindado principal parou com força. Ariana foi jogada pra frente, o cinto segurou.  

— O que foi? — Isabella perguntou.  

Ninguém respondeu. Todos olhavam a estrada.  

Um caminhão atravessado. Bloqueando tudo. Abandonado. Sem explicação.  

O ar mudou. Instantâneo.  

Lorenzo se moveu. O pai sumiu. Surgiu o homem que ergueu um império. Frio. Rápido. Perigoso.  

— Travas. Agora.  

Mecanismos blindados trancaram.  

— Papai...  

— Fica abaixada.  

Medo real. Cruel. Visceral.  

Lorenzo sacou a arma do paletó. Movimento automático.  

O inferno começou.  

Explosão à esquerda. O chão tremeu. O carro balançou.  

Tiros. Centenas. Talvez milhares. Vidros blindados vibraram. Metal foi perfurado.  

Escolta revidou, mas estava em desvantagem. Homens armados surgiam entre árvores, encostas, pedras. Fantasmas.  

Cheiro de pólvora. Gosto metálico de medo.  

— MÃE!  

Isabella a envolveu.  

— Tá tudo bem — mentiu, voz tremendo. — Vai ficar tudo bem.  

Outro impacto. Mais forte. O carro girou. Ariana bateu o ombro na porta. Dor.  

— Eles sabiam da rota — Lorenzo rosnou. Traição.  

Explosão destruiu um carro da escolta. Clarão. Fogo. Corpos. Metal.  

Ariana nunca esqueceria aquela imagem.  

O motorista tentou manobrar. Tarde.  

Uma caminhonete veio na lateral, velocidade máxima. Colisão devastadora.  

O carro dos Romano perdeu o controle.  

Isabella gritou. Lorenzo chamou a filha.  

O mundo girou. Uma vez. Duas. Três.  

Vazio.  

O blindado atravessou a proteção da estrada e despencou.  

Capotando pela encosta. Metal contra pedra. Vidros explodindo. Sangue. Escuridão.  

Até parar.  

Brutal. Violento. Definitivo.  

Silêncio. Assustador. Impossível.  

O carro, de cabeça pra baixo. Rodas girando devagar acima deles, rangido metálico.  

Sangue escorreu pela testa de Ariana. Visão escurecendo.  

A última coisa que ouviu foi a respiração irregular da mãe.  

E uma palavra. Fraca. Quase inaudível.  

— Ariana...  

Então, escuro.

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