Mundo de ficçãoIniciar sessão*Os Últimos Suspiros*
A escuridão não sumiu de uma vez. Recuou devagar, como maré negra que não quer abandonar a praia.
Primeiro vieram os sons. Abafados. Confusos. Um rangido metálico, repetitivo, interminável.
Depois veio a dor. Intensa. Dentro dos ossos, da cabeça, do peito. Em todos os lugares.
Ariana tentou respirar. O ar entrou irregular, queimando a garganta. Cheirava a combustível, sangue, ferrugem, fumaça.
Abriu os olhos. A visão girava. Estava pendurada. Corpo doendo. Por segundos não entendeu onde estava. Por que doía tanto.
Então a memória voltou.
A explosão. Os tiros. A emboscada. O caminhão. A queda.
O coração disparou.
— Mãe...
A voz saiu rouca, irreconhecível. Tentou se mover. Uma pontada na costela arrancou um gemido. Lágrimas vieram na hora.
O cinto ainda a mantinha de cabeça para baixo. Cabelos loiros manchados de sangue e terra. O vestido de aniversário, rasgado e sujo.
— Mamãe... — mais alto. Desesperado.
Só o silêncio respondeu. E o som das rodas girando acima deles.
Ariana tremeu. Não só de medo. De pressentimento. Da certeza que não queria aceitar.
Com mãos trêmulas, alcançou a trava do cinto. Quando soltou, o corpo caiu contra o teto amassado. A dor arrancou outro gemido, mas ela ignorou. Engatinhou entre vidros, ferragens, sangue.
— Papai...
Nada.
— Mãe...
Nada.
Então viu.
Lorenzo Romano imóvel, preso nas ferragens. Rosto coberto de sangue, olhos fechados. Um pedaço do para-brisa atravessava seu tórax.
O mundo congelou.
— Não... — a respiração falhou. — Papai...
Tentou sacudi-lo. Fazê-lo abrir os olhos. Mas algo dentro dela já sabia.
O homem que parecia indestrutível estava morto.
O som que saiu dela não era humano. Era dor pura. Crua. Dilacerante.
Até ouvir um ruído fraco. Uma respiração.
— Mãe?
Isabella estava viva. Por pouco. Presa entre as ferragens, sangue na testa, no pescoço, nos lábios. Mas os olhos abertos procuravam a filha.
Ariana rastejou até ela, mãos tremendo.
— Estou aqui. Estou aqui.
Isabella encontrou os olhos dela e um sorriso pequeno surgiu. Frágil. Mesmo assim, um sorriso.
— Minha menina... — a voz, um sussurro.
Ariana chorou.
— Não fala. Por favor. Eu vou tirar você daqui. Vai ficar tudo bem.
Ela não acreditava. Mas precisava dizer.
Isabella ergueu a mão com esforço. Dedos trêmulos tocaram o rosto da filha, como fazia desde pequena.
— Ariana...
Ariana segurou aquela mão como se pudesse parar o tempo.
— Eu estou aqui, mamãe.
A respiração de Isabella falhou. O peito subiu devagar, desceu com dificuldade.
— Escute a mamãe.
— Não — Ariana balançou a cabeça. — Não fala assim.
— Escute. — Lágrimas com sangue. — Você foi o maior presente da minha vida.
O coração de Ariana partiu.
— Não...
— O mais bonito. O mais precioso.
Ariana apertou a mão dela, tentando impedir a despedida. Impedir a morte.
— Eu amo você — a voz saiu quebrada, infantil. Como aos cinco anos acordando de um pesadelo. — Eu amo você, mamãe.
Os olhos de Isabella brilharam. Amor. Orgulho. Dor.
— Eu também amo você. Mais do que tudo. Mais que minha própria vida.
Ariana já não respirava direito.
— Então fica. Por favor. Fica comigo.
Isabella fechou os olhos um instante. Quando abriu, estavam mais cansados. Mais distantes.
— Seja forte.
— Mamãe...
— Seja forte. Prometa.
— Não! Eu quero você. Quero o papai. Quero ir pra casa.
Isabella chorava em silêncio.
— Sobreviva — sussurrou. — Viva por nós.
Ariana segurou o rosto da mãe, desesperada.
— Não me deixa. Por favor. Não me deixa!
A respiração de Isabella falhou de novo. Mais fraca. Mais lenta.
— Nunca esqueça... — outro suspiro — que foi amada... todos os dias... da sua vida...
A mão perdeu força. Dedos escorregaram dos dela. O brilho nos olhos se apagou.
— Mamãe?
Silêncio.
— MAMÃE!
O grito ecoou nos destroços. Sem resposta.
Isabella Romano havia partido.
E Ariana ficou sozinha.
O silêncio depois foi pior que tiro. Pior que explosão.
Ficou abraçada ao corpo da mãe, quebrada, até ouvir vozes. Distantes. Se aproximando. Homens. Armas. Passos.
O medo substituiu a dor. Os assassinos procuravam por ela.
Olhou os pais uma última vez. O peito contraiu a ponto de desmaiar.
Então ouviu a mãe na memória:
_Seja forte. Sobreviva. Viva por nós._
Tremendo, começou a se arrastar para fora dos destroços.
Ariana não sabia de onde tirou força. Talvez o choque fosse maior que a dor.
Cada músculo parecia rasgado. A cabeça latejava. A costela esquerda queimava a cada respiração. Joelhos tremiam. Mesmo assim, continuou. Arrastou-se pelo metal retorcido, sentindo ferragens rasparem braços e pernas.
O cheiro de combustível sufocava, misturado ao sangue e à fumaça. Atrás, os corpos dos pais. Deixar eles para trás quase a quebrou.
Quando saiu, caiu de joelhos na encosta. O impacto arrancou um gemido.
O sol da tarde ainda dourava as montanhas, mas tudo estava diferente. O mesmo sol do almoço de aniversário agora lançava reflexos vermelhos sobre a tragédia. Lá embaixo, o carro destruído entre pedras. Acima, a estrada distante.
O silêncio sumiu. Havia vozes. Muitas. Ordens. Portas batendo. Passos. Armas sendo recarregadas.
Procuravam por ela.
O pânico travou sua respiração.
Lembrou do pai: _Quando o medo dominar você, continue se movendo. Parar é morrer._
Fechou os olhos um segundo. Lágrimas caíam. Ouviu a mãe: _Seja forte._
Apoiou a mão no chão e levantou. Pernas vacilaram. A visão escureceu nas bordas. Equilibrou.
O vestido de aniversário, rasgado e sujo de terra e sangue. Cabelos embaraçados. Não era mais a jovem do restaurante. Era uma sobrevivente.
Avançou pela mata. Galhos arranhavam. Espinhos prendiam o tecido. Pedras cortavam os pés pelos sapatos finos. Cada passo, uma dor nova. Mas a imagem dos homens a encontrando era pior.
Lembranças vinham sem controle. O sorriso da mãe. A gargalhada do pai. O abraço no Imperial. A caixinha azul.
Levou a mão ao pescoço. O colar ainda estava ali. _Para nossa eterna princesa._
Uma lágrima desceu.
De manhã era Ariana Romano. Filha única. Protegida. Segura.
Agora, sozinha numa floresta, coberta pelo sangue dos pais, caçada por quem destruiu sua vida em uma hora.
Um galho quebrou. Perto.
Congelou. Prendeu a respiração.
— Procurem mais abaixo! — uma voz.
— Ela não pode ter ido longe!
O sangue sumiu do rosto. Estavam próximos demais.
Abaixou-se atrás de arbustos densos. Vegetação arranhou a pele. Não se moveu. Nem com inseto no braço, nem com pedra na perna ferida.
Passos. Mais perto. Respiração deles. Botas esmagando folhas. Metal de armas.
Corpo tremendo, mãos na boca para calar qualquer som. Precisava sobreviver.
Dois homens passaram a metros. Pretos. Armados. Assassinos.
O estômago revirou. Ficou imóvel.
Segundos viraram horas. Eles seguiram. As vozes afastaram.
Respirou. Alívio curto.
Ao tentar levantar, a costela explodiu de dor. Perdeu o equilíbrio. Caiu sobre folhas secas. O barulho ecoou. Pequeno. Suficiente.
Silêncio acabou.
— EI!
— ALI!
Terror no peito.
— Não! Não! Não!
Tentou levantar. Correr. Pernas falhavam. Mesmo assim fugiu. Galhos no rosto. Lágrimas com suor. Respiração em soluços.
Eles vinham rápido. Cada vez mais perto.
Uma mão agarrou seus cabelos. O puxão arrancou um grito. Foi lançada para trás. Caiu com força. A cabeça bateu na terra. Visão branca.
Quando tentou erguer, era tarde.
Quatro homens. Armas apontadas. Olhares frios. Sem humanidade.
Um segurou seu queixo com brutalidade, obrigando a olhar. Percorreu os cabelos dourados, os olhos verdes, o sangue, o medo.
Sorriu. Um sorriso que gelou Ariana.
— Encontramos a princesa Romano.
Ela
se debateu. Fraca. Inútil.
O homem apertou mais.
— O chefe vai ficar muito satisfeito.
Naquele instante, entendeu.
Nunca quiseram matá-la.
Queriam viva.
E isso era muito mais assustador.







